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Raízes do Brasil

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Portugese

220 pages, Paperback

First published January 1, 1936

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Sérgio Buarque de Holanda

43 books57 followers
Sérgio Buarque de Holanda was an important Brazilian writer, journalist, historian and member of the Academia Paulista de Letras.

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Community Reviews

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646 (42%)
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573 (37%)
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249 (16%)
2 stars
39 (2%)
1 star
6 (<1%)
Displaying 1 - 30 of 97 reviews
Profile Image for andrea ..
44 reviews75 followers
August 16, 2016
Há, neste clássico, uma série de análises importantes que auxiliam na compreensão desse mundo que chamamos de Brasil. Mas, enquanto lia, não deixou de me causar a impressão de ser um livro escrito por um homem branco para homens brancos. O livro apresenta problemas, como, por exemplo, sustentar a ideia de uma "democracia racial" no Brasil, à la Gilberto Freire. O fato de o autor apresentar exemplos contraditórios a tal ideia não o redime de endossá-la em diversas partes do livro. Nesse sentido, cito alguns trechos que me incomodaram:

"Entre nós, o domínio europeu foi, em geral, brando e mole, menos obediente a regras e dispositivos do que à lei da natureza. A vida parece ter sido aqui incomparavelmente mais suave, mais acolheadora das dissonâncias sociais, raciais e morais"

"...tendência da população para um abandono de todas as barreiras sociais, políticas e econômicas entre branco e homens de cor, livres e escravos"

"...o exclusivismo 'racista', como se diria hoje, nunca chegou a ser, aparetemente, o fator determinante das medidas que visavam reservar a brancos puros o exercício de determinados empregos"

E, ainda, referindo-se aos portugueses o autor afirma "a ausência completa, ou praticamente completa, entre eles, de qualquer orgulho de raça".

O que me choca é ler tantas resenhas enaltecendo o livro de Sergio Buarque sem que qualquer crítica racial e descolonial latinoamericana seja traçada.

Em diversos momentos, o autor se mostra um iluminista categórico, voltando sua admiração à razão, à disciplina e à organização (no maior estilo alemão) - o que, segundo ele, teria carecido aos portugueses. Fiquei com a impressão de que, para o autor, a razão de nossos problemas não foi a colonização, em si, mas a colonização por um país que prezava o "desleixo" como Portugal. Se tivéssemos sido colonizados pela Alemanha, talvez Sergio Buarque estivesse mais satisfeito com nossas raízes.

Chegando ao final do livro, quando o autor trata da recepção do positivismo no Brasil, esta impressão se altera. Sergio Buarque parece mais irônico e crítico em relação à razão e à abstração da lei e da moral - o que me deixou, por fim, intrigada e satisfeita.
Profile Image for Steve.
396 reviews1 follower
July 13, 2020
Mr. Holanda authored a nuanced accounting of Brazilian social history, which adds to my knowledge of that country. I seem to strive for black and white understanding, yet time again, I’m reminded that so much of our world occurs through the interaction of diverse themes, some subtle, some overt, some permanent, some transitory. Trying to come to terms with this is, for me, a never-ending cautionary journey. The primary forces at work through Brazilian history include the institution of slavery, the interaction with indigenous cultures, early Portuguese commercial objectives, a unique Portuguese culture relative to other Europeans, European history, the environment and the Catholic Church.

As an aside, I thought it interesting that Marie Arana’s biography, Bolívar, noted the Spanish did not have a commitment to education, “Education had been discouraged, in many cases outlawed, and so ignorance was endemic.” Mr. Holanda, however, notes while this was this case with the Portuguese, the Spanish made important investments in higher education very early.
In 1538 they created the University of Santo Domingo. The University of San Marcos in Lima, with the privileges, exemptions, and limitations of those in Salamanca, was founded by royal authorization in 1551, only twenty years after Francisco Pizarro began the conquest of Peru. The University of Mexico City also dates from 1551, and it commenced courses in 1553. Several other institutions of higher learning were also founded between the sixteenth and eighteenth centuries. At the end of the colonial era, Castile had established in its diverse possessions no less than twenty-three universities, six of the highest caliber, not counting those of Mexico and Lima. During the period of Spanish dominion, tens of thousands of people born in America passed through these establishments and completed their studies without having to cross the ocean.

So which is it?
Profile Image for Claudio.
176 reviews9 followers
February 27, 2020
“A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido."
Reflexões muito interessantes sobre a formação do Brasil e como ela afeta nossas instituições. Acho que a ideia mais interessante para mim foi sobre a distorção das instituições (como a democracia) para dar a impressão de modernização, mas manter o status quo.
Profile Image for David Borges.
31 reviews
July 21, 2021
Como muitos livros do começo do século passado, achei a linguagem extremamente cansativa e densa. Do ponto de vista do conteúdo, confesso que esperava mais, nessa tentativa de explicação do que é ser "brasileir@". A perspectiva é definitivamente masculina, branca e dominante, o tal do "homem cordial" me pareceu mais um "homem hipócrita" ou superficial, e os escravos e indígenas ocupam relativamente pouco espaço na narrativa, quando comparado ao impacto deles e da aparente miscigenação na população, como um todo.
Profile Image for Gabriel Machado.
18 reviews11 followers
July 30, 2020
Em pouco mais de 200 páginas, Raízes do Brasil mudou o modo como vejo tanto nosso país quanto nós mesmos. É um ensaio sobre as origens (rs) do nosso âmago, de nossa essência como brasileiros, mesmo.

