Então, esse livro me desgraça a cabeça.
Vejam bem, eu amo a Hilda. Eu acho a Hilda uma mulher cultíssima, engraçadíssima, finíssima - superlativa, de uma forma geral. É bastante provável que ela seja minha escritora brasileira favorita.
Mas esse livro.
Eu gosto desse livro a contragosto. Eu gostaria de ser uma pessoa coerente e dizer que não gosto desse livro, apesar de gostar tanto da Hilda. Mas a vida e meus gostos estão longe de serem coerentes.
A priori, eu tenho pavor de lírica amorosa. Acho cafona demais. Esses extremismos e desfalecimentos todos, meh. Essa in-ten-si-da-de.
Não tem nada que eu deteste mais que esse caldeirão de sentimentos. Argh. Por mais que o poeta seja um fingidor, claro. Ainda assim a minha vontade é ligar uma mangueira num hidrante e ensopar todos eles, os in-ten-sos.
E, no entanto, essa mulher escreve tão bem a ponto de eu achar até a lírica amorosa dela muito boa.
Claro, há o pulo do gato - porque sempre há o pulo do gato. E ele está além do diálogo que me interessa com a poesia clássica (Catulo é outro de quem gosto a contragosto) ou as cantigas de amigo medievais, ou ainda à última parte, mais política, dedicada aos "homens de nosso tempo".
No fundo eu gosto desse livro porque eu sei que ela vai além do verniz da lírica amorosa. Que o que está em jogo, na verdade, é o exercício da construção do amor como estética. Ariana já avisa Dionisio que ele é, na verdade, uma construção dela - e o amor é, nesse caso, e de uma forma muito mais interessante, linguagem.
Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu
Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.