«O livro que é uma porta aberta para o mundo secreto do crime organizado», podia ler-se na capa da primeira edição desta Mão Direita do Diabo (nº 56 da Colecção Rififi, Editorial Ibis). Não era bem verdade, já que Peter Maynard podia ser um assassino profissional, mas trabalhava sozinho. Podia usar uma Beretta como qualquer outro, mas depois ouvia Mozart e Debussy. E lia Céline e Dos Passos. E citava John Huston e Howard Hawks. E até tinha uma consciência a quem tratava por tu em prolongados monólogos. Contudo, Dennis McShade também não era nada americano. Era o bem português Dinis Machado, o mesmo que, dez anos depois, surpreenderia a literatura com O Que Diz Molero. De maneira que, no fim, bate tudo certo.
(English) For a long time, Dinis Machado hid behind the shadow of an american pseudonym, invented for the Rififi collection, that directed at the invitation of Roussado Pinto, a trilogy of crime stories with a bourgeois hero, a professional assassin, with philosophical worries, prone to monologues and literary citations and that always acted alone, named Peter Maynard, a reference to Pierre Ménard, the Borges character that tried to replicate Dom Quixote. Mão Direita do Diabo, Requiem Para D.Quixote and Mulher e Arma com Guitarra Espanhola we're written in a period of one year, when the author needed 100 euros for the occasion of his daughter's birth.
(Português) Durante muito tempo, Dinis Machado refugiou-se à sombra de um pseudónimo americano, inventado para fazer sair na colecção Rififi, que dirigia a convite de Roussado Pinto, uma trilogia de romances policiais com um herói borgesiano, um assassino profissional, com preocupações filosóficas, dado aos monólogos e às citações literárias e que age sempre sozinho, com o nome de Peter Maynard, referência a Pierre Ménard, a personagem de Borges que tentava reproduzir o Dom Quixote. Mão Direita do Diabo, Requiem Para D.Quixote e Mulher e Arma com Guitarra Espanhola foram escritos no período de um ano, quando o autor precisava de angariar 20 contos por ocasião do nascimento da filha.
Dinis Machado mostrou-nos com a sua magnum opus que a simplicidade da escrita não se encontra relacionada com uma simplicidade de ideias. Só que antes do simples relatório de Molero, já a literatura portuguesa tinha sido presenteada com essa simplicidade complexa de Dinis Machado, através da sua quase homónima personna Neste "A Mão Direita do Diabo" somos mergulhados nesse mundo de salões escuros donde se sai com o fumo do tabaco impregnado na roupa, guiados por um assassino profissional com uma úlcera, que só bebe leite e ouve música clássica e lê os clássicos, um poço de cultura num mundo abrutalhado.
Só que Maynard gosta de trabalhar sozinho. Não se liga com outros, não segue a carneirada. Maynard é uma ilha de inteligência num deserto de cúpida ignorância. Onde os outros lhe dizem para se juntarem, para se alinharem, ele teimosamente recusa-se. Não admira que o estilo adoptado seja simples. Publicado pela primeira vez em '67, este policial em estilo rasca tinha todos os ingredientes para nunca ver a luz do dia. Não admira que tenha tido de se passar na América, onde os mafiosos são todos italianos, onde quem muda de identidade são os maus da fita, e o seu autor um americano desconhecido que não levante suspeitas.
Dinis Machado pode não ter publicado muito, mas o que publicou são páginas que se devoram e nos deixam a salivar por mais. A verdadeira mão direita do Diabo é a que escreve com esta simplicidade tão complexas figuras.
(PT) Em 1967, uma editora propõe a um jornalista que escreva uns policiais para pagar as despesas da sua filha recém-nascida. O preço? 20 contos, uma fortuna para a altura. Ele aceita e o primeiro resultado é "Mão Direita do Diabo", um policial onde aparece a figura de Peter Maynard, um assassino profissional que atua sozinho, com amigos em altos lugares, é culto e tem uma úlcera no estômago. E uma namorada que vê de vez em quando, Olga.
O autor, Dennis McShade, escreve um policial do melhor estilo de Chanlder. Mas na realidde é... Dinis Machado, um escritor português. Dez anos antes de escrever "O Que Diz Molero", escreve três livros policiais, e este é o primeiro. Um policial fácil de se ler, leve e eficaz. Mas sem ele querer - ou talvez não - fez um excelente policial até para os que não são muito fãs. Em suma, um tesouro escondido que vale a pena ler. E que, pessoalmente, tive a sorte de descobrir e o ler, graças ao meu avô, que o comprou há mais de meio século.
Policiais não são definitivamente o meu género preferido, no entanto este livro lê-se mais como exploitation do que outra coisa. Estilo sobre substância da melhor forma possível.
