Não será a obra mais agressiva de Sarah Kane, nem sequer a mais difícil de ler e entender, mas está longe de ser pêra doce.
O discurso é fragmentado, no habitual tom sombrio e desesperado. As personagens, quatro, não têm nomes, são designadas por letras, A, B, C e M. Não há indicação do sexo a que pertencem e só de três delas percebi a identidade. E sem certezas...
Ao contrário do que é habitual nas peças de teatro, aqui não há descrição do cenário, nem posicionamento das personagens. Fica a cargo da nossa imaginação, e depois vamos percebendo que isso são pormenores que não interessam nada; aqui, o que interessa é o que se sente, não o que se vê.
É portanto, um mergulho nas trevas, e dos Infernos de Sarah Kane só emerge dor e solidão, e uma busca desesperada por salvação, redenção...mas é uma busca feita de maneiras enviesadas, que acaba tendo o efeito contrário...
Os diálogos sucedem-se em catadupa numa cadência desordenada e indistinta; não adianta andar para trás e para a frente na leitura, perdemos sempre o norte...
Não há momentos felizes na obra de Sarah Kane, se os houve, emergem do passado em lembranças dolorosas ou são almejados num futuro incerto.
Mas há poesia; em cada palavra dura, em cada grito, em cada lamento há poesia...
Aos leitores, ou espectadores destas peças, resta-lhes a perspectiva de sair dali tão despedaçados quanto as personagens.
Mas volta-se sempre...