Ana e Léon conhecem-se em Jerusalém na véspera da morte de Yasser Arafat. Aí começa uma história que atravessa várias cidades e paisagens, da Faixa de Gaza à Mancha de Quixote, enquanto o mundo exterior se vai fechando num quarto sem saída. «Toda a praça roda à minha volta e tu és um buraco negro. Então o sol dá-te em cheio. Estás encostado à fonte, depois da estátua de Giordano Bruno, que há 400 anos foi queimado por dizer que nós é que rodamos à volta do sol. Fumas uma cigarrilha, chamas-te Léon. És um desconhecido e és tu. Qual deles vais ser?»
ALEXANDRA LUCAS COELHO nasceu em Dezembro de 1967. Estudou teatro no I.F.I.C.T. e licenciou-se em Ciências da Comunicação, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou dez anos na rádio continuando ainda hoje a colaborar com a RDP. Desde 1998 é jornalista no Público. A partir de 2001 viajou várias vezes pelo Médio Oriente / Ásia Central e esteve seis meses em Jerusalém como correspondente. Foram-lhe atribuídos prémios de reportagem do Clube Português de Imprensa, Casa da Imprensa e o Grande Prémio Gazeta 2005. Mantém o blogue Atlântico-Sul, onde publica as suas crónicas que escreve para o Público.
Em 2007 publicou «Oriente Próximo» (Relógio D’Água), narrativas jornalísticas entre israelitas e palestinianos. Publicou mais quatro livros de reportagem-crónica-viagem: «Caderno Afegão» (2009), «Viva México» (2010), «Tahrir» (2011) e «Vai, Brasil» (2013). Em 2012 escreveu o seu primeiro romance, «E a Noite Roda», vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE 2012. Publicou, recentemente, «O Meu Amante de Domingo» (2014).
Gostava de lhe dar 4 estrelas, mas para mim este livro tem dois grandes problemas. O primeiro é que a escrita é demasiado jornalística. Honestamente, parece que estamos a "ouvir" uma reportagem. Para além disto, somos bombardeados com referências culturais ao ponto de se tornar cansativo. Segundo, custa-me muito digerir a história de amor. Creio que para um determinado enredo resultar, o leitor tem de sentir uma ligação com a personagem, tem de haver ali uma empatia que eu não consegui sentir, de todo. A ideia é antiga e infelizmente nos tempos que correm é demasiado banal para atrair o leitor. Posto isto, tinha grandes expectativas que não foram correspondidas, com grande pena minha.
Este é o terceiro livro que leio da Alexandra Lucas Coelho: o primeiro foi o Caderno Afegão, o segundo O Meu Amante de Domingo. Reconhecendo a minha falha em acompanhar a cronologia das publicações, não posso deixar de me sentir desiludida com este primeiro romance. É como se este livro fosse um intermédio entre os outros dois que já li, mas utilizando as partes que menos me fascinaram neles.
Não é suficientemente interessante para ser sequer comparável ao Caderno Afegão. Tal como neste, a narrativa é praticamente jornalística, com um corte brusco. No Caderno Afegão, estes cortes deixam espaço para o leitor criar a emoção em falta. Mas aqui, são mediados com confissões de desejo profundo. Estou certa que há uma linha que conecta esse desejo aos espaços, ao caos, mas talvez por defeito meu, eu não a pude encontrar. Não consegui harmonizar as viagens e o amontoado de informação com a busca desesperada e a perda. Todas elas se encontram um pouco por todo o lado – falta-lhes a organização a que a autora se irá aproximar no seu segundo romance O Meu Amante de Domingo. E embora este esforço seja, a meu ver, mais meritório, continuo a reconhecer maior valor à Alexandra Lucas Coelho na sua não-ficção. O seu olhar tem a habilidade de máquina fotográfica de focar os pontos que realmente interessam, que amiúde são subtis.