După ce am vorbit cu Lucky Cassino la telefon, mi-am pus mâinile sub cap şi am stat întins, cu lumina stinsă.
„Asta e, Maynard, o să ai bani şi o să-i ai când îţi trebuie”. Lucram de trei ani cu Cassino, executând comenzile pe care le primea. Am început cu cazul Schuyler, care a devenit cazul Palmer, o viaţă schimbată cu alta. Cassino, în felul lui, avea calităţi. Era dinamic şi ambiţios, Ştia să se descurce la nevoie şi îşi ducea la bun sfârşit cu precizie activitatea diplomatică.
Am închis ochii. „Olga, de câtă vreme nu te-am mai văzut?” Din nou, în stomac începu să macine vechea râşniţă, dar am rămas nemişcat, căutând înfrigurat şi prosteşte coloarea ochilor Olgăi în întunericul adânc al ochilor mei. Ar fi trebuit să mă scol, dar n-aveam niciun chef să mă îmbrac. Aveam poftă să stau aşa, chiar dacă mă încercau un pic tristeţea şi neliniştea, sfâşiind singurătatea, sfâşiind-o până ce avea să sângereze.
„Asta e, Maynard, sentinela mea nebună de noapte“. M-am întors pe partea dreaptă şi m-am simțit mai bine după schimbarea poziţiei. Am stat aşa, nu ştiu cât, fără să reuşesc să adorm. Dorm foarte puţin, dacă apuc trei-patru ore pe noapte. Nopţile sunt întotdeauna lungi, fără fârşit şi eu stau întins în pat, ca într-un râu tăcut al liniştii, ascultându-mi tumultul inimii. Câteodată iau medicamente ca să pot dormi, dar îmi fac rău la ulcer. „Asta e, Maynard, măruntaiele astea bătrâne din tine, o să te ducă într-o zi la cimitir. Eşti în stare s-o porneşti într-o dimineaţă de toamnă, aşa cum fac numai tuberculoşii şi singuraticii, cu Johnny şi cu Olga în urma dricului şi cu o groază de lume care se roagă să fii bine îngropat”. Un vânticel iute mişcă perdeaua de la fereastră şi-mi răcori faţa. Am aprins lumina, m-am ridicat şi m-am uitat în oglindă. „Asta e, Maynard, nu eşti într-o formă prea grozavă. Trebuie să-ţi revii. Şi trebuie să te speli pe dinţi, Maynard. Trebuie să ai grijă de tine”.
M-am spălat pe dinţi şi m-am băgat din nou în pat. Am citit câteva pagini din Bradbury despre marţieni. „Bunul meu Bradbury, tovarăş al stelelor, fiu al Domnului uitat pe pământ, în ce buzunare fără fund îţi cauţi tu mărunţişul de poezie?” Am luat, pe urmă, o carte cu poeme de Rilke, dar am început să-mi simt pleoapele grele. Nu-mi fac iluzii. Eu, chiar atunci când îmi atârnă pleoapele, nu sunt sigur că o să adorm. De multe ori stau cu ochii închişi, aştept să-mi vină somnul, foarte liniştit, ca el să mă învăluie. Am mai citit ceva din Rilke, ca şi cum aş fi citit formule de medicamente, sau un ziar de la coadă la cap. La un moment dat am simţit să mi-e somn. „Uite-o că vine, vechea şi încăpăţânata mea prietenă, amorţeala”. Îmi mai trecu prin faţa ochilor, ca o săgeată, Olga, înainte de a începe să mă cufund în cele patru ore de uitare.
Adorei a história, as personagens, o humor e o desenrolar dos acontecimentos. O próprio sentido de humor da personagem principal como as suas várias divagações foram bem estruturadas numa narrativa secundária. Ele não só queria deixar aquela profissão de assassino contratado que lhe causava úlceras, mas tinha um dever de profissional de levar até ao fim o seu último contrato ao ponto de pôr a sua vida em perigo por uma grande quantidade de mentiras. Mas a sua curiosidade e a sua personalidade assim o exigiam. Descobrir quem teria levado a filha de um homem rico a se matar.
The first novel from the Maynard series, the sort of thriller which was so popular in the middle of the last century. We have a detective who only wants to make a few money, without too much trouble, but that's only a wishful thinking...
