Aristóteles, em quem a propensão para observar, classificar, correlacionar e inferir tinha permanecido inalterada via o paralelismo entre Sócrates a aproximar-se da execução e Rembrandt a aproximar-se da bancarrota.
Imaginem Que é um livro brilhante no qual se traçam não só os primórdios da civilização ocidental enraizados na Grécia antiga, como as ligações entre essa civilização e a o mundo moderno. Mas Heller vai mais longe e propõe que a primeira república moderna europeia nasce na Holanda de século XVII, filha das repúblicas utópicas clássicas, e assim se transfere para o continente americano - o que não é, de todo, descabido - e é essa primeira proposta que alimenta todo o livro.
Mas, se fosse só isto (e já não era pouco) eu não teria saído deslumbrada desta leitura que é uma extraordinária collage cujo objetivo (a sua segunda proposta) é o de provar que toda a História é pura falácia.
E, para isso, o narrador salta constantemente entre épocas e acontecimentos análogos:
Tinha Sócrates sessenta e cinco e Platão vinte e quatro quando Atenas foi submetida a um bloqueio por barcos financiados pela Pérsia e comandados por Espartanos, que, pelas amargas experiências anteriores contra os Atenienses, já tinham então aprendido a fazer a guerra no mar. Em terra, a cidade voltava a estar sitiada. A população amontoava-se de novo no interior das muralhas no fim de uma guerra iniciada vinte e sete anos antes.(...)Tinha Rembrandt quarenta e sete anos e pintava o seu Aristóteles, as costas da Holanda foram bloqueadas pelos Ingleses que, com a experiência das lutas contra os Holandeses, haviam aprendido a construir barcos de guerra maiores, capazes de transportar armamento mais pesado. Perceberam, também, que havia mais dinheiro no comércio do que na agricultura e na criação de gado, tal como os Holandeses haviam por sua vez aprendido com os Portugueses.
E, usando como gérmen para essa reflexão, o quadro Aristóteles Contemplando o Busto de Homero, de Rembrandt, alimenta poderosas correlações em que se entremeia a biografia do pintor e as vidas dos retratados numa mescla de arte, filosofia, política e cultura:
Quando os Holandeses desalojaram os Portugueses das Molucas, no oceano Índico, e estabeleceram o seu monopólio mundial de cravinho e noz-moscada, Rembrandt, que tinha nove anos, matriculou-se na escola de Latim.
Shakespeare morreu. (...)
Em 1617, Rembrandt celebrou o seu décimo primeiro aniversário e Snellius desenvolveu a técnica da triangulação trigonométrica para a cartografia, utilizando a Estrela Polar para medir as latitudes das cidades holandesas de Alkmaar e Bergen-op-Zoom.
No oitavo ano da Paz dos Doze Anos, os Holandeses juntaram-se aos Ingleses para enviarem barcos de guerra para Veneza, para a ajudarem a lutar contra os Habsburgo da Áustria.
Rembrandt acabou o curso na escola de latim dois anos antes de ser reatada a guerra com a Espanha, dois anos depois de William Harvey, do Hospital de São Bartolomeu, em Londres, ter anunciado pela primeira vez a sua descoberta da circulação do sangue enquanto os primeiros escravos negros chegavam à colónia inglesa da Virgínia, precisamente doze anos depois de ter sido fundada a cidade de Jamestown.
O poder de Imaginem Que reside assim numa força narrativa muito próxima da fabulação em que as histórias, ao jeito de matrioscas, se encaixam umas nas outras sendo o fio condutor da narrativa desenrolado pelo narrador ao estilo de As Mil e Uma Noites, com uma mestria sem igual, capaz de deixar o leitor (que sabe sempre o desfecho da história a menos que não saiba nada de História) em suspenso e, sobretudo, em check pois é constantemente lembrado de que a sua realidade é uma longa sequência de acasos que, qual teoria do caos, nos trazem até ao momento presente:
Em 432 a. C., Péricles decretou uma lei que proibia os barcos de Mégara de entrarem nos portos do império ateniense. Isso ajudou a levar à guerra.
E também levou àquela prolongada série de acontecimentos em que Atenas saiu derrotada; o império foi destruído; a democracia foi proibida e depois restaurada; Sócrates e Asclépio foram julgados, considerados culpados e executados; Platão escreveu as suas filosofias e inaugurou a sua escola; Aristóteles chegou a Atenas como estudante e partiu como fugitivo e, mais tarde, durante uma guerra diferente, Rembrandt pintou-o em Amesterdão a contemplar um busto de Homero que era apenas um exemplar, e, em resultado disso, como conclusão de vários séculos de viagens arriscadas, efectuou em 1961, facto efectivo e verificável, a triunfal passagem das Parke-Bernet Galleries, no cruzamento da Avenida Madison com a Rua 77, na cidade hoje chamada Nova Iorque, para o Metropolitan Museum of Art na esquina da Quinta Avenida com a Rua 82, antes de John F. Kennedy ter sido assassinado entre a guerra da Coreia e a guerra do Vietname.
