A ascenção, o declínio e as vicissitudes de uma família burguesa do Porto, que Agustina descreve e ficciona exemplarmente: "No ano de 1971 caiu sobre a família dos Carrancas uma série de calamidades. Aconteceram num ritmo tão rápido que não deixaram de impressionar toda a gente. As pessoas felizes desagregavam-se. Umas conheceram a ruína porque se entregaram a especulações delirantes e absurdos negócios. Outras foram arrastadas por sentimentos desprezíveis, perseguindo nos tribunais sócios ou inquilinos. E outras ainda morreram de maneira desastrosa." As Pessoas Felizes, cuja primeira edição é de 1975, faz a reflexão e o diagonóstico de uma sociedade que pouco depois se iria envolver drasticamente nos acontecimentos políticos e sociais do 25 de Abril. Um romance que marca significativamente o percurso literário de Agustina Bessa-Luís.
Agustina Bessa-Luís was born in Vila Meã (Amarante) in 1922. Her father's family was from the north of Portugal and her mother was Spanish.
She lived her childhood and teenagehood in the region of Douro, Minho and then Coimbra in 1948. She married Alberto Oliveira Luís in 1945 and after 1948 she moved to Oporto.
She started writing at the age of 16 and in 1950 she published her first novel, Mundo Fechado. In 1952 her talent was recognized with the award Delfim de Guimarães, for her book Sibila, which also received the award Eça de Queirós the next year.
In 1958, she gave her first steps in theatre, writing the play O inseparável.
Between 1986 and 1987 she was the director of the diary O Primeiro de Janeiro in Oporto. Between 1990 and 1993 she was the director of D.Maria II Theatre in Lisbon and a member of the Alta Autoridade para a Comunicação Social.
She is a member of the Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres in Paris, of the Academia Brasileira de Letras and the Academia das Ciências de Lisboa, being also recognized at Ordem de Sant'Iago da Espada (1980), Medalha de Honra da Cidade do Porto (1988) and degree of "Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres", given by the French government (1989).
Various works have been translated in various countries and some were adapted to the cinema, such as Francisca, Vale Abraão and As Terras de Risco by Manoel de Oliveira. Her novel As Fúrias was adapted to the theatre by Filipe La Féria.
At the age of 81, Agustina Bessa-Luís received the Camões Award, considered the most important portuguese award.
Agustina Bessa-Luís nació en Vila Meã (Amarante, Portugal) en 1922, de madre española y padre portugués. Es miembro de la Academia Europea de las Ciencias, las Artes y las Letras de París, de la Academia Brasileña de las Letras y de la Academia de las Ciencias de Lisboa. Sus numerosos libros le han valido las más importantes distinciones, como la de Santiago da Espada (1980), la Medalla de Honor de la Ciudad de Oporto (1988) o el grado de Oficial de la Orden de las Artes y las Letras del gobierno francés (1989). En 2004 recibió el galardón literario más importante en lengua portuguesa, el Premio Camôes.
That's a social analysis of the people who dominated the streets of a bourgeois, scandalous Oporto. Nel, the character who distances himself morally through innocence from this scandalous society, is close to it. Passions, love, war, the community's portrait, and the changes that take place over the great years of change - the troubled years of the dictatorship and the suspicion of the 25th of April - by the pen of one of the greatest writers of all time. Please read it, and read Agustina. It's a favor you'll do yourself.
COMENTÁRIO ⭐⭐⭐⭐ As Pessoas Felizes Agustina Bessa-Luís
Século XX. Ao longo de todo o século. Porto. Uma família da alta burguesia do noroeste português.
Uma poderosa personagem feminina. Manuela nas primeiras páginas, mas que logo se transforma em Nel. Uma mulher que percorre com as mais secretos desejos grande parte do século XX.
Agustina escreve um poderoso fresco de um mundo burguês do Porto em profunda transformação e onde as mulheres adquirem a premência pública que já tinham no quotidiano privado.
Escrito em 1974, publicado em 1975 este é um livro sem trama, um livro sobre o ambiente social dos tempos que se viveram a partir dos anos 30.
Um detalhe. A constante presença inter textual de Tolstoi, e de Anna Karenina. A conexão estará pois, entre outros aspectos, na ideia de felicidade presente no título, e em quase toda a obra.
Mais uma leitura da iniciativa Agustina & Saramago, onde estou a ler obras dos dois autores como modo de comemoração dos centenários dos seus nascimentos.
A escrita de Agustina é profunda, complexa e requer uma leitura atenta com vários recuos e idas ao dicionário. No prefácio, António Barreto informa o leitor que “ este [romance] também não tem enredo. Quase não tem enredo. (…) os locais de Agustina são as memórias, os sentimentos, ou as consequências do real. E as alusões (…) a cronologia de Agustina é sempre incerta, ou antes, nunca é certa, pois é feita de memória e sem sequência”. Assim, ficamos logo a saber que não vai ser fácil, mas que é fascinante e compensador, isso é.
