Faço questão de escrever aqui a minha opinião, para mais tarde me relembrar porque gostei ou não. Escrevo o que gostaria de ler sobre um livro, como se recorrentemente tivesse que o comprar. Sou parcial, no mais abonatório possível. Posto isto, este livro é muito bom, mas a sua leitura não foi prazenteira nem gostei particularmente do que li.
Gaibéus é um retrato, uma janela para o mundo dos trabalhadores rurais que migravam, nos meses de Verão, para a monda/ceifa do arroz e milho no Ribatejo dos anos 20 e 30. É distante, frio e duro, sem entusiasmar ou exaltar o que quer que seja. Afigura-se como uma cápsula do tempo, onde quem a abrir tira as suas conclusões, adulteradas ao mínimo pelo autor.
A perspectiva que esta escrita oferece é assustadoramente realista, não porque deslumbra para nos deixar de questionar se estamos a ser manipulados pelo escritor, mas porque o nível de detalhe é demasiado intenso para a ficção mais banal. Repetindo como rajadas de vento, a mesma frase (ou frases parecidas) vai permeando o leitor à rija epopeia dos gaibéus, fazendo passar a “imagem” de cada capítulo. As personagens são definidas ao mínimo nas suas características humanas - dá-lhes nomes e esconde-lhes a face – para realçar a sua função no “quadro”, como se dizendo: “podia ser qualquer um de nós“.
Talvez os nossos avós ou bisavós tenham sofrido esta vida. Contudo, ainda hoje existem episódios de exploração laboral, que lembram a escravatura e esta poderia ser a sua reportagem. Redol faz de jornalista, de câmara e altifalante: largo na sua difusão e gélido no relato, para lembrar quem está sentado na poltrona a ler, do pobre que trabalha todo o dia lá fora. Conheço e sou humano o suficiente para estar consciente desta realidade, se bem que não a vivendo, senti-a bastante próximo.