A Internet faz renascer o sonho de universalidade no qual toda a humanidade participa do intercâmbio de idéias. Mas suscita também a angústia de ver desaparecer a cultura do livro. Qual é o futuro do livro? O que nos ensina seu passado? Roger Chartier mostra por que a história do livro é inseparável dos gestos violentos que o reprimem, dos autos-de-fé à censura, mas, também, como a força do escrito tornou tragicamente derrisória esta obscura vontade. Na evocação do jogo de papéis entre autor, leitor, editor e suportes técnicos do escrito, Chartier preserva tanto da nostalgia conservadora como da utopia ingênua.
Roger Chartier is a French historian and historiographer who is part of the Annales school. He works on the history of books, publishing and reading. He teaches at the École des Hautes Études en Sciences Sociales in Paris, the Collège de France, and the University of Pennsylvania.
O Copyright é de 1997. Dezoito anos se passaram e o livro de Chartier continua atual, mesmo não tendo especificidade em assuntos mais contemporâneos em seu núcleo temático. Apesar de nos apresentar um panorama do livro e da leitura na Europa - pois o autor é francês e muitos assuntos englobam e transbordam as fronteiras francesas - nos é perceptível a influência da cultura francesa, quando se trata da história do livro e da leitura, no território brasileiro. O autor nos mostra a metamorfose dos suportes de escrita e o próprio sentido que seu deu à escrita na história e como que a leitura era entendida no decorrer dos séculos, suas variações e significações. Primeiro, vemos uma historiografia do que se entende por autor, desde os tempos mais remotos à atualidade quando o autor se vê num embate entre o suporte escrito e eletrônico. Posteriormente, passa-nos, sem mais delongas, aos assuntos que são inerentes ao livro, como o texto, o leitor, a leitura, a biblioteca e a (tentativa histórica da) universalização do conhecimento registrado. Sem muito academicismo, mas também sem banalidades, o livro nos depõe um ensaio historiográfico com objetivo de compreender o suporte eletrônico - e a dita revolução que ele promete causar. Alguns pontos são bem interessantes: a existência de locação de livros por hora para leituras ao ar livre, muito comum na França do século XVIII. A leitura em voz alta era regra até o começo do século XVIII; ler em grupo, com a família e no coletivo era uma atividade corriqueira, a oralidade transpunha a leitura silenciosa. Com a decorrência das três revoluções industriais do livro e o crescimento vertiginoso do mercado editorial no século XVIII e XIX, o leitor passou a ocupar o gabinete de leitura e a praticar a leitura silenciosa (a comunhão da individualidade da leitura com a coletividade dos espaços de leitura). Por fim, o livro nos orienta com relação a dita “grande revolução digital” quando observamos as mudanças de suporte e de leitura sob uma perspectiva histórica. É importante frisar o capítulo “A biblioteca: entre reunir e dispersar” e “O numérico como sonho de universal” aos profissionais bibliotecários, para compreender um pouco do cenário da biblioteca, livro e leitura no Brasil e de como ações que entendemos como inovadoras em nosso país já são datadas do começo do século XX na França e nos Estados Unidos (o que não deslegitima, claro). "Sendo assim, o futuro da revolução do texto eletrônico poderia ser - poderá ser, eu espero - a encarnação do projeto das Luzes, ou então um futuro de isolamentos e de solipsismos".
Um guia para a maneira como as nossas interpretações sobre a importância do livro modificaram ao longo do tempo. Chartier faz uma crítica muito pertinente às bibliotecas e à leitura digital. Vale muito a pena ser lido em uma época em que estamos ressignificando a nossa relação com o livro e a leitura.