O enredo situa-se no Porto no final do Estado Novo. Estamos perante uma burguesia muito tradicionalista e conservadora que circula entre a cidade e o meio rural. “O lugar era o Porto. Cidade com um preconceito a respeito do trabalho, como outras têm a respeito do prazer, ela era sobretudo uma terra onde a curiosidade é o vandalismo da inteligência e uma espécie de antologia do vazio. O gume da curiosidade actua nos mais insólitos campos, até no olhar que mede a miséria do pobre, esse pobre que vive na via pública e menos da caridade do que da curiosidade burguesa. “ (p. 63)
Nel, a personagem principal, é incapaz de ser feliz apesar da sua riqueza interior, “ O que faz as pessoas felizes é não terem vida interior. “ (p. 118). Ela é a ameaça da estabilidade familiar. Ela vive rodeada de gente frívola e medíocre que deve manter as aparências: “Carranca tinha um ideal, a bem dizer ao nível duma preocupação: conservar a fortuna, a honra e os amigos, o que é demais para um mundo em mutação onde a mediocridade ainda faz triunfar um homem, mas onde os seus talentos não servem para lhe assegurar o triunfo. “ (p.62) Nel , desde muito jovem, era aconselhada a não pensar. “Pensar é um ofício para os pobres. Goze a vida, conheça gente bela, cultive alcachofras, coisas pouco substanciais. “ (p. 60). Era indesejada porque temida.
No livro, Nel personifica a beleza e a riqueza de uma região que pretende mudar, modernizar-se, contudo rejeitada por uma sociedade conservadora e acomodada a valores ultrapassados que teme a novidade, a incerteza.
Recomendo. Como todos os livros de Agustina que já li, também este nos enche a alma pois obriga à reflexão. Também apreciei a constante presença de Anna Karénina, de Tolstoi pela voz de Nel.
Livros sem enredo com personagens que nos transportam para uma discussão sobre sentimentos e costumes: eis um sumário dos livros de Agustina. O mesmo se aplica a este romance. Aqui, Agustina escreve sobre as alterações sociais que se faziam sentir no período do Estado Novo; alterações essas que pressagiavam a revolução de Abril, já que uma revolução não é tanto ruptura, mas antes o culminar dum desconforto já instalado, generalizado e, o mais das vezes, amorfo. Agustina parece querer responder à pergunta: o que faz as pessoas felizes?, ainda que, naturalmente, não nos consiga oferecer uma resposta definitiva. Mas na desconstrução do relacionamento entre homens e mulheres, e destacando a emancipação feminina, personificada por Nel, a heroína desta história, Agustina propõe-nos uma reflexão sobre a felicidade que se opera quando estamos limitados no nosso campo de acção e em que podemos confiar na hierarquia das relações humanas. Uma proposta provocadora que nos remete para a incerteza sobre se as mais importantes conquistas de Abril, liberdade e igualdade, são necessariamente sinónimos de felicidade. É de sublinhar que este livro foi publicado em 1975. Sublime.
Admito, sem vergonha, que sendo apenas a segunda obra que leio da Agustina Bessa-Luís, me faço sempre acompanhar de um dicionário. É uma obra sem enredo, é uma obra à beira da revolução, cujo protagonista é a burguesia nortenha. Faz-me muita falta em obras mais contemporâneas, o que consegui encontrar em As Pessoas Felizes: onde é exigido ao leitor a interpretação e concentração no que está subentendido nas (infelizmente!) poucas páginas que a Agustina nos oferece nesta obra. E fascinou-me a presença do Tolstoy através da personagem Nel. (Vou sem dúvida reler Anna Karenina. E continuar a explorar com muita calma e atenção as narrativas que a Agustina nos deixou.)
"O Porto é rude como a rocha onde tem alicerce. Não se esqueça que o Porto é a estação terminal do Douro, a região mais violenta de Portugal. Violenta porque carrega a miséria com o desprezo. Lá, a pobreza vexa mais a alma do que fere o corpo..."
Coisa estranha, um prefácio que nos prende. É excelente o prefácio de António Barreto. Sobre as Pessoas Felizes, o início entusiasmou-me muito, mas o entusiasmo esmoreceu na segunda metade.
