Francisco Martins Rodrigues, um dos mais destacados militantes da extrema-esquerda revolucionária, reúne neste livro uma série de artigos publicados na revista Política Operária onde discorre sobre a sua versão da revolução portuguesa e do que se lhe seguiu: uma revolução feita para acautelar os interesses da burguesia, que precisava de se modernizar, em que a miragem do poder popular e do socialismo não passou de uma promessa frustrada e que todos sabiam que não se materializaria. Imputa responsabilidades a todos, desde a direita reaccionária, ao PS que sempre deu a mão à burguesia, e até ao PCP, que considera o partido encarregado de manter a classe operária nos limites do sistema contando-lhe histórias sobre o socialismo .
Concordo com muito, discordo de uma boa parte. Não me revejo no desprezo entregue a tantos e tantas resistentes antifascistas durante o Estado Novo e duvido de uma tão grande e generalizada desconsideração por tudo e todos. É certo que a revolução resultou nesta democracia burguesa que não nos serve, muito pelo golpe reaccionário do 25 de Novembro e pela recuperação monopolista e capitalista promovida pelo PS e pela direita, mas não é menos certo que serviu, ainda assim, para o desmantelamento (incompleto, podemos considerar, mas ainda assim efetivo) do Estado fascista, e isso não é tarefa de somenos. A desilusão é legítima, o desprezo pelos que se opuseram à reacção cai-me mal.
O que resta de Abril? Muito pouco, quase nada. Agora que a liberdade se traduz na liberdade da burguesia enriquecer e do proletariado vegetar, e que o pluralismo partidário degenerou numa vulgar concorrência de camarilhas pela administração do poder, é cada vez mais difícil encontrar quem leve a sério a genuinidade desta democracia. Ainda se pode falar livremente, é certo. Mas que é feito daquela bela dignidade das pessoas comuns que há vinte e cinco anos subitamente descobriam já não haver motivos para temer a força armada e os patrões e se reuniam em assembleias para discutir e resolver as questões da sua vida colectiva, ou para se manifestar espontaneamente nas ruas? Essa foi banida sem deixar rasto, porque era a essência mesma da democracia. Essa novidade electrizante, a que alguns chamam com condescendência a utopia, era simplesmente a descoberta de que a democracia pode ser algo mais do que o espectáculo das instituições, pode ser a via para questionar uma ordem social iníqua e abordar a grande questão proibida que no entanto lateja sob a normalidade do dia a dia: é admissível a propriedade privada de alguns contra o interesse da esmagadora maioria? Por isso e só por isso a democracia de Abril foi sufocada. Esse foi o seu crime.