Este primeiro volume das «Obras de Florbela Espanca» inclui os três livros de poesia que, entre outros projectos concebidos pela escritora, não só foram por ela preparados para publicação, mas também conduzidos até à edição que, embora sujeita a contingências, ficou legitimada pela sua vontade de autora: Livro de Mágoas, publicado em 1919, Livro de Soror Saudade, dado a lume em 1923, e Charneca em Flor, que saiu do prelo em Janeiro de 1931, logo após a morte da poetisa. Esta edição conta com um ensaio introdutório e notas histórico-literárias de José Carlos Seabra Pereira, eminente estudioso da poesia florbeliana.
Florbela Espanca (birth name Flor Bela de Alma da Conceição), a poet precursor of the feminist movement in Portugal, she had a tumultuous and eventful life that shaped her erotic and feminine writings.
She was baptized as the child of an "unknown" father. After the death of her mother in 1908, Florbela was taken into the care of Maria Espanca and João Maria Espanca, for whom her mother had worked as a maid. João Maria Espanca, who always provided for Florbela (she referred to him in a poem as "dear Daddy of my soul"), officially claimed his paternity in 1949, 19 years after Florbela's death.
Florbela's earliest known poem, A Vida e a Morte (Life and Death), was written in 1903. Her first marriage, to Alberto Moutinho, was celebrated on her 19th birthday. After graduating with a literature degree in 1917, she became the first woman to enroll at the law school at the University of Lisbon.
Between 1915-1917 she collected all her poems and wrote "O livro D'ele" (His book) that she dedicated to his brother. She had a miscarriage in 1919, the same year that Livro de Mágoas (The Book of Sorrows) was published. Around this time, Florbela began to show the first serious symptoms of Neurosis. In 1921 she divorced her first husband, which exposed her to significant social prejudice. She married António Guimarães in 1922.
The work Livro de Soror Saudade (Sister Saudade's Book) was published in 1923. Florbela had a second miscarriage, after which her husband divorced her. In 1925 she married Mário Lage (a doctor that treated her for a long time). Her brother Apeles Espanca died in an airplane crash (some might say he committed suicide, due to her fiancées death), which deeply affected her and inspired the writing of As Máscaras do Destino (The Masks of Destiny).
In October and November of 1930, Florbela twice attempted suicide, shortly before the publication of her last book Charneca em Flor (Heath in Bloom). Having been diagnosed with a pulmonary edema, Florbela died on December 8, 1930, on her 36th birthday. Her precarious health and complex mental condition make the actual cause of death a question to this day. Charneca em Flor was published in January 1930. After her death in 1931 «Reliquiare», name given by the italian professor Guido Battelli, was published with the poems she wrote on a further version of "Charneca em Flor».
É sempre bom voltar a mergulhar no mundo das palavras de Florbela Espanca. Continua a ser das minhas poetisas favoritas. Cada palavra é carregada de significado e emoção. Cada verso arrebata-nos por completo. Esta compilação está fantástica. Adorei conhecer poemas da autora que nunca tinha lido antes e reler aqueles que já antes me tinham tocado. Aconselho sobretudo a amantes da poesia.
Vejo-me obrigado, antes de tudo, a criticar a introdução feita por José Carlos Seabra Pereira. Também eu gosto de textos apimentados, aqui e ali, por palavras que, apesar de incomuns, são congénitas a uma situação; como uma peça de um puzzle que, quando colocada, nos mostra claramente a imagem. Desgosto, no entanto, quando o tempero literário é invertido, e existem poucas palavras simples num mar de complexidade frásica. Já é difícil montar um puzzle cuja imagem é abstracta (aqui representada pelas complexidades, pensamentos e emoções de Florbela Espanca), mas a tarefa ainda é dificultada se as peças forem inadequadamente pequenas ou deformadas. As ideias deviam ter sido transmitidas de uma forma mais simples e menos extensiva; aceito no entanto, a minha imaturidade e ignorância nestes assuntos como reclamação a esta crítica.
Quanto ao livro, consiste em três livros: "Livro de Mágoas", "Livro de Soror Saudade" e "Charneca em Flor".
Em quaisquer dos três livros, mas particularmente no primeiro, o decadentismo é palpável em todos os versos de Florbela. Conta-se facilmente o número de poemas em que o sentimento principal seja sequer positivo - são pouquíssimos. Atormentada consigo mesma, imersa numa dor que sente ser singular - e por isso incompreendida por outrem - Florbela transmite uma aura de lamento, fatalidade e decadência na grande maioria dos versos.
No entanto, existe uma evolução patente ao longo dos livros. O primeiro livro é altamente egótico e focado na mágoa proveniente duma profunda crise existencial. O segundo livro dá-nos a conhecer a saudade, euforia/disforia amorosa e erotismo da poetisa. No terceiro, apesar de manter a mágoa e tormenta como ingredientes principais dos seus poemas, vai mais longe; chega-se a identificar com a natureza num inesperado acesso impressionista em vários poemas, e em alguns recupera mesmo o seu poder e vivacidade, como em "Mais Alto!" ou "Versos de Orgulho", que deixo abaixo:
Versos de Orgulho
O mundo quer-me mal porque ninguém Tem asas como eu tenho! Porque Deus Me fez nascer Princesa entre plebeus Numa torre de orgulho e de desdém!
Porque o meu Reino fica para Além! Porque trago no olhar os vastos céus, E os oiros e os clarões são todos meus! Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!
O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?! O jardim dos meus versos todo em flor, A seara dos teus beijos, pão bendito,
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços... São os teus braços dentro dos meus braços: Via Láctea fechando o Infinito!...
A reiteração abusada da sua mágoa, principalmente no primeiro livro, é a minha crítica aos versos que li. Paradoxalmente, é desse sofrimento imenso, moído internamente vezes sem conta, que brota a sua poesia de qualidade; que nasce o que quer que seja que me fez gostar dos versos de Florbela.