Posto isto, guardo grande interesse em visitar as restantes narrativas de viagens desta autora. É nessas que o seu talento vem à tona, sem excessos ou distrações.
E a Noite Roda, de Alexandra Lucas Coelho, é o seu primeiro romance depois de todos os livros de viagens, dentro da área de crónica-reportagem, e vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da APE/IPLB de 2012.
Ana Blau e Léon Lannone conhecem-se em Jerusalém, na véspera da morte de Yasser Arafat. Logo ao início, o leitor é informado do final fatal para a história de amor e, fundamentalmente, de paixão entre estas duas personagens. ("Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece. Esquece a morte e segue-me") e também ("E vai fazer quatro anos em dezembro, putain, quatro anos que Léon desapareceu") para o leitor saber o destino de Ana e Léon. A história é mais do que uma tentativa para saber o que se passou entre estes dois amantes. Dois jornalistas, separados um do outro por milhares de quilómetros - ela é de Barcelona e ele da Bélgica -, a encontrarem-se a cada reportagem que realizam em Ramallah, Gaza e também a encontrarem-se em Paris, em Madrid e outros lugares descritos. Encontros que fazendo com que se desencontrem um pouco mais, à medida que o amor de ambos pede, lá no fundo, que fiquem cada vez mais juntos. A concretização é impedida pela distância geográfica e pela outra vida de Léon, casado e com dois filhos.
Há uma suavidade extrema na história d'E a Noite Roda. Uma história violenta, devido à paixão entre os dois protagonistas, é retratada suavemente e, tenho a dizer, brilhamente pela escritora. Em sentimentos em tudo provocadores há uma sensibilidade extrema pelas palavras de Alexandra Lucas Coelho. (" - A tua vida é essa - digo. Empalideces. - Não. Essa é a vida em que faltas tu"), pequenos pontos-chave como este ao longo do livro. Para além da história de amor entre Ana e Léon, há uma grande descrição do cenário, como se envolvesse o escritor na cobertura das várias reportagens elaboradas. Apesar de ser louvável o trabalho de Alexandra Lucas Coelho por vezes podia ser uma leitura maçuda para o leitor que, no entanto, pouco me incomodou.
É uma óptima estreia, o reconhecimento é mais do que merecido. É uma bela história e deixa um bichinho para começar a ler o mais recente, O Meu Amante de Domingo.
“Então abrimos os olhos e só passaram dois minutos. Ainda seremos outros ou voltámos a nós?
Ah, mas esta é a pergunta que vai avançar e recuar nos próximos anos, como o drama entre palco e bastidores. Começa esta noite e acabará connosco.
Noite na terra. Nunca é noite na terra porque a noite roda. Mas é noite na terra quando duas pessoas estão coladas uma à outra. Só nós estamos vivos, somos a Arca de Noé.”
“Junto à fronteira, os beduínos receiam a invasão territorial, mas a atmosfera geral é de orgulho. Continuamente sujeita a violência e privação, Gaza vê o rapto de Shalit como uma vitória moral contra o opressor, diz-me um psicólogo: - O orgulho protege a nossa vontade de viver. De outra forma, as pessoas não teriam energia. Em vez de falarmos como vítimas, podemos falar como sobreviventes. A vítima é impotente, o sobrevivente ainda controla. E esse é o domínio da dignidade, que está acima do dinheiro e da comida.”