É muito claro para Heller que a história se repete, que nada é independente na linha histórica, que não há acidentes e raros são os desvios de percurso pois os condutores do destino são sempre os mesmos, ontem como hoje, movidos pelos mesmos interesses e paixões:
Na segunda metade do século xx, as antagónicas super-potências do capitalismo e do comunismo coexistiam num equilibrio simbiótico de males necessários e entendiam-se muito melhor do que qualquer das duas queria admitir. A União Soviética e os Estados Unidos foram inimigos durante setenta anos e as duas únicas alturas em que ambos entraram em guerra neste século foi como aliados contra a Alemanha.
Nos dois países, como em qualquer lado, a qualidade do governo era, em geral, muito baixa.
Os dirigentes dos dois lados nunca pareceram odiar-se tanto como odiavam os membros das suas próprias populações que discordavam deles e, tal como na antiga Atenas, as nações mais pequenas que tentavam escapar ao se domínio. Cada um dos dois governos ficaria indefeso sem a ameaça do outro. É impossível imaginar qualquer uma das nações a funcionar com tanta fluidez sem o terrível perigo de aniquilação pela outra.
No entanto, é fácil imaginar o caos que surgiria em ambas com uma súbita eclosão de paz.
A paz na Terra significaria o fim da civilização tal como hoje a conhecemos.
De Homero, Sócrates, Platão, Aristóteles, Rembrandt, Filipe II (o nosso "I"), até Kennedy e Hitler, passando pela filosofia, a tragédia, a Guerra dos Trinta Anos, o colonialismo, Wall Street, ou o Metropolitan, Imaginem Que é uma obra deliciosa cheia de referências e cruzamentos eruditos, na qual as personalidades mais relevantes da história ocidental têm espaço para respirar, falar e meditar sobre os seus tempos e os nossos:
Tu não és real, meu jovem e orgulhoso Aristóteles. Eu não sou real. O próprio Sócrates era uma imitação de si mesmo. Todos nós somos apenas cópias inferiores da forma que somos nós. Sei que me entendes.
Heller desmistifica a aura de heroísmo que rodeia a história ocidental, mostrando-a bélica, misógina e cruel como realmente é, mas com momentos de verdadeira inspiração e génio de onde nascem obras imortais:
Aristóteles [de Rembrandt] foi exibido [em 1815] em Londres, tendo sobrevivido milagrosamente à primeira guerra do Norte, à segunda guerra do Norte, à guerra da Devolução, à guerra da Grande Aliança, à guerra da Sucessão espanhola, à guerra da Sucessão polaca, à guerra da Sucessão austríaca, à guerra dos Sete Anos, à primeira guerra da Silésia, à segunda guerra da Silésia, à guerra da Sucessão bávara, à guerra russo-turca, à Revolução Francesa, à guerra turco-polaca, à guerra sueco-dinamarquesa, à guerra sueco-russa, à guerra franco-austro-prussiana, à guerra da Pri- meira Coligação contra a França, à guerra franco-holandesa, à campanha de Itália de Napoleão, à guerra anglo-espanhola, à campanha do Egipto de Napoleão, à guerra da Segunda Coligação contra a França, à rebelião dos Irlandeses Unidos contra a Inglaterra, a outra guerra anglo-espanhola, à guerra russo-persa, à guerra da Terceira Coligação contra a França, à guerra franco-prussiana, à guerra franco-portuguesa, à triunfal invasão da Rússia por Napoleão e à desastrosa retirada deste, ao Congresso de Viena e à batalha de Waterloo, saindo-se bem destes e de outros perigosos acontecimentos e chegando são e salvo, por caminhos e de maneiras que não conhecemos, a Londres.
Pelo caminho, Heller imprime doses de ironia e sarcasmo mordazes aplicadas a acontecimentos históricos mais ou menos inauditos:
Nova Amesterdão entregou-se, no principio da segunda guerra anglo-holandesa, a um corpo de menos de 200 ingleses, e foi re-baptizada com o nome de Nova Iorque.
Foi entregue sem luta pelo director-geral da Nova Holanda, Peter Stuyvesant, que(...)[e]ntregou Wall Street.
Que alguém tente agora recuperá-la sem luta.
Nos países totalitários, como a China e a União Soviética, o público é lixado com decretos, estritas regulamentações, polícia e terror. Nas democracias industriais é lixado com desprezo.
E favoritismo.
E, no fim, a sua premissa de que a História é falaciosa não pode deixar de se comprovar e, a ser assim, não admira que a tomemos por inócua:
A morte de uma pessoa não é tão importante para o futuro como a literatura sobre essa mesma morte.
Da História nada se aprende que possa ser aplicado, por isso não se enganem pensando o contrário.
- A História são tretas. - disse Henry Ford. Mas Sócrates morreu. Platão não conta que tenha chorado nesse dia.
Ele teria apenas doze anos na altura do seu O Banquete e por isso não estava presente para ouvir os elogios afectuosos de Alcibiades a Sócrates, que tão eloquentemente descreve.
O quadro de Rembrandt de Aristóteles Contemplando o Busto de Homero talvez não seja de Rembrandt, mas de um discípulo tão divinamente dotado na aprendizagem das lições do seu mestre que nunca mais tivesse sido capaz de fazer mais coisa alguma e cujo nome, por conseguinte, se perdeu na obscuridade. O busto de Homero que Aristóteles é mostrado a contemplar não é de Homero. O homem não é Aristóteles.