*** A Agustina inquieta-me e cansa-me imenso! Sinto-a profunda,complicada e valiosa mas não consegue cativar-me (ou o contrário)... É intensa,deixa-me com medo e sem vontade de voltar... ***
As Pessoas Felizes, de Agustina Bessa-Luís, não é só um romance — é nova moeda de pleno curso em acidez lúcida, para coleccionadores de fragmentos irregulares e herdeiros espirituais das matriarcas do Douro que ignoram o mindfulness, mas praticam, sem saber, o sublime exercício de olhar para a vida com um azedume depurado, invejável, que faz cócegas à inteligência distraída. Nem vale a pena esperar por facilidades narrativas: Agustina escreve, como sempre, num pacto insolente com o caos biográfico das personagens — e que bom que é tê-la assim, dando pontapés no consenso moderno de que “leitura acessível” é virtude. A cada página, desconfia-se que a autora foi secretamente picada por aqueles demónios que tolhem a piedade e devolvem ásperos gestos de lucidez, obrigando o leitor a mastigar frases densas, cheias de subentendidos. Não há ali espaço para literatura feita à medida do consumo rápido ou dos salões de aplauso higiénico. As suas personagens, sorridentes de infelicidade muito própria, fazem lembrar tias-avós com grande stock de frases ruins, isto é, gente que sabe ser feliz ao lado do irremediavelmente insuportável. A “indústria” dos prazeres fáceis aqui não entra; a Agustina dispensa as modas que passam, as listas de tendências, as balizas polidas dos clubes literários a que só falta playlist. Quem lê este livro nem precisa de dizer que andou com Agustina à mesa, ou que reconhece certos “mergulhos no Douro de Agosto de 1967”; basta ver quem sublinha passagens ao estilo “riso entredentes sobre a desgraça alheia” e come pão com marmelada sem nostalgia, porque sabe que o sabor muda com os anos e com os silêncios herdados. E se alguém perguntar porque não se fala em “felicidade” moderna, embalagem reciclável, pode responder-se que, nas páginas de Agustina, só faz sentido procurar alegria como quem procura vinho bom: recusa-se sempre o rótulo fácil, aceita-se a borra. Livro feito para leitores habituados a trinchar textos como galinha velha: dá mais trabalho, mas rende caldos inigualáveis. A felicidade aqui é, acima de tudo, o prazer do texto árduo e infinito — prazer que só entende quem já avançou muito por essas páginas, sorrindo sozinha por se reconhecer nas entrelinhas ferinas, como quem encontra os olhos da avó num espelho antigo, sem nunca precisar de dizer: “sou da família”.
Eu tentei muito gostar deste livro, mas tive de desistir dele. Ao fim de 60 páginas não tinha entendido NADA do que tinha lido. Talvez seja eu que não tenho as capacidades necessárias para ler um livro como este, mas a quase inexistência de um enredo, de construção de personagens e os constantes comentários políticos e filosóficos cheios de floreados impediram-me de continuar a ler este romance. Espero vir a dar outra oportunidade a Agustina mas, depois deste, fiquei sem vontade. Dei duas estrelas em vez de uma pelo benefício da dúvida de ser eu o problema e não o livro, e também porque não o terminei.
Fiz muito bem em ter desistido do livro em Maio e te-lo adiado para as férias. Este livro exigiu-me muito CPU e atenção, e então ler assim de levada, com a cabeça livre de preocupações e cansaço foi ideal.
Este livro é denso, plotless, difícil de ler e fiquei surpreendida por ter ficado agarrada ao livro, até às últimas 20-30 páginas. No entanto há milhares de referências que me passaram ao lado. E sei que não saboreei o bolo na totalidade. Foi a minha introdução à Agustina. Foi uma experiência muito satisfatória, e certamente voltarei a este livro quando for uma senhora mais madura.
Nada se assemelha a ler Agustina. É necessário uma entrega e capacidade de lidar com a frustração difícies de combinar. A sua lucidez é abismal. Se compreendi completamente o livro? Não, nem perto! Mas acho que é precisamente esse sentimento de quase contínua frustração na imediação não declarada de uma hipifania que me faz presistir e continuar a ler esta autora incrível. Um livro de 200 páginas que somos obrigados a ler mais devagar que um de 500.
“De certa maneira era uma mulher misteriosa. O hábito da infelicidade impusera-se-lhe, quase se lhe afeiçoara. O que ultrapassava nela todos os conceitos morais era a fidelidade ao seu destino." "Querido, tudo isto é uma infelicidade que se ama. Faz-nos companhia pela vida fora, fechada no coração" - dizia Nel ao primo, 1 dezena de anos mais novo, e que viu nascer. "A magnanimidade é o deserto dos desejos humanos"
Este livro começou por me deliciar, pela escrita profusamente recortada, pelas lindas e redondas metáforas que ilustram algo em vez de o efectivamente dizerem directamente. E por um sentimento regionalista de ver a nossa região, a nossa cidade, apresentada ao mundo nacional, e conhecer a sua vida de início de século XX. Mas fui obrigada a baixar o rating, porque, demasiadas vezes fiquei sem a entender... Não pela dificuldade do léxico, que era afinal forma de enriquecimento, mas por não entender de facto as ideias subjacentes, o que se tornou demasiado cansativo. Em termos gerais, a história e o conteúdo não "compensou" as dificuldades de leitura...
"Não há muito enredo sobre o qual se possa comentar: a narração utiliza Nel e o seu crescimento como um modo de manter uma certa unidade, desenvolvendo-se nas personagens e ambientes em torno dela, mas pouco mais contém nesse sentido. A expressão de uma facção muito específica da sociedade portuguesa – a burguesia nortenha, e em particular a do Porto – é a protagonista. O romance foca-se, então, na sua caracterização, recorrendo a um leque de personagens que lhe demonstram as facetas, nuances, e desenvolvimento ao longo dos anos. (...)"