Ao lermos as primeiras páginas deste romance ficamos perante o espanto, o choque, a terrível sensação de que um leitor pode experimentar: mas que é isto?, é a pergunta que um bom leitor fará indubitavelmente. Depois, fará outra ainda mais necessária e chocante: como foi possível este livro ter recebido o prémio APE? À semelhança de outro escritor galardoado e ultra bem-recebido pela crítica, Alexandra Lucas Coelho escreve frases curtas, como se as suas mãos não acompanhassem o seu pensamento e precisasse de fazer uma pausa. Mas depois apercebemo-nos que não é tanta a velocidade do pensamento que a atrapalha, mas antes a falta dele mesmo que a faz escrever em frases curtas, banais, estilisticamente pobres. Acresce a isto a exploração da sexualidade gratuita (sexualidade outrossim explorada no seu livro seguinte). Uma sexualidade cujo fito é o de chamar leitores, e não a exploração socio-psico-filosófica, literária, poética, enfim nada. Por fim, um bom narrador é aquele que evita diálogos desnecessários, e Alexandra Lucas Coelho não os evita, abusando porém deles. Além de tudo isto, o snobismo da autora que em cada oportunidade aproveita para referir um autor, uma cidade, um lugar, um não-sei-quê-de-eu-sou-muito-culta-vejam-lá. A leitura é tão penosa que chegados ao fim perguntamo-nos: que acrescentou a autora à literatura portuguesa? E a resposta sobrevém de imediato: acrescentou o seu nome na lista dos escritores premiados pela APE, esses que ninguém sabe quem são, senão os jurados, os compadrios literários.
Pode ter sido problema meu mas não me consegui distanciar da voz da própria autora. Como o romance é contado na primeira pessoa por uma jornalista que está a fazer a cobertura de acontecimentos em vários locais, mas principalmente entre Israel e Palestina, dei por mim a ler como se fosse a própria Alexandra que estava a falar e a surpreender-me quando ela voltava a casa em Barcelona. :)
De resto, o livro lê-se muito bem, e gostei bastante das partes com um tom mais jornalístico, mas confesso que a história de amor em si não me disse muito.
Uma história de amor banal, cheia de lugares-comuns, num lugar nada comum, que apaixona e puxa ao virar de cada página, para saber mais de Gaza, de Jerusalém, de Ramallah, dos colonatos, da retirada, da Europa que atrapalha. Há 20 anos e sabe a hoje. Pena nunca explorarmos tanto Abed, Sylvia e outras personagens secundárias, pena ficarmos mais entre os lençóis que entre as entrevistas de uma jornalista num Médio Oriente em chamas. Podia ser muito mais.
O livro é interessante e permite reviver parte da história da Palestina/Israel no início do Séc. XXI. Gosto do estilo de escrita, e de uma narrativa claramente jornalística. O defeito é alguma falta de profundidade nas personagens, e uma certa superficialidade que se acentua por o livro ser curto. Os personagens secundários são isso mesmo, cenário apenas... Não se percebendo como ficarão, ou o que fazem na história, que não seja serem isso mesmo auxiliares à narrativa. Apenas Ana permite que entremos na sua personagem, pois de Leon quase sempre o que temos é a perspectiva de Ana sobre Leon. No entanto o livro é interessante e bem escrito, sendo bastante fácil de ler até ao fim.
Um livro muito bem escrito, frases que podiam ser poesia (que o são!), e um tema infelizmente muito atual. O enredo do romance é um pouco banal nos tempos que correm, a trama um lugar-comum, e talvez se não me sentisse constantemente bombardeada por referências culturais um pouco difíceis de alcançar para quem não vive na esfera do jornalismo, dar-lhe-ia mais uma estrela. Não conhecia a autora antes desta leitura. Fiquei curiosa para descobrir mais!
A história é corriqueira - o amor impossível, a distância, a vida. A escrita é especial, diferente, boa. O contexto histórico é muito bom e acrescenta profundidade ao romance, daí as 4 estrelas.
