Nos contos de 'Leão de Chácara', João Antônio, vai buscar os seus personagens no meio do povo humílimo das grandes capitais (São Paulo e Rio de Janeiro), entre a arraia miúda que aprende a viver nos embates, trancos e barrancos da rua, postos à margem da ordem social, que suportam ou enfrentam de acordo com as circunstâncias. Segundo o autor, as narrativas são sumarentas de vida e porejantes de verdade humana, não aparecem protagonistas marcados por traços pitorescos que os transformem em coloridas figuras do folclore urbano - pelo contrário - são o retrato veraz das camadas sociais a que pertencem, estão recortados com total fidelidade e na plenitude de suas grandezas e misérias.
João Antônio Ferreira Filho was a Brazilian journalist and short story writer, who became known for portraying the lives of marginalized people inhabiting the outskirts of large cities, such as bandits, workers, vagrants and malandros.
Born into a family of small shopkeepers in a suburb of São Paulo, João Antônio worked in low paid jobs before releasing his first collection of short stories, Malagueta, Perus e Bacanaço, in 1963, for which he won several awards: two Jabuti Prizes (best new author and best book of short stories), the Prêmio Fabio Prado and the Prêmio Municipal da Cidade de São Paulo. The double Jabuti award was an unprecedented feat for a rookie writer. Malagueta was originally written in 1960 but the manuscript was destroyed in a fire. Antonio then spent the following two years rewriting it.
This literary success led him into a career in journalism, his first job being with the Jornal do Brasil. He was a member of the founding team of Realidade magazine (1966), which published the first short story of Brazilian journalism, Um Dia No Cais (1968). He subsequently worked for Manchete magazine, the newspaper O Pasquim and various alternative press outlets, opposing the military regime in Brazil. During this period, João Antonio alternated residence between Rio de Janeiro and São Paulo.
In 1967, he married Marilia Mendonça Andrade; his only son, Daniel Pedro, was born in the same year. In the late 1960s he decided to radically change his life. He quit his job, sold his car, left his wife and began to devote himself entirely to literature.
Antônio wrote fifteen books in total, but he always refused to participate in ceremonies and to join groups and literary academies, only accepting invitations to speak at schools and universities. He traveled throughout Brazil in 1978 and Europe in 1985. In 1987 he was awarded a scholarship and settled in Germany, where he remained until 1989. During this period, he also visited the Netherlands and Poland, holding numerous conferences.
Antônio died alone in 1996, in Rio de Janeiro, his body only being discovered fifteen days after his death.
"No mundo tem dois tipos de gente: os que aturam e os que faturam. E a grana vai falando mais alto e grosso. Cá de minha parte, tenho faturado pouco e aturando muito. Outras certezas: em lagoa de piranha, jacaré nada de costas ou procura as margens. Quem vacilar e não for dedo duro se estrepa. A vida não costuma fazer graça pra ninguém. É como a féria que eu cato no da noite; ela chega porque me viro. Botem fé, nada cai do céu ou nasce por acaso. O que cai do céu é chuva e esta vida cachorra é uma dissimulada dos capetas, em que cada um está na sua, bem plantado e disfarçado. E, lá por dentro, uns querendo que os outros de ralem. O esperto muito acordado, o trouxa muito cavalo. No fundo - no fundo mesmo, empatam: cada um corre atrás do seu pedaço. Podendo, um come o outro pela perna."
A musicalidade que o JA consegue botar na prosa dele não é brincadeira. São termos e expressões que nunca ouvi antes, mas de alguma forma entendo perfeitamente o significado.
Destaque para o último conto, Paulinho Perna Torta, história da ascensão e queda de um malandro.
O João Antônio tinha que escrever o urban dictionary porque nunca vi tantos jeitos diferentes de chamar alguém de vacilão. Os contos são curtos, com cenários bem vivos e um ritmo eletrizante, muito por conta da linguagem que é um negócio infectante. É interessante também como em vez de cair só numa descrição do ambiente da malandragem, ele dá uma visão de quem são as pessoas por baixo daquilo tudo, suas aspirações, desejos e onde queriam estar em vez de ter que viver desse jeito. Gostei muito.
Fico envergonhado de confessar que não conhecia o trabalho de João Antônio. Um escritor sensacional, que escreve com precisão de relojoeiro, uma prosa de aparência simples e despojada mas repleta de sofisticação. Queria ter lido esse livro há 30 anos atrás.
Quando li pela primeira vez, senti como se o livro me pegasse pelo braço até o canto de um balcão qualquer e me contasse as histórias no ritmo da cidade, como se cada palavra coincidisse com o quebra-quebra da construção da esquina. Lendo pela terceira vez, sinto o mesmo. Prosa de ritmo impecável, picardia brilhante e força de ver que todos somos parte dessas histórias feitas de bebida, noite alta e literatura. Heróis invisíveis nas sombras, nas dobras da cidade, cujo prêmio é o dia seguinte. E que outro prêmio há?
João Antônio tem uma linguagem própria. Usa a fala das ruas e a traz para as histórias, o que se torna o ponto positivo do texto. Porém, algumas descrições ficam um pouco cansativas. Considerando a riqueza da linguagem, esperava um pouco mais do livro como um todo.
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A figuração de uma maioria da sociedade quando notada em raros causos artísticos parece sempre descambar em motins risíveis de quem tende a padronizar a escrita, principalmente para uma marginalização da linguagem, pejorativamente falando. Eis que surge a preocupação do leitor de desviar das lacunas invisíveis, que não serve para chegar até a literatura, que por sua vez, não escolhe existir nas classes sociais, e sim o contrário, a literatura é maior do que projetos econômicos e culturais, é fronteira morta, a permissão da experiência de viver acabando com limites. João Antônio em “Leão-de-chácara”, vai esclarecer essa substância dita acima, sua percepção é nítida quando utiliza uma formalidade nas descrições e seus personagens quebram essa estrutura invadindo com seu cotidiano. Cada conto deste pequeno grande livro, exemplificam esferas em que o autor já está acostumado a tratar em seus escritos. Submissão a língua formal e informal, enredos subliminares e poesia urbana, são algumas dessas esferas. Cabe um esforço em retratar tais contos minuciosamente, pois eles escapam de nós, são datados pelas expressões já obsoletas, porém isso não tende a transformar a obra em estudo histórico, pelo contrário, o estudo literário envolve justamente essa temporalidade das expressões e como formalmente elas eram ou não, e colocadas como marginal hoje talvez seja passível de equívoco. João Antônio conseguiu esse feito, a ilusão das expressões cotidianas, que buscam compreender a dimensão de nossa língua e de nossas possibilidades literárias. Um livro com gosto de areia de asfalto, que logo aparecem personagens noturnos, diurnamente melancólicos, distraídos da sociabilidade, perigosos e fofoqueiros. Um espelho informal do acontecer urbano.