O herói deste livro e dos dois outros que formam esta série é um anti-herói, Peter Maynard de seu nome. Exerce actividade como assassino a soldo, tarefa que não o impede de ter preocupações estéticas e éticas. Maynard ouve música erudita, filosofa, cita os clássicos e vai matando uns e outros que lhe são apontados como alvos a abater. Sem surpresas, desenvolve uma úlcera e ela é também um tema omnipresente nos livros. O que qualquer pessoa que sofre de úlcera compreende perfeitamente. A vida de Maynard não é fácil. Às dificuldades inerentes à sua actividade profissional soma-se a dificuldade em manter-se em regime livre, podendo escolher os contratos que lhe interessam e não os que outros lhe impõem. Esta liberdade de espírito nem sempre é bem entendida o que leva a que o protagonista passe parte das obras em confronto/manobras diplomáticas com o crime organizado. A figura do criminoso de carreira com preocupações éticas tem alguma tradição na literatura moderna. Não se trata de um Raskolnikoff (este cometeu apenas um crime não conseguindo, apesar dos esforços, reconciliar-se com o mesmo, sendo dessa tensão que se alimenta Crime e Castigo), mas antes de personagens que constroem o seu próprio código, convivendo paredes meias com actos hediondos que consideram justificados à luz daquele. O matador de Patrícia Melo, O seminarista de Rubem Fonseca e o Diário de um Killer Sentimental de Luis Sepúlveda, são variantes de uma mesma construção. A obra de Dennis McShade começou por ser publicada nos anos 60, sendo objecto de reedição. Ler estes livros é ser transportado para um filme noir, ao bom estilo dos anos 40/50 do século XX. De repente, parece que o cenário à nossa volta é a preto e branco, as mulheres são todas misteriosas e os homens enigmáticos, num ambiente de perigo constante. O policial é um jogo entre quem escreve e quem lê. Para ser honesto quem escreve tem de lançar indícios susceptíveis de conduzir quem lê à solução do mistério ou, pelo menos, a pensar no fim da leitura “ah, estava mesmo ali.” É isso que McShade faz tornando os seus livros um exercício delicioso de evasão inteligente. Quem não conhece, vale a pena mergulhar neste universo e confirmar que não é preciso publicar muitos livros para se ser reconhecido como um grande escritor. McShade é o presudónimo de Dinis Machado, autor de culto da literatura portuguesa com o seu O que diz Molero.
Peter Maynard is the Devil's Right Hand (or rather God's Left Hand). He has an "informant" friend Cassino who is not that bright. He drinks milk, not whiskey. He loves Olga, but feel he can't live with her. He loves literature, music, movies. He is a sarcastic character who loves a good joke, especially dark humor. Yet he is a professional killer. Unlikely? Much like the writer of this wonderful piece of literature, Dennis McShade (Dinis Machado to the more attentive readers), Peter is a rare pearl. He is an expert interrogator, he knows how to play it cool, and does most of the time. He is only violent if need be, and he is an expert marksman: the best at what he does. Yet he has to share "his business" with the Syndicate, that operates in the same city. This does not please him, but his ethics allow him to stay away from trouble and from the claws of the Syndicate. Well, most of the time anyway.
This book is a wonderful start and way to plunge into the world of Maynard/McShade, and should be read with the others of the same author (in the Maynard series) as close as possible.
About the story, there's not really much to tell: it's wonderful. It involves murder, mystery, thriller, humour, love, it's like a Hollywood blockbuster but previous to those. It has a nice twist at the end, and already contains some Maynardian monologues, that will be further developed in subsequent stories/books.
Peter Maynard é um assassino profissional, que bebe leite, ouve música clássica, farta-se de dizer 'pois' e tem conversas consigo mesmo. Neste primeiro livro, Maynard é encarregue de assassinar quatro homens responsáveis pela violação de uma rapariga. Mas as coisas não correm como deviam e Maynard vai acabar por ter uma surpresa.
Primeiro livro de Dennis McShade que leio e que posso dizer? Lê-se. É um livro pequeno, menos de duzentas páginas, que até serve para fazer passar o tempo. Achei a linguagem um tanto simples, básica mesmo, e tanto 'Frisco' irritou-me. Se se estavam a referir a San Francisco, porque não usar o nome normal? Ou, pelo menos, intercalar com 'Frisco'.
Três estrelas porque a história não está má de todo. Mas nunca será uma obra-prima da literatura.
Dos melhores livros que li nos ultimos tempos. Este é o primeiro da triologia e a meu ver o melhor. Cativante, envolvente, de leitura fácil e pouco complexo é a receita para os meus livros de eleição. Um livro de suspense que só na última palavra do 3º livro é que nos preenche por completo e nos enche as medidas. Aconselho esta triologia vivamente.
Um dia - foi o tempo que levei a ler este livro, talvez menos. A escrita, a narrativa, os diálogos maynardianos, tudo isso num só livro de 170 páginas, é impossivel de não gostar, senão apaixonar-se, por Peter Maynard e as suas imprevisiveis desventuras.