Este livro é uma jóia da literatura escrita em português. Uma história intimista, complexa e adulta, contada com extraordinária sensibilidade e imensas referências culturais, que adorei, tendo como pano de fundo, entre outras geografias, todas fascinantes e fascinantemente descritas, a escala simultaneamente épica, histórica e trágica do conflito entre palestinianos e os actuais e provavelmente perenes ocupantes coloniais das suas terras ancestrais. Uma obra-prima. Alexandra Lucas Coelho, com este livro e o picaresco romance seguinte, que eu li primeiro, é já, definitivamente e de longe, a minha autora favorita escrevendo em português (incluindo os escritores, quer dizer do sexo masculino; a língua que me desculpe, mas não consigo escrever "autor" favorito, no masculino, para englobar mulheres e homens; neste caso, o inglês é mais decente: "my favourite living author writing in Portuguese", e a conotação sexual está totalmente excluída do contexto, é todos, escritoras e escritores).
Vou comprar os livros de ensaios e reportagem que estiverem à venda, enquanto espero pelo próximo romance.
Ana Blau é uma daquelas personagens de quem nos aproximamos e com quem viajamos com a mesma energia, a mesma paixão, a mesma busca, o mesmo sofrimento! Paralelamente, vamos conhecendo outras paragens: Barcelona, Paris, a Mancha do Quixote, o Médio Oriente com os seus aromas, as suas cores e as suas dores... A música e a poesia compõem o ambiente!
Este é o primeiro livro que leio da escritora Alexandra Lucas Coelho, que acerca da mesma, apenas sabia ter sido jornalista do jornal "Público", desconhecendo que aquele foi o seu primeiro romance, publicado em 2012, ao que se seguiram outros livros, não só romances, mas também livros de reportagens, crónicas e viagens.
Para quem se interessa pelo conflito entre israelitas e palestinianos, este é um livro que nos retrata fielmente os anos de 2004 a 2006, onde a partir de determinados acontecimentos históricos (a morte de Yasser Arafat, líder político e histórico dos palestinianos e da OLP, a sua sucessão, a decisão do então primeiro ministro Ariel Sharon em mandar retirar os colonos israelistas de Gaza, o seu falecimento repentino, que fez recuar este processo, as eleições legislativas palestinianas, em janeiro de 2006, nos territórios ocupados por Israel - Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental -, em que saiu vitorioso o Hamas e não a Fatah, contra todas as expectativas de israelistas, americanos e europeus, por considerarem o primeiro uma organização terrorista), ficamos a compreender bem as dificuldades destes dois povos em chegarem a um entendimento e a impossibilidade de alcançarem a paz.
A escritora revela que conhece muito bem a história, a geografia e a economia de Israel e da Palestina, nomeadamente de Ramallah, de Jerusalém Oriental e Ocidental, de Gaza, da Cisjordânia e de Telavive, bem como o modo e as condições de vida, os costumes, a cultura e a religião das populações israelista e palestiniana, o seu tumultuoso relacionamento, pois descreve em pormenor as ruas, os edifícios, os pontos de acesso e os postos de controlo israelitas entre os dois territórios.
De facto, Alexandra Lucas Coelho foi correspondente em Jerusalém do jornal Público durante vários anos, onde cobriu o conflito israelo-palestiniano, pelo que, também por este motivo, é muito interessante conhecer a sua perspectiva acerca do mesmo e é mais uma das razões porque vale a pena ler este livro.
No meio desta dura realidade descrita no romance, conhecemos também artistas de várias áreas, como músicos, pintores e escritores, quer israelistas, quer palestinianos, os quais são amigos das duas personagens principais do livro, dois jornalistas, uma espanhola, natural da Catalunha e residente em Barcelona, e um belga, residente em Bruxelas, que se apaixonam durante o trabalho que estão a realizar em Israel e nos territórios palestinianos ocupados.
A história de amor de ambos os repórteres é-nos contada uns anos mais tarde pela jornalista espanhola, que descreve os seus encontros nalgumas cidades europeias e em Jerusalém, assim como os seus sentimentos, de uma forma muito emotiva e sensual, que nos faz pensar o quanto são belas as histórias de amor, e que sem estas, a vida seria tão mais pobre.
