Francisco de Assis Almeida Brasil, mais conhecido como Assis Brasil, foi um romancista brasileiro que escreveu obras de ficção, contos, ensaios e crítica literária
Romancista, cronista, crítico literário e jornalista, atuou como crítico literário, intensamente, na imprensa brasileira, especialmente no Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Correio da Manhã e O Globo, assim como nas revistas O Cruzeiro, Enciclopédia Bloch e Revista do Livro.
Tem mais de 100 obras publicadas, entre elas Beira Rio Beira Vida, 1965; A Filha do Meio Quilo, 1966; O Salto do Cavalo Cobridor e Pacamão (Tetralogia Piauiense); Os que Bebem como os Cães (Ciclo do Terror); Nassau, Sangue e Amor nos Trópicos, Jovita e Tiradentes (romances históricos)
E todas as vezes que releio, sinto de novo a mesma angústia e desespero do Jeremias como se fosse a primeira vez.
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Lançado em 1975, durante ditadura militar brasileira, faz parte do movimento do novo romance brasileiro, marcado pelas inovações e experimentações das técnicas narrativas.
Narra a história de Jeremias, preso político, que um dia acorda em sua cela (escura, de chão batido, fétida) com as mãos algemadas às costas, sendo obrigado a beber e comer como um cão. Ele não sabe quem é, porque está preso nem quem são seus algozes. Sua rotina é repetitiva, o que é demarcado pelos 41 capítulos dos livro - a cela, o pátio e o grito - que seguem em looping, sempre na mesma sequência.
Acompanhamos a batalha do personagem para recuperar sua identidade, que drogado pelos guardas, oscila entre momentos de lucidez e de torpor. Este romance é um instrumento de denúncia da violência do homem sobre o homem e a opressão de um poder totalitarista, as consequências de uma existência sem dignidade e da perda da liberdade. Trata-se da representação da realidade dos anos de chumbo, sendo Jeremias uma alegoria da parcela da população brasileira que se opôs ao governo militar.
O livro relata a batalha pela memória pessoal do personagem e a luta pela liberdade de expressão. Demonstra como o conhecimento, o pensamento, o saber podem ser perigosos e nem sempre levam à libertação, mas ao desespero.
Vivendo enclausurado, em busca de sua identidade, em um pátio falso, protestando porque se submeter não faz parte de sua natureza, chamando os presos (e o leitor), Jeremias recorda seu passado, descobre as razões de sua prisão. Comete o ato último de protesto junto muro branco.
"Os que bebem como cães" é um livro muito diferente de tudo que já li.
Achava que a forma como a Lygia construia a embriaguez e estar fora de si seria genuinamente a melhor representação da sensção que eu leria em minha vida, mas Assis Brasil é impressionante; se perder no tempo, ser incapaz de marcar o compasso, viver junto ao personagem a torturante sensação de ser privado de qualquer referencial. Para mim é o que torna o livro genial.
Uma história sobre o embriagante horror do cárcere, da tortura, da brutalidade, da ditadura militar. E da resistência possível - mesmo que quase mesquinhade tão pequena; mesmo que só simbólica de tão restritiva a opressão; mesmo que auto-destrutiva, de tão poderosos os algozes. Não é livre de uma camada quase piegas de tão liberal, mas em tempos de renascimento do fascismo talvez as vezes tenhamos que dar um desconto aos cada vez mais raros gritos "ódio e nojo", mesmo que venham dos Ulysses Guimarães da vida, entende? Não deixa de ser intrigante, desesperador, e relevante.
A própria estrutura e repetitividade dos capítulos junto da bruma sobre toda a história que aos poucos se levanta, juntas criam um jogo de luz e sombra literário inédito. É um livro espetacular em conteúdo e em forma. Emocionante como um grito tirado do fundo da alma antes de ser amordaçado e jogado de volta a sua cela.
Acho que um dos livros mais difíceis que já li, que nos mostra como regimes autoritários perseguem intelectuais que não seguem o mesmo ponto de vista, e como tais regimes torturam seres humanos a ponto de transformá-los em pouco mais que animais. Pesado, triste, necessário.