A eficácia deste texto de Duras é surpreendente. A forma como suspende a ação e descreve a náusea da expectativa força no leitor a vertigem que se sente quando, numa grande sala de festa, nos encontramos, no meio de tanta gente, completamente sós.
Tendo como cenário uma Espanha veranil fortemente banhada em sol , Dez Horas e Meia Numa Noite de Verão é talvez o relato mais certeiro que já li da obsessão amorosa e da eterna luta entre instinto e razão / ação e inércia.
"- Que cansaço - queixa-se Maria(...)-, parece que podemos lutar contra tudo excepto contra este cansaço.(...)
- É um cansaço que vem de longe - diz [Pierre]-, um cansaço acumulado, feito de tudo, exactamente de tudo."
As cenas são asfixiantes, desde o momento em que Maria se dá conta da traição do marido ao momento em que, numa derradeira necessidade de identificação com outrém, escolhe proteger um desconhecido procurado por um crime passional. A duplicidade da sua situação - enquanto amante traída e na perspectiva de amante vingadora - agita a narrativa embora nunca a desfiando nem lhe permitindo avançar um bocadinho que seja.
"- Mal começou, a partida estava perdida(...). São estas partidas perdidas que nos deixam uma amargura sem fim."
Maria não é uma personagem que mereça dó - embora fisicamente a rua rebelião não se revele, existe todo um processo mental que a aproxima de uma heroína trágica, uma espécie de protomártir de uma religião ainda por inventar. Pois nela ainda existe um desejo animal de vida e prazer que não se compraz com o sofrimento a que uma traição a quer remeter. Por isso a sua aliança com um assassino, com um homem traído, faz perfeito sentido.
"Chama-o curvada. Ele dorme. Levará para França aquele corpo. Leva-lo-á para longe, o assassino da tempestade, a sua maravilha. Ele ficou à espera. Acreditou naquilo que ela lhe disse. Um desejo imenso de se deitar ao longo do seu corpo, entre o trigo. Para que, ao acordar, reconheça um objecto, um qualquer objecto do mundo, o rosto anónimo e reconhecido de uma mulher."
O texto é denso, como já deu para perceber, a personagem principal complexa e difícil de rotular: não é de todo uma fatalista - nenhum fatalista se debate com o que julga inevitável -, mas algo a prende ao momento presente, à terra, ao calor, ao meridianismo e, numa espécie de osmose, a impede de agir. Esse abandono, no entanto, não é derrota - e posso estar muito enganada, mas parece-me mais uma qualidade do que um defeito nas personagens de Duras.
"Chegou o momento da noite em que as horas nos enchem já da fadiga do dia que inevitavelmente se aproxima. Saber que ele vai chegar basta para nos oprimir."
Não é o tipo de texto que normalmente procuro - sou facilmente levada ao enjoo físico pelo tipo de descrições a que Duras recorre, e sempre que há verão e calor nas minhas leituras o meu corpo desiste -, mas, e apesar de não apreciar a estética, foi uma leitura profícua. Tenho a sensação de que esta autora vai sempre exigir mais de mim do que aquilo que lhe posso dar, mas enfim. Sobretudo porque não tenho qualquer intenção de lhe ler a obra toda e muito menos por ordem cronológica - o que, creio, beneficiaria a compreensão destes personagens e personalidads recorrentes.
Por fim, só resta um apontamento para a escolha de Matisse (e o seu Ícaro) para ilustrar a obra, o que não deixa de ser uma escolha curiosa: este Ícaro é o herói/mártir que Matisse imaginou saído da II Guerra Mundial - e é também, literalmente, uma guerra aquela luta que Maria trava dentro de si.