Antônio Cândido, que introduz o livro diria que:

"Sérgio Buarque de Holanda analisa os fundamentos do nosso destino histórico, as "raízes" aludidas pela metáfora do título, mostrando a sua manifestação nos aspectos mais diversos, a que somos levados pela maneira ambulante da composição, que não recusa as deixas para uma digressão ou um parêntese, apesar de a concatenação geral ser tão rigorosa."


Começando sua digressão ainda na Colônia, Sérgio escancara características que herdamos diretamente dos países ibéricos — que ele considera serem fundamentalmente distintos dos outros Estados europeus — e outras que desenvolvemos nós mesmos, aqui, nos trópicos.

Citarei cinco delas:
1. O espírito de "aventura", que afasta a ideia de trabalho sem ganho imediato ou fácil:


2. O "culto à personalidade" e à "individualidade", que corrói e aborta qualquer tipo de organização coletiva que não seja fundada em ganho próprio:


3. Como o suposto "trabalho mental" é visto como virtude, e o "trabalho braçal" algo penoso, lembrando a dinâmica senhor de engenho x escravo:


4. A dificuldade que temos de diferenciar relações de trabalho de relações de afeto:


5. Por fim, a cordialidade do(a) brasileiro(a), conceito esse que talvez seja a maior contribuição que Sérgio trouxe em sua obra: (jeitinho brasileiro?)

Aqui, Sérgio aborda algo que considera uma de nossas principais marcas como brasileiros: a cordialidade. Não no sentido de bondade, infelizmente, mas no sentido de afeto, que esconde nossas mazelas.

As relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós.

É nossa hospitalidade, são nossos abraços, nosso sorriso fácil, que estão presentes em todas as relações sociais, que dificulta o êxito de relações que não sejam afetivas: trazemos para lado do sentimento tudo quanto é situação: é o que, para ele, explica, por exemplo, nossas oligarquias, a perpetuação da mesma família no poder por gerações — não sabemos diferenciar as relações econômicas, sociais e políticas das relações carinhosas e familiares.

É a intimidade levada ao extremo, oposta à racionalidade que países protestantes alcançaram. E quem fala isso não sou eu, e sim o professor Paulo Niccoli Ramirez, em entrevista à Casa do Saber (link no primeiro comentário).

Sobre o conceito do homem cordial, o professor Paulo diz que (adaptado pra não ficar enorme):
Uma das principais marcas do brasileiro é a "cordialidade", com todas as aspas. Sérgio não entende a cordialidade como bondade nem generosidade. Cordialidade vem do latim, "coração"; cordialidade é "agir com afeto". E esses afetos, no final das contas, acabam mascarando as relações de conflito e violência na nossa sociedade.

Sérgio quis dizer que a cordialidade fortalece o que se chama de "patrimonialismo", ou seja, a profunda relação íntima que a gente tem entre a esfera privada e a esfera pública, o que possibilita a expansão da corrupção mas não só isso, a questão é que se tenta tirar vantagem de toda a situação, e ao mesmo tempo buscar o menor esforço e o maior ganho.

É inegável a contribuição de Sérgio Buarque de Holanda ao pensamento político brasileiro. Seu livro, mesmo lançado primeiramente em 1936, pareceu, para mim, que poderia ter sido lançado esse ano, em meio aos ataques à democracia, às oligarquias familiares, o apoio cego a discursos rasos que encantam e matam, e tantas outras coisas que a gente conseguiu visualizar com mais clareza durante a pandemia (e antes dela).

Há críticas à obra? Muitas. Há, inclusive, uma edição completa chamada "edição crítica", que acrescenta ao livro mais de 100 páginas. Infelizmente, não foi a que eu li, então não posso falar sobre.

Por fim, deixo aqui meu convite para conhecerem os nossos autores brasileiros, não somente os literários, mas também os não-literários, tanto os clássicos, que criaram a base de nosso pensamento social, como os contemporâneos, que discutem hoje nossas mazelas e nossas conquistas.

