Quando me aproprio de uma narrativa, há dois aspetos que me fazem considerar um bom livro sem que dê o meu tempo por perdido: o primeiro consiste na identificação que consigo construir com a (s) personagem (gens); o outro é aquilo que o enredo me acrescenta do ponto de vista histórico, social, emocional, algo que vá de encontro à minha sensibilidade.
Na minha perspetiva, a leitura de “A Paixão Turca”, apenas não se revestiu numa opacidade temporal - uma maneira elegante de dizer perda de tempo - pois contribuiu para o cimentar de ideias muito próprias que derivam da minha postura na vida, da minha formação moral (embora sem qualquer tipo de preconceito), da minha relação com o outro seja ele quem for, mas, principalmente, por não acreditar que o amor possa levar à loucura. O início desta história pareceu-me extraordinariamente banal:” E sem querer, as três tornávamos compatível o nosso progressismo, que se nos afigurava muito avançado, com a esperança de um príncipe encantado”.
Logo aqui, pensei em abandonar a leitura dado o paradoxismo das proposições. Mas continuei na expectativa de encontrar pontos de conhecimento universal de um tema tantas vezes tratado na literatura de todos os tempos: o amor incondicional, o desespero no encontro de uma união compatível, desinteresseira, da entrega a um homem que nos não nos vá destruir. Não consigo conceber tal situação, desculpem; quando sofri um enorme desgosto de amor, a minha irmã, ao ver-me num choro diluviano, na falta de apetite causada pelo sofrimento do abandono, apenas me perguntou: “estás assim por causa de um homem?”. E é isso que gostaria de perguntar à personagem principal, Desideria Oliván de seu nome, mas apresentada como Desi durante quase todo o texto. Valeu a pena, todo o sofrimento? Por melhor que o guia turco, Yaman (que Desi conhecera numa viagem com o marido e os amigos a Istambul), fosse nas suas deambulações sexuais, valeram a pena as humilhações, as arbitrariedades, os interesses desprezíveis, as manipulações, a dependência de um fator meramente físico, a máscara nacarada de alguém que poderia ser aquilo que não foi e que nunca seria? “(…) juntos em rumo ao país do atordoamento, do alarido, da perturbação, da falta de respeito, da falta de leis. Um país para dois onde só cabe um, sem tabus nem proibições, sem lógica e sem generosidade, pródigo e esbanjador, incrédulo em qualquer céu e em qualquer inferno que não sejam os seus …”. A utopia do amor no seu expoente máximo!! Não passará disso: uma veleidade sem qualquer ponto de contacto com a realidade.
Se tivesse conhecido Desi pessoalmente, lamentaria a sua inocência, a sua ingenuidade, o seu estupor perante uma situação que se adivinhava inadequada aos seus propósitos. Embora tivesse o conhecimento de que “a verdadeira união de dois amantes deveria fazer-se fora da cama, fora desse desejo do sexo que nos embarga e nos desaloja, para que deixemos de habitar o nosso corpo e nos instalemos no corpo do outro”, foi essa prerrogativa que acabou com os seus sonhos mais pueris.
É uma história de obsessão! Sei que existem exemplos similares, mas hoje, mais velha, mais sábia, mais experiente, custa-me aceitar um lado romântico que, obstante a uma prova em contrário, a nada nos leva. Ou melhor: sim, leva-nos a um lugar: ao mais profundo sofrimento em que as nossas certezas se obliteram na ausência, no desrespeito, no desespero, na indiferença, na desonestidade do outro: “Ler o fracasso nos olhos do outro, é um duplo castigo”. Amar sem ser amado, é um tema recorrente na literatura de todos os tempos. “A Paixão Turca” fez-me lembra o magnífico “A Paixão do Jovem Werther” da autoria de um dos meus clássicos alemães preferidos, Johann Wolfgang Goethe embora sem qualquer resquício de dúvida, tratar-se de um drama muito, mas muito mais pungente. Apenas me fez lembrar.
Esta narrativa confirma que o ciúme é também uma paixão. Mas o amor próprio, na sua grandeza, ultrapassa todos os sentimentos inferiores e negativos e arvorados no nosso próprio caráter.
Embora a prosa de António Gala seja algo interessante, confesso que, muitas vezes (talvez demasiadas), me perdi no acompanhamento das suas ideias. Creio que tentou perspetivar as atuações afetivas de uma mulher, mas tenho sérias dúvidas de que terá conseguido.
Para terminar, deixo uma citação, já no final da narrativa, que obteve o meu beneplácito incondicional: “Tem-se dito que ninguém pode ser feliz num mundo de desgraças, mas acaso existe maior obstinação de quem procura a sua felicidade num mundo infeliz?” A alegria, a solidariedade, a perceção de que tudo fizemos, primeiro por nós e depois pelos outros são os braços da felicidade, e se a procuramos dentro de nós por pior que sejam as circunstâncias com as quais vivamos, se conseguimos encontrá-los, seremos sempre pessoas bem-aventuradas.
Na minha opinião, “A Paixão Turca” consiste numa narrativa extraordinariamente densa (houve momentos que por mais que me esforçasse, não compreendi a mensagem do autor, se calhar o problema é meu), cuja temática apresenta argumentos prosaicos que, através do meu olhar, se contrapõem a momentos de maior intensidade, mas que, ainda assim, não me convenceram.
Por mais vazia ou insignificante que a nossa vida seja do ponto de vista romântico, amoroso, emocional, sensitivo, temos sempre de pensar que somos seres únicos, maravilhosos em alguns aspetos, execráveis noutros, mas somos aquilo que a vida, a educação e a formação que recebemos nos formou!! E não podemos deixar que nada nem ninguém que nos desconstrua!!