Por tudo o que referi, fiquei encantada com este livro e atribuí-lhe as cinco estrelas, sendo minha firme intenção continuar a ler as obras de Alexandra Lucas Coelho.
Naquele início de Novembro de 2004, o Mundo está suspenso do estado agónico de Yasser Arafat. É neste contexto que a vida de dois jornalistas se cruza em Jerusalém. O que daí advém revelar-se-á muito mais que uma história de amor. Em permanente “estado de sítio”, a vida de ambos como que irá mimetizar a instabilidade política que se vive naquela zona do globo. As manobras de diversão suceder-se-ão, assim como os cessar-fogo. Os danos ir-se-ão avolumando, ameaçando tornar-se irreparáveis. Até que em Dezembro de 2006 fica tudo escuro.
Mais do que uma grande jornalista, Alexandra Lucas Coelho é uma enorme comunicadora. A sua escrita é rápida, telegráfica. Não são necessárias mais do que duas ou três “pinceladas” para que todo um quadro se abra, nítido, aos nossos olhos. Ela sabe, como ninguém, expor a fragilidade emocional, a vulnerabilidade, de quem convive quotidianamente com o horror. E é exímia em descrever os sentimentos mais díspares que resultam da pressão constante, do medo permanente. Centrando o romance na figura feminina, é notório o esforço de autopreservação duma certa normalidade na vida da personagem principal, mas não deixa de ser desconcertante a forma como permite que um quarto com vista ou o cheiro doce do jasmim se deixem “contaminar” por horas de espera em checkpoints ou pelos raides aéreos noturnos dos F16 israelitas sobre Gaza. Obrigando o leitor a mergulhar no desprazer e no sobressalto face à objectividade com que aborda situações reais de conflito, logo de seguida vem “resgatá-lo”, levando-o de mãos dadas a vaguear ao redor da Notre-Dame de Paris, a procurar um casaco nos corredores do Vaticano ou a provar um queijo Garrotxa numa casa à sombra dos Pirinéus.
Entre as várias leituras que “E a Noite Roda” permite, a mais fascinante será, porventura, aquela que se encontra implícita no próprio título do livro, indiciadora dum movimento de constante vai-e-vem, onde o gelo dá lugar ao fogo, a quase indiferença à tórrida paixão, a noite densa e negra ao mais radioso dos dias. É assim com a noite que roda, como o é com a vida de Ana Blau, fluindo naquilo que tem de mais íntimo. A paz é uma miragem quando a vertigem dum amor, feito de avanços e recuos, tem tanto de desejo quanto de irracional. O apaziguamento não é mais que o ganhar fôlego para um novo embate. Alexandra Lucas Coelho prova-o de forma irrefutável. É todo um manancial de verdade aquele que emana da figura principal do romance. Com ela rimos e choramos, nos debatemos, nos envolvemos. Tão fortes, mas tão frágeis a cada instante. Como navios sem rumo, entregues aos caprichos dos elementos, certos que um tempo bonançoso suceder-se-á a cada nova tempestade.
Este livro não atingiu de todo as minhas expetativas. Li-o até ao fim pela componente histórica que tem, pela presença da Palestina e Jerusalém ao longo das páginas.
Começando pelos aspetos mais positivos. É muito interessante (e doloroso) voltar aos momentos históricos da Palestina, Gaza, Jerusalém, passados há 15-20 anos. É tremendo ver como a história se repete, e piora. Como se repetem os erros, o horror, a destruição. O livro tem uma componente de relato jornalístico (ensaio jornalístico, talvez?) subtil, que nos agarra a mão e nos leva a visitar as várias Jerusalém. Leva-nos a Gaza, Ramallah, Belém, e muitas outras cidades da Palestina, Israel, e países vizinhos, em contextos históricos importantes da primeira década do século XXI. O conhecimento, sensibilidade, e contactos da jornalista-autora que, tal como a personagem principal, visitou muitas vezes a região e viveu seis meses em Jerusalém, enriquecem muito este livro. Este relato/análise jornalístico/a foi para mim a razão para continuar a ler até ao fim.