É algo que eu mesmo to tentando fazer, também.
Profile Image for Felipe Tello.
9 reviews1 follower
June 13, 2020
Um livro crucial para quem deseja entender a formação brasileira, tanto enquanto sociedade quanto como Estado. Para além do binarismo exploração/povoamento - que também é abordado na metáfora do semeador e do ladrilhador - o autor identifica notáveis semelhanças entre todas as experiências colonizadoras americanas, que não perde de vista ao explicar os fins diversos que delas advieram bem como suas gritantes diferenças. Apesar da pretensão inicial, o livro não esgota (como era de se esperar) a história brasileira e o método weberiano de abordagem por vezes deixa a desejar quando secundariza as considerações de classe para tratar da figura do "brasileiro" uno, abstrato e fatalista. Ainda sim merece menção honrosa a ideia do homem cordial, reciclada e reaproveitada por quase todas as ciências humanas brasileiras, para explicar como, no Brasil, nada nasce mais privado do que o Público.
Profile Image for Maria Fernanda  Gonzalez.
67 reviews10 followers
July 7, 2013
Esse é um daqueles livros que todo brasileiro tinha que ler, ao menos uma vez na vida. É um clássico. Faz reflexões importantes sobre a cultura brasileira e ajuda a explicar nossa formação como povo, iluminando aspectos que nos influenciam até hoje - o que mantém l livro, escrito na década de 50, incrivelmente atual. Apesar de ser claramente um erudito, Sérgio Buarque de Holanda expõe seus argumentos de forma clara e direta, o que na minha opinião só acrescenta à genialidade da obra. Gostei tanto desse livro que tenho vontade de sair presenteando exemplares para todos os meus amigos.
Profile Image for Cid Medeiros.
49 reviews9 followers
April 7, 2015
Indispensável para compreender a permanente discussão sobre a formação cultural e social do Brasil. Somos ímpares, tanto para o mal quanto para o bem. Sem dúvida, nossas dificuldades e complexidades, essas veladas pelo nosso apreço ao bom estilo de vida despreocupado, nos forçam ao autoreconhecimento no texto pela via do mal. Aquela via do desleixo cosmológico, da corrupção da individualidade e do "cordialismo". De um modo ou de outro, Raízes do Brasil é uma imersão na metamorfose dessa região que saiu do comunismo ecológico indígena para a esquizofrenia exploratória, materializada por meio do braços africanos. A ótica a dirigir esta historiografia sócio-cultural se deve à análise da mentalidade ibérica, em especial a lusitana, uma herança cultural que gostaríamos de esquecer, mas a sua presença se faz mais atual do que poderíamos desejar.
Profile Image for Anna Braga.
181 reviews16 followers
July 26, 2020
Independente de se concordar ou não, é um livro que faz parte da construção sociológica do Brasil. Uma boa frase sobre nossa sociedade: "mais cúpula que alicerces".
Profile Image for misael.
395 reviews33 followers
April 1, 2025
Nosso velho catolicismo, tão característico, que permite tratar os santos com uma intimidade quase desrespeitosa e que deve parecer estranho às almas verdadeiramente religiosas, provém do mesmo motivo [o desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo]. A popularidade entre nós de uma Santa Teresa de Lisieux - Santa Teresinha - resulta muito do carácter intimista que pode adquirir seu culto, culto amável e quase fraterno, que se acomoda mal às cerimónias e suprime as distâncias. É o que também ocorreu com o nosso Menino Jesus, companheiro de brinquedo das crianças e que faz pensar menos no Jesus dos evangelhos canónicos do que no de certos apócrifos, principalmente as diversas redacções do evangelho da infância. Os que assistiram às festas do Bom Jesus de Pirapora, em São Paulo, conhecem a história do Cristo que desce do altar para sambar com o povo.
Profile Image for Monique Américo.
28 reviews
April 24, 2021
Fui ler pq é um clássico. Sérgio Buarque discorre sobre o processo de formação da sociedade brasileira, ou melhor, sobre a mentalidade da sociedade. Não é das leituras mais simples, é preciso bastante reflexão. A última edição é de 69 então acho que ainda há o que se acrescentar no assunto.
Profile Image for Mariana.
55 reviews1 follower
May 10, 2021
"Raízes do Brasil" traça um importante panorama sociológico do Brasil, percorrendo a história desde a chegada dos portugueses, e por conseguinte, da colonização, até o começo do século XX.
O livro começa antes mesmo do "descobrimento", explorando o imaginário e a realidade ibérica. A partir disso, o autor explora comportamentos herdados desse povo por nós brasileiros, mostrando como estes impactaram e impactam a nossa cultura. Nesse contexto, um dos aspectos mais surpreendentes do livro é a sua atualidade; quase um século depois, condutas típicas do Brasil - como a personalização, o "homem cordial" e as prioridades a curto prazo - ainda persistem. Além disso, a importante crítica de Holanda ao intelectualismo brasileiro não poderia ser mais relevante.
Apesar de ser considerado um clássico, "Raízes do Brasil" não sobreviveu ao tempo: o mito da democracia racial é tomado como verdade pelo autor, que ainda chega a afirmar que a colonização foi branda. A total despreocupação com os horrores da escravidão e com a opressão feminina - a qual foi um dos pilares da dita democracia racial, uma vez que essa constituiu-se por meio do estupro de mulheres racializadas por homens europeus - também corroboram as limitações dessa obra.
Assim, embora esse livro seja importante para entendermos o funcionamento do Brasil contemporâneo, sua falta de empatia impede um melhor aproveitamento da obra e um verdadeiro entendimento da colonização.
Profile Image for João P.
36 reviews1 follower
Read
February 23, 2024
"Raízes do Brasil" é, em diversos sentidos, um livro datado. Os quase 100 anos que nos separam da sua primeira publicação enriqueceram muito a discussão, entre outra coisas, sobre o lugar do negro na história brasileira, personagem bastante relegada na narrativa de Sérgio Buarque de Holanda. O tom excessivamente culturalista de sua análise talvez não gerasse tanto incômodo caso não se pretendesse uma descrição tão universalizante da personalidade do brasileiro.
Mas são palpáveis as qualidades que fazem dessa obra um clássico, seja a riqueza de sua análise histórica, a qualidade de sua escrita ou a desconfortante atualidade com que as questões descritas por Holanda se colocam. As mazelas nacionais e os tipos sociais brasileiros que ele descreve são ainda muito claramente reconhecíveis na nossa vida pública.
Para além de um juízo de valor, acho que o sentimento de obra datada que a leitura desse livro em 2024 provoca é fruto do lugar específico que ele ocupa na história do nosso pensamento nacional. Situado nos primeiros anos da era Vargas, da consolidação da sociedade burguesa industrial no Brasil, é o marco de um primeiro olhar moderno, racionalista, crítico para nossa própria realidade. E apesar de eivado de vicissitudes que saltam aos olhos de uma consciência contemporânea, e que definitivamente merecem uma reavaliação crítica, é de uma lucidez e pertinência que mantém sua leitura instigante e provocativa.
15 reviews
August 7, 2021
Clube do Livro 06/08/2021.
Eu, Fer, Mari, Dani, Vivi, Fabi e Carla.

