Diante de um caso de identidade duvidosa de um preso negro que se suspeitava ser cativo, mas que afirmava ser livre de nascimento, o chefe de polícia do Rio de Janeiro entre 1833 e 1844, Eusébio de Queiróz - em tese o responsável pela repressão à escravização ilegal de africanos e ex-cativos -, certa vez afirmou que seria “mais razoável a respeito de pretos presumir a escravidão, enquanto por assento de batismo, ou carta de liberdade não mostrarem o contrário”. A obrigação de provar sua condição de pessoa livre, sob risco de ir a leilão público e retornar aos horrores do trabalho forçado, era apenas um dos obstáculos enfrentados pelos negros brasileiros no exercício de sua incipiente cidadania no Brasil imperial.
Como demonstra o historiador e professor Sidney Chalhoub neste ensaio indispensável, o descaso sistemático das autoridades em relação aos direitos mais básicos da população negra não pode ser dissociado das ilegalidades do tráfico de cativos. Entorpecida pelos pactos de conveniência com a classe proprietária, a vigilância do Estado foi conivente com o contrabando de mais de 700 mil africanos após a proibição nominal do tráfico, em 1831. Essa flagrante ilegalidade sinalizava aos ex-escravos e aos nascidos livres que sua precária experiência da liberdade estava à mercê dos interesses da casta de senhores, disseminando o medo da reescravização e estimulando práticas de resistência social.
Sidney Chalhoub (Rio de Janeiro, 1957) é um historiador e professor universitário brasileiro. Atualmente é também Diretor Associado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Foi premiado em 1997 com um Jabuti, um dos principais do gênero no Brasil, na categoria Ensaio pelo livro Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial. Seus estudos sobre escravidão, cotidiano e trabalho têm importância reconhecida, motivos pelos quais é um dos principais historiadores brasileiros.
Livro que nos faz refletir sobre o Brasil atual e porque o país é do jeito que é. Nossa corrupção vem de muito tempo atrás, o desprezo pela vida humana, o descaso pela população de origem africana, marcada para ser escravizada, tudo o que se passou no século XIX reflete ainda hoje no século XXI.