Há ainda o colorido turístico de outras geografias, que mexe sempre com o meu imaginário. E uma constante ligação à poesia e à música, quer enquanto parte de eventos (por exemplo, a orquestra West-Eastern de Daniel Barenboim ou os poemas de Dylan Thomas ou de Gilgamesh. Há muitos livros, muitas músicas, muitos poetas e músicos a iluminar este livro.
Nos aspetos positivos, ainda de referir a escrita, por vezes luminosa e poética.
Mas. Desde logo, o livro está montado em torno de uma história de amor completamente banal e desinteressante. Uma jornalista envolve-se com um colega "que não era o seu género", casado e com filhos. Nada de novo, tudo óbvio - aliás, o desfecho é anunciado muito cedo no livro, nem sequer é alimentado o mistério. Muito sexo (descrito com pormenor), muitas trocas de mensagens, com dezenas de emails transcritos ao longo do livro. Nem o facto de haver uma ou outra frase mais poética torna a leitura relevante. Sem novidade e aborrecida.
Sobram, então, as divagações culturais (a poesia, a música, ...) que sofisticam a narrativa mais do que criam valor - com algumas exceções. Será interessante para conhecedores dos muitos autores mencionados, ou para leitores curiosos. Mas, na realidade, nunca são suficientemente explorados ou aprofundados.
E, infelizmente, o mesmo se acaba por aplicar ao lado histórico/jornalístico que, para mim, foi o mais interessante do livro. Que pena (que perda!) que as muitas personagens secundárias não tenham um papel mais relevante. Que as pessoas, as ruas, os lugares, em especial os da Palestina e Jerusalém, não tenham sido mais chamados para o tema, o texto, o centro do livro.
Escrito por uma jornalista, e isso sente-se, esta historia leva-nos a muitos lugares, mas especialmente a Gaza. Gosto dos relatos, da descrição cultural extrema, do frenesim de informação porque, acredito, deve ser também assim o caos de Gaza.
Leve na leitura em termos de forma de escrita, mas muito menos leve em termos da historia que nos traz. Hoje, mais do que nunca, este livro é importante. Para percebermos a Palestina, para percebermos como o Hamas chegou a ser o que é e para vermos (com o coração) que podíamos ser nós do outro lado da história e que, muito provavelmente, não faríamos muita coisa diferente.
Gosto das personagens mas gostava de as conhecer melhor. Ainda que ache que faça sentido neste livro que tudo seja fugaz, intenso mas distante, sem tempo para aprofundar, porque há bombas a cair do céu, fiquei com vontade de conhecer melhor os amigos que as personagens principais foram encontrando pelo caminho.
Não consegui dissociar a personagem principal da autora mas não vejo isso como um problema, necessariamente. Permitiu-me manter-me consciente, ainda que inconscientemente, do quão real e “a acontecer neste preciso momento” esta historia é.
Quanto à história de amor, não tenho grande coisa a dizer senão que me parece completar o livro de forma a quebrar o relato jornalístico e a trazer um pouco de intimidade e calor à história. Se não fossem Ana e León, isto era só um artigo de guerra, com todo o valor que isso tem, obviamente, mas julgo que a autora queria algo mais.
Recomendo a todos os que gostam de ler, os que não gostam mas querem tentar, os que perdem sono a pensar na Palestina e os que não entendem, mas ainda encontram um espacinho de humanidade no coração para tentar entender.
Alexandra Lucas Coelho venceu o prémio Oceanos em 2022, e com este prémio entrou na minha realidade. As imagens da autora que acompanhavam o anúncio chamaram-me para ela. Com um pouco de investigação (não é preciso muito), descobri o seu programa “Volta ao mundo em Cem livros”, que amei, e que inspirou a leitura de todos os livros que nele são mencionados (aproveitando para acompanhar o #leromundo de @filipeheath). Em pouco tempo, muita informação sobre a autora foi-me chegando, e o encanto pela figura foi crescendo. Eventualmente comprei um livro da @alexandralucascoelho. Um pouco a medo, temendo quebrar o encanto que criara, mas com muita curiosidade.