Noite em que debatemos sobre o homem aventureiro, semeador, que chegou no Brasil sem planejamento e vontade de criar um novo Império fora de Portugal. Chegou e ficou onde chegou, no litoral, onde chegavam os escravos aos montes, que encontravam aqui os índios, que eram milhares e também tinham seu Império. Mas esses, difíceis de escravizar, viraram amigos do Homem Cordial, que aos poucos foi se infiltrando, mesclando, se espalhando, até substituir aos poucos os amigos que ja não serviam mais. E assim início-se uma nação, onde “aos inimigos a lei, aos amigos nada”.
2 reviews
September 3, 2012
Mais a frente pretento melhorar o meu "review", mas pelo momento gostaria de dizer que minha nota 4 estrelas se refere, apesar de óbvio, ao meu sentimento na leitura do livro. Dado o meu pouco conhecimento antropológico, sociológico etc eu não extraí tudo que o livro poderia fornecer. Principalmente para o final do livro fiquei um pouco perdido. O que posso intuir é de que para quem tem um treinamento em ciências humanas sem duvida dará 5 estrelas para esse livro.

Por fim, só queria dizer aos que estão interessados na leitura do livro, ele realmente se propõe ao que o título indica. Analisar as raízes (sociais) do Brasil.
Profile Image for Weslley Dos Santos  Graper .
20 reviews1 follower
December 17, 2020
Uma verdadeira lente para ler o Brasil. Um clássico da sociologia e historiografia brasileira. Ao ler Raízes do Brasil, muitas vezes nos perdemos na temporalidade, fica-se muito na dúvida se o autor está a tratar do passado, ou do presente. A permanência de antigos costumes Ibéricos e coloniais em nossa sociedade contemporânea (acresce que o livro foi escrito na metade do século XX), é o que Sérgio Buarque De Holanda deixo demasiadamente explícito. A exemplo o ímpeto aventureiro do português, que nos trópicos buscava enriquecimento rápido para retornar a suas terras, juntamente de sua aversão aos trabalhos manuais, herança da antiguidade - escravidão romana -, na qual restringe-se a contemplar os resultados do labor, mas não em plantar a árvore para assim colher seus frutos.
Coloca de forma muito interessante, a adaptação dos portugueses nas terras além mar, acresce o fato da sorte destes, de terem encontrado a costa repleta de uma mesma "nação" indígena, proferindo a mesma língua, caso não fosse estes, aqui logo teriam subitamente malogrado. Além da questão da miscigenação, na qual a península ibérica já vinha de séculos de experiência de convivência com outrem díspares - questão que S.B.H. coloca como propícia para o que acarretou-se no Novo Mundo. Nos capítulos "Herança Rural" e "O Homem Cordial", o autor explora o ethos brasileiro que persiste até nossos tempos. Quanto ao primeiro, destaca-se a dificuldade em separar o público do privado e a "tendência de formação de facção", consequências da estrutura da família patriarcal, vincada na sociedade desde os primórdios coloniais, no qual com os processos de urbanização e buracratização, os grandes aristocratas rurais passam a ocupar os cargos públicos. Quanto ao segundo, demarca-se, como de forma irônica, Sérgio Buarque profetiza a herança do brasileiro para o mundo: sua cordialidade - podendo-se fazer uma tradução livre e ampla, como o conhecido "jeitinho brasileiro". Encontramos nesse ímpeto, a aversão aos ritualismos, sempre na tentativa de ausentar as distâncias a aproximar as intimidades. Esta característica do brasileiro, que manifesta-se de diversas formas; na linguagem, negócios, vida social e etc. Vale a leitura integral deste clássico atemporal. A edição da Companhia das Letras é de extrema qualidade, contando com prefácio de Antônio Candido e posfácio de Evaldo Cabral de Mello, outras duas mentes brilhantes do pensamento brasileiro. Única crítica a edição, é a respeito das notas de rodapé ao fim do livro, e não ao fim de cada página.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Gabriel  Nakashima.
9 reviews
April 29, 2020
COM SPOILERS] Depois de alguns meses, terminei de ler a obra (acho que) mais famosa de Sérgio Buarque de Holanda. Na verdade, comecei a leitura enquanto ainda estava na graduação, através da leitura do capítulo 4, O semeador e o ladrilhador, para uma disciplina muito ligada à época mais retratada do livro: o Brasil Colônia. Vou usar aqui para exercitar o que aprendi, até porque não conversamos deste tipo de coisa e, por isso mesmo, acho que perdemos estas memórias.

