Este conto escrito por Karen Blixen , Aka Isak Dinesen, leva-nos até Cantão, no séc. XIX . Os personagens são descritos com realismo, mas a escritora fá-los protagonistas de uma história fantástica, totalmente mágica. A simplicidade da mesma é aparente. A leitura requer uma atenção redobrada para não se perder o sentido metafórico de algumas passagens e não se passar ao largo de pistas que são importantes para a compreensão do significado implícito.
As personagens principais são o velho Mr Clay, um riquíssimo negociante de chá ; o judeu polaco Elishama, sobrevivente do holocausto; a sonhadora e bondosa Virginie, que se imagina a percorrer os vastos e amplos salões de baile das Tulherias; e o enorme (intimidante como um urso) mas delicado marinheiro Povl. ( um judeu, uma Virginie, um homem com aspeto primitivo, um velho omnipotente...)
O velho e solitário Mr Clay pega numa história que corre nos navios , inventada pelos próprios marinheiros e empenha-se em torná-la realidade, "materializando assim uma fantasia".
Elishama tem a tarefa de arranjar uma jovem mulher , já que do par masculino se ocupará o próprio Mr Clay. É por isso que Virginie e Povl entram nesta história. Os dois desconhecidos passarão uma noite juntos e assim a fortuna de Mr Clay terá um herdeiro.
Mr Clay diz ao casal antes de ficarem a sós :
-" na realidade , sois duas fortes e sadias marionetas nestas minhas mãos decrépitas."
-"depois de eu sair (...) quando estiverdes sozinhos e pensardes que estais a seguir a seguir unicamente os ditames do vosso sangue, não estareis a fazer nada , rigorosamente nada, exceto o que a minha vontade determinou. Obedecereis ao
argumento da minha história" ...
E ao sair do quarto, " com um ar muito digno , voltou as costas aos pequenos atores no palco da sua omnipotência "
Entretanto Pavl e Virginie cumprem a sua obrigação... uma , duas, três e mais vezes e, de madrugada, confessam o que sentem um pelo outro: é puro amor, fugindo ao argumento previamente traçado por Mr Clay...
( Aqui chegados , é impossível não estabelecer as devidas ligações.)
É o amor a nossa história imortal, o sentimento maior que permite que a humanidade se perpetue.
Quando o casal se separa o marinheiro deixa à sua amada um búzio, que Elishama leva ao ouvido. O búzio traz-lhe sons de ondas ao longe. E ele ouve uma " nova voz na casa e na história" ...
A casa terá então uma criança...haverá sempre um futuro , a imortalidade, enquanto houver crianças. A história é a que acabámos de ler e também a história do próprio Homem...
Karen Blixen presenteia o leitor com um texto riquíssimo, pois ele diz muito mais do que aquilo que lemos à superfície, foi por isso que assim que cheguei ao fim , voltei a lê-lo.
Este é um conto-mais-que-perfeito de Karen Blixen!