Comecei a ler com calma, sem pressa, como senti com o corpo e com a mente, e apaixonei-me. Alexandra Lucas Coelho surpreende pelo estilo, mas enlaça sem piedade com a sua arte. Numa dança entre registo jornalístico, romance, e relato pessoal, giramos com Ana por sete anos de história, vida e crescimento. Sem que o soubesse, o livro explora o binómio Palestina-Israel, muita da geografia, da dinâmica local e dos acontecimentos cobertos pelas personagens. Lê-lo pouco depois do início do conflito atual tornou a experiência mais intensa, real e dolorosa no aspeto político e histórico. Sei que foi uma iniciação à obra da autora. E, como comecei, a exploração de outros volumes será tranquila, apreciando a viagem.
Foi uma das primeiras compras na @gretalivraria. Mais virão.
Dois jornalistas conhecem-se em Jerusalém, nas vésperas da morte de Yasser Arafat, e calcorreiam juntos Israel e os territórios palestinianos ocupados. Um romance nasce entre eles, relatado pela protagonista para que a história acabe. Ou para que a história comece.
CDU: 821.134.3-31
Livro recomendado PNL2027 - 2018 2.º Sem. - Literatura - dos 15-18 anos - maiores 18 anos - Fluente
O livro foi muito entusiasmante na primeira metade, com a sua bela e fina prosa; pelas belas descrições, imaginando estar em locais tão diversos como Jerusalém, Gaza, Telavive, Barcelona, Roma..; mas a introdução (e de forma repetida) de texto em formato de e-mail, cortou a dinâmica, a estrutura bela que a obra estava a desempenhar; passando assumir um diário de sentimentos e nostalgias. Mesmo assim um belo livro.
No início, não me conseguia ligar à história, aos lugares, às personagens. Talvez pelo saltitar de espaços, como se o livro fossem longos SMS's. Aos poucos fui-me centrando mais, embrenhando nas cores, nos cheiros, na escrita sensorial, no desejo. Nas fronteiras dos espaços e na paixão dos amantes, na história de cada um, nos medos, na intimidade e na força que (re)começa a história. Ou na ausência dela.
Um livro que entrelaça histórias, que nos leva pelo relembrar de uma relação que se vive em vários lugares, mas nós apesar dos lugares somos sempre o espaço sitiado onde o tempo é contínuo. Damasco, Ramallah, Jerusalém, Gaza, Telavive- Jaffa, Barcelona, Madrid, Roma, Londres, por todo o lado podemos percorrer história e destruição, mas nunca estaremos preparados para viver sem paixão... porque nunca é noite por toda a terra, a noite roda.
A Alexandra Lucas Coelho é brilhante na não-ficção e, vá, não tão brilhante na ficção, sobretudo por querer muito dar sermões.
Aqui, contudo, não há sermões. Há um Médio Oriente que já não existe e uma relação que sabemos que também vai deixar de existir (poupem-me, que isto é óbvio, não é um spoiler).
Estamos lá mesmo com eles, até quando não devíamos estar.
Ana Blau partilha conosco os seus pensamentos, o seu amor e o seu trabalho. Acompanhamos a vida dela, lemos os seus emails e sms, conhecemos as suas angústias, alegrias, tristezas e esperanças. Viajamos com ela. Vivemos com ela. Um grande livro.
Sinto que a escrita tem mesmo muito potencial, mas a história em si foi entediante. Sinto que não aconteceu nada ao longo do livro e o romance é muito fraco porque não é estabelecida nenhuma relação profunda entre as personagens.