Eu entendo. Se queremos chegar ao fundo temos de escavar sempre no mesmo sítio. Assim Agustina, que faz rodar os elementos desta história no mesmo ponto, mesmo que de quando em quando dê notícias cronológicas, não vá a gente não perceber a pouca confiança da autora na revolução e o luto pelo declínio das razões antigas que alimentavam a alta burguesia do Douro, estacando-a no rio como a um penedo bizarro. O retrato desta Ema (parado, como é uso dos retratos) é o registo repetido, burilado ao pormenor, de uma impaciência inumana, de quem apostada a ser uma personagem de Flaubert acaba por ser só uma personagem portuguesa, em que nem o adultério pode reclamar o dramatismo das paixões ou uma centelha de intensidade existencial, por falência total das personagens - a Ema de Agustina falha por não ter um teatro à escala das suas mentiras. E talvez seja precisamente por isso que Agustina também falha. O vale Abraão não tem tamanho para Ema, como Portugal não teve para Agustina. Agustina foi maior que o país e que o sexo onde nasceu, que o sítio que decidiu povoar com as suas histórias, com a pequena burguesia portuense onde vagueou, de onde bebeu o veneno para as suas histórias sem ter com ela o antídoto com que defender-se (veja-se o prefácio escolhido, do António Lobo Antunes, que nem foi escrito de propósito mas roubado a uma crónica, onde luz a habitual mistura de inveja e altivez, o tom elogioso nem sequer tentando esconder o escárnio a que autor vota todos os que não estão por ele, poupando apenas os amigos e exclusivamente, parece, porque o são). Agustina foi provavelmente maior que o género literário onde decidiu campear. Cada vez me convenço menos de que Agustina tivesse em tanta conta o romance, ou que não tivesse preferido expressar a profundidade dos seus raciocínios de um modo mais sistemático, houvesse no país que lhe calhou a mínima tradição para o pensamento filosófico, ou o mínimo interesse pelo ensaio complexo. Porque é uma exploração do pensamento, o que Agustina parece sequiosa de fazer nos seus romances, que não são o terreno preciso para essas afoitezas. Talvez por isso sobressaia na sua obra esse tom inacabado, de algum enfado, displicência mesmo, a julgar pela quantidade de repetições involuntárias (ou deixadas para parecerem enganos, o que dá na mesma), de frases que talvez conviesse rever, de figuras cujo desenho acaba por perder destaque. Senão olhe-se para os personagens e para as suas cenas, e veja-se se não se repetem, como se fossem tentativas frustradas de explicar iluminações, de que se desiste porque o público nunca está atento. Atente-se nos diálogos, onde a voz é sempre a mesma, seja Ema que fale ou um dos figurantes inventados a jeito de ilustrarem o dramatismo da bela (é a voz da autora, não dos títeres). De como parecem intermutáveis as caracterizações dos amantes efectivos e por serem, sobretudo se comparados com as pessoas menores (em geral criados, pessoas do povo, gente acenando desde o fundo de um quadro de Bruegel). A superioridade de Agustina face ao detalhes que narra nota-se, infelizmente. E desespera o leitor, por mais que este tente rodear os paradoxos e se submeta com paciência à constante demonstração de génio - porque afinal sempre era um romance, o que pretendíamos ler, e não uma inalcançável dissertação sobre o desejo.