Apesar de o clássico conceituar ideias que na atualidade podem ser atrasadas – tais como a de democracia racial, a razão cartesiana e o suposto desleixo dos indígenas e também dos portugueses – foi muito interessante lê-lo por trazer olhares, para mim novos, da história. No fundo, talvez eu que tenha amadurecido pelo menos um pouco, a ponto de ter criado algum fascínio pelo nosso passado. Ou então, na minha busca pela minha identidade (e do meu contexto), ver nesta obra uma pista do que somos hoje.

Os achados são diversos, tanto sobre o conteúdo do próprio livro como também sobre o tempo em que ele foi publicado. O olhar que o autor tem sobre a escravidão no país revela como nosso desenvolvimento pós-colonial tem muito a ver com a forma que a abolição (1888) dessa estrutura foi feita, ainda que a Lei Eusébio (1850), que proibiu o tráfico negreiro, tenha sido acertada. Como ficaram os poderosos que usavam deste meio de exploração se, no séc. XIX, a escravatura ainda era o normal? Parece que o resultado foi o nascimento da nossa primeira república.

Pelo que descobri ouvindo a Lilia e outros especialistas desse texto, O homem cordial, título do quinto capítulo, é um dos grandes frutos do ensaio e conceito pelo qual o livro é mais conhecido. A cordialidade que o Sérgio Buarque retrata aqui difere de como temos costume de usar. Ele usa tipo o Cortella, etimologicamente, pela palavra “cordial” vir do latim “cor”, significando coração. Então, o tal homem cordial seria o brasileiro, que é um homem que vive com o coração, principalmente falando de suas relações. Buarque cita, por exemplo, como nós brasileiros acolhemos a família e amigos, mas o resto das pessoas, deixamos de fora dessa proteção. A Lili comenta que isso acaba se resumindo no ditado “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Esse pensamento também reflete no que o autor reflete sobre nossa preferência do privado ao público. Ele até faz um comparativo com os japoneses dessa falta de pensamento coletivo.

Outros assuntos como a ruralidade do Brasil e a urbanização prematura; a falta de uma cultura estabelecida num país que nasceu “imaturo”; a falta da herança da cultura ibérica; o apego ao que é de fora e americanismo (vide nosso presidente); nosso passado ainda tupi com a língua-geral em SP; a fundação de universidades adiantadamente dos hispano-americanos em relação a nós (me remeteu à USFX, de 1627, onde estudei na Bolivía, enquanto a mais antiga universidade daqui é a própria UFPR, de 1912); o movimento integralista por ele chamado de “mussolinismo indígena” e o quadro de um Brasil fascista (o quanto isso é atual?). Ufa. E com certeza não abarquei tudo, até porque nem lembro. E pensar que a aula onde conheci essa obra foi dada por alguém que votou no nosso presidente. Que tempos loucos!
Profile Image for Sir Alain.
73 reviews3 followers
June 30, 2022
Apesar de escrito há quase um século, parece prever muitos dos movimentos da contemporaneidade. Pensemos História como um ciclo, onde ao conhecer o passado, conseguimos prever o futuro. E aqui nesse livro a gente vê toda a nossa origem como povo, reflexões sobre nosso comportamento, de onde vieram nossos valores, e de tudo o que nos torna uma pátria.
Profile Image for Vitor Luz.
18 reviews
August 31, 2019
Esse livro é considerado crucial na formação da identidade nacional do Brasil, de um autor altamente influente.

Dada sua grande fama, fiquei decepcionado. De repente por ter expectativas irreais para um obra dessa época com relação ao objetivismo, uso de evidências e rigor conceitual.

O livro é mais interessante onde fica mais perto da proposta de analise histórica concreta, como na comparação da colonização portuguesa e espanhola representada pelo planejanmento urbano e as formas de exploração agrária. O argumento de que a exploração lusitana pode ser descrita como relativamente desleixada é proposto de forma claríssima. Seu reflexo no Brasil atual é óbvio para qualquer brasileiro.

Contudo, na maior parte da obra, a falta de rigor e de um arcabouço conceitual claro, conjuntamente com a estrutura textual bem indireta e prolixa, tornam o texto maçante. Nesse sentido, achei a discussão no posfácio muito útil para um leigo, pois faz o ponto de que o essa obra é um avanço na direção de empirismo histórico com relação ao normal da época.

Eu esperava, talvez por erro meu, uma discussão profunda do conceito do homem-gentil, que representa de forma eloquente a essência de relacionamentos entre brasileiros, o que também não encontrei.

Como o livro é bem pequeno e realmente tem trechos interessantes, não diria que é uma perda de tempo.
Profile Image for Pedro.
79 reviews
July 10, 2020
Uma obra excelente em muitos aspectos, mas que está sujeita a muitas abstrações fatigantes e escolhas frasais herméticas. Como apresentado na introdução da edição que li, o autor trabalha muito bem com uma dualidade, uma polarização de ideias que facilitam a compreensão do texto.

Disto, temos como exemplos as comparações entre os povos ibéricos e os demais europeus; a antiga nobreza portuguesa e suas evoluções; o modelo de colonização português e o espanhol; a interpretação portuguesa do trabalho e a de outros povos; e outros assuntos muito importantes para a compreensão do Brasil.

Nesses pontos, a obra é de uma grande doçura e genialidade. É maravilhoso lê-la. Entretanto, como já observado por muitos outros, nos momentos em que o autor começa a desviar de uma abordagem mais histórica de suas observações, a leitura passa a ser complicada. Seria melhor, realmente, se o rigor nas explicações e interpretações de todos os temas introduzidos fosse o mesmo, baseado em explicações e análises concretas das coisas.

Ademais, como também já dito, há um certo jogo de palavras que paira sobre certas partes do livro que mais prejudica do que auxilia a leitura. Se não fosse por esse e essoutro problema aos quais me refiro, acredito que o livro teria sido ainda mais poderoso em suas análises que, convém dizer, nas partes em que apresenta o rigor supramencionado, são fantásticas.
Profile Image for Luana Fortes Miranda.
46 reviews19 followers
February 14, 2016
"A hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro. (...) Seria engano supor que essas virtudes possam significar “ boas maneiras” , civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. (...) Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. (...) A polidez é, de algum modo, organização de defesa ante a sociedade. Detém-se na parte exterior, epidérmica do indivíduo, podendo mesmo servir, quando necessário, de peça de resistência. Eqüivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoções. (...) No “ homem cordial” , a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo."
Profile Image for Ismael.
14 reviews
May 15, 2015
Uma obra essencial para quem quer entender o Brasil. Sérgio Buarque nos traz uma visão de como a nossa sociedade vem se moldando desde os tempos da colonização com todas suas virtudes e vícios. Após passados quase 80 anos desde que a obra foi escrita, muitos vícios apontados no livro ainda estão presentes em nosso dia a dia.
Profile Image for Artur Coimbra.
4 reviews1 follower
September 30, 2015
Bons insights, apoiados em farta documentação histórica (ao menos a partir da 2a edição), contudo frequentemente se perde em divagações filosóficas descoladas da realidade. Seu lançamento, 80 anos atrás, marcou uma guinada no estudo histórico e sociológico do Brasil. Uma boa parte do seu valor ainda se preserva.
Profile Image for Ju.
16 reviews
September 13, 2024
Esqueci de marcar que terminei esse, li por causa de uma disciplina da faculdade. Gostei de ter lido um livro do Sérgio Buarque de Holanda, mas nossa, muitos temas e muitas análises. Fiquei cansada de ler por isso as três estrelas
Profile Image for Anderson Paz.
Author 4 books19 followers
May 13, 2025
Obra de 1936. As reflexões sobre a formação do Brasil por Sérgio Buarque são muito interessantes e sua visão para o país estava bem à frente de seu tempo.

Capítulo 01: Fronteiras da Europa
A tentativa de implantar uma cultura europeia nos desterrou de nossa terra porque tudo que fazemos parecer ser de outro lugar.
Sob uma cultura de personalidade, Portugal manteve privilégios pessoais, ainda que não houvesse uma estrutura hierárquica fechada. A estrutura hierárquica aberta possibilitou a ascensão da burguesia mercantil que assumiu a tradição e não adotou uma racionalidade fria.
Adotando uma tradição personalista, a burguesia relativizou o mérito pessoal, ainda que o considerasse importante. O Estado assumiu o papel de unificar o povo.
Rejeitou-se uma cultura de "culto ao trabalho". A ociosidade pareceu mais excelente. Ócio e contemplação têm mais importância. A solidariedade em torno do trabalho existe onde há sentimentos, com familiares a amigos, dificultando uma cultura de obediência por dever.

Capítulo 02: Trabalho e aventura
A colonização foi do tipo “aventura”: colher fruto sem plantar árvore. O português buscava riqueza, organizando as lavouras para produção e exploração, não para construção e desenvolvimento nacional.
Os portugueses mantiveram métodos antigos porque visavam a exploração, não o desenvolvimento. Quis-se extrair do solo benefícios, sem grande sacrifícios.
Os portugueses não tinham orgulho de raça e já formavam um povo mestiço antes da colonização.
Predominou trabalho escravo, a indústria não desenvolvida e voltada à exploração, comércio travado, escassez de trabalhadores livres. Faltou uma capacidade de associação entre empreendedores no país. Sob origens personalistas, restaram relações afetivas, irracionais e passionais.
O português esteve aberto ao contato com a população negra, adaptando-se ao contexto da época. A língua, a simpatia do catolicismo e a mestiçagem possibilitaram a construção de uma nova nação.

Capítulo 03: Herança cultural
A estrutura da sociedade colonial foi rural. O desenvolvimento do comércio começou a desmantelar o domínio rural, levando à supressão do tráfico negreiro. A liberdade de crédito exigiu a superação do tráfico de escravos. Até a abolição da escravidão (1888), ferrenha oposição entre lamentadores e progressistas.
No domínio rural, a família patriarcal se consolidou como centro do poder, tornando-se modelo para as relações entre governantes e governados.
Não existiam estruturas intermediárias entre meios urbanos e propriedade rurais. Não havia burguesia independente. Antigos senhores estendiam seu poder à cidade, capturando a administração por meio de influência sobre burocratas.

Capítulo 04: O semeador e o ladrilhador
A colonização portuguesa foi de exploração comercial. Foi litorânea e tropical. Os portugueses se orientavam pela rotina e experiência, não por um plano racionalista. Por isso, se adaptaram melhor ao contexto brasileiro e, mais facilmente, conseguiram estabelecer diálogo com povos e culturas locais.

Capítulo 05: O homem cordial
Trata-se de uma cultura civil que mistura os âmbitos público e privado por meio da relação pessoal sem mérito. As relações sociais se dão com base no afeto e emoções.
No Brasil, predomina a vontade particular na esfera pública. O homem cordial é dirigido pelo afeto, vive nos outros.
O brasileiro é averso ao ritualismo e prefere a intimidade. Emprega diminutivos para aproximar com o coração. A ética emotiva orienta até a expressão religiosa, afrouxando ritos e crenças.

Capítulo 06: Novos tempos
O brasileiro tem dificuldade com sistemas rígidos de disciplina. Na profissão, busca por satisfação, não por excelência de sua obra. Diploma-se em busca de altos postos e reconhecimento.
No vício do bacharelismo, exalta-se a si mesmo sobre os demais. O trabalho mental fácil e não fatigante é a essência da sabedoria, para o brasileiro.
O positivismo caiu bem como crença fácil no poder das ideias com definições estreitas sobre a ordem social. Os movimentos reformadores sempre partiram de cima para baixo. Movimentos liberalizantes foram a exceção, e o povo nunca aderiu a eles com convicção.

Capítulo 07: Nossa revolução
A revolução brasileira é um processo de mudanças graduais, não um momento estanque. O meio urbano ascendeu e o meio rural foi retraído.
Desapareceu o velho engenho e ascendeu novas empresas e indústrias, desenhando-se uma nova república. A urbanização minou o meio rural.
O Brasil deve extinguir seus fundamentos personalistas, substituindo uma velha ordem patriarcal por um liberalismo democrático.
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July 25, 2024
De Holanda destaca as características dos portugueses que ressoavam na colônia que eles iam estabelecer. Por exemplo, no primeiro capítulo, de Holanda delineia o que poderia ser chamado de uma mudança fatal na nobreza portuguesa, de uma geração reverenciada de estadistas capazes para uma classe de neófitos que o autor descreve assim: “O que prezam acima de tudo os fidalgos quinhentistas são as aparências ou as exterioridades por onde se possam distinguir da gente humilde.” (de Holanda, 135). O autor então descreve como essa evolução gerou uma perda de austeridade e visão de império nos anos posteriores, resultando em um gestão incerta das contas no novo mundo e uma diminuição eventual da verdadeira espiritualidade entre os católicos leigos.
Ele destaca as diversas maneiras pelas quais os ibéricos diferem do resto da Europa, enfatizando seus valores agrários, o amor pelo lazer, a aversão à vida urbana e ao trabalho manual, reverência pela hierarquia, e a importância dada à ordem familiar patriarcal e seu efeito na dinâmica social. Nos capítulos seguintes, Holanda continua sua abordagem analógica, contrastando os castelhanos e os portugueses na forma como executaram os esforços coloniais no novo mundo. O capítulo quatro tem uma ótima seção em que o autor compara a meticulosidade com que os espanhóis construíram suas colônias, querendo que elas durassem para séculos, contra a relativa passividade dos portugueses para com a colônia no que seria o Brasil, a vendo como meramente transitória, um grande engenho e fonte de recursos teimosa, cuja previsão de vida certamente era pequena. De Holanda observa como a fundação casual e não metódica da colônia acabou atrapalhando seu desenvolvimento mais para frente.
Eu queria escrever mais particularmente sobre o quinto capítulo, um ensaio sensato e verdadeiramente tour-de-force, que investiga as origens do “jeitinho brasileiro”, que o autor designa como a cordialidade, sendo caracterizada, nas interações interpessoais, pela generosidade, a lhaneza no trato, a evasão da ritualidade rígida, o bom-humor, a irreverência, a hospitalidade, e um certo relaxamento geral. De Holanda salienta, numa série de observações astutas, o fenômeno do funcionário patrimonial, que se difere do burocrata na gestão política a qual se trata “como assunto de seu interesse particular”, desprezando a objetividade na gestão de interesses públicos. O autor explica como esse e outros fenômenos derivam da sobreposição entre assuntos familiares e assuntos estatais que se tornaram mais definidos na era das navegações e ainda mais pronunciados no novo mundo, à medida que o antigo modelo rural se tornava cada vez mais anacrônico. Ademais, De Holanda explora a aversão do brasileiro ao ritualismo, destacando seu desprezo pelos numerosos títulos de reverência tão estimada pelos portugueses. O autor salienta o uso profuso dos diminutivos nas relações interpessoais, até entre desconhecidas, postulando o desejo de acabar com a defensividade e o disfarce social como motivo, preferindo em vez disso reduzir a distância interpessoal posta pelas tradições velhas e conectar uns aos outros como amigos . Edificando nessa posição, De Holanda explora como o amor dos diminutivos, beirando a irreverência, se encontra e também caracteriza a abordagem do povo brasileiro para com a religião. O autor observa que possa ser por conta, por exemplo, da designação amigável de beatas como Santa Teresinha com nomes diminutivos, ou pela aversão da liturgia severa–aqui o autor destaca diversos relatos históricos e tradições que descrevem a irreverência brasileira perante instituições e ocasiões tidas por muitas como sagradas–que a espiritualidade e religião ritual nunca prosperaram no Brasil, mas ainda se encontram imagens e quartinhos de santo em quase todas as ruas, como se o povo os considerassem como amigos pessoais.
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August 13, 2022
Em virtude da obra ter sido escrita na década de 30 possui defasagens históricas e linguajar que muitos atribuem por complexo ou racista mas ainda assim Buarque consegue em seu primeiro trabalho construir uma obra que dá base a muitos estudos sobre o Brasil e o brasileiro.
Esse fator que é seu forte acaba sendo seu defeito, por se desdobrar, em um curto espaço de páginas, fatores históricos, sociológicos e antropológicos do Brasil não conseguindo clarear todos e indo e voltando sobre os tópicos ao passar para cada capítulo.
Possivelmente seu maior mérito não esteja na construção das "raízes do Brasil" mas na análise de buscar entender a essência do brasileiro.
Holanda passa pelas tradições herdadas da pater-familia romana nas primeiras relações do Brasil mais rural, sendo o termo rural que tem por preferência ao invés de agrário. Apresenta a herança dos cultos religiosos de maior descontração e proximidade familiar com os santos e Deus, herdado já de uma tradição ibérica. Na apresentação do caráter que formou o brasileiro coloca o português e o índio como o aventureiro, focado em aproveitar e explorar, frente ao caráter trabalhador que atribui as africano.

Cap 1 Fronteiras da Europa
Origens ibérica, a influência da companhia de jesus nos domínios portugueses para construção de pais mas católico.
O ócio superior ao esforço manual, característica protestante. Por a contemplação e amor frente ao desejo produtivo.

Cap 2 Trabalho e Aventura
Espírito português e ibérico é do aventureiro, não há foco em melhorar na área que atua mas em extrair e seguir a outro. Espírito trabalhador está nos negros.
Índios também aventureiros, em 1755 lei se incentivava casamento de europeu e indígenas

Cap 3 Herança rural
Século XIX é marcado pela tentativa de transição enquanto a exploração rural permanece e o país te tava se parecer moderno. O campo permanecia parecendo pater-familia romana-iberica com a diferença do senhor morar na casa de produção.

Cap 4 O Semeador e o Ladrilhador
Colonização portuguesa focado no litoral, direcionava a produção a complementar o da metrópole, como uma só existência. Espanha adentra em busca de outras forma de ganho.

Cap 5
O Homem Cordial é aquele que aparenta apego aos ritos mas não os exerce em consciência e totalidade, apenas pela formalidade. A imagem do brasileiro que descontrai, sem disciplina religiosa mas se mostra sempre amigável

Cap 6 Novos Tempos
A intelectualidade brasileira tentará produzir um novo pensar e sair do bovarismo mas entre ao positivismo. Aí mesmo tempo reina o bacharelismo com o foco na apresentação estética mesmo que falhe o conteúdo.

Cap 7 Nossa Revolução
Gradual e continua. Adoção de sistema democrático nos países ibéricos de origem se demonstrou ineficaz, adoção do lema da revolução francesa sem a prática. Enquanto o liberalismo é vendido e colocado germina o caudilhismo em seu interior, que por vezes afastou a anarquia e se demonstrou por vezes preferível de se conviver.
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July 8, 2024
Raízes do Brasil é o meu primeiro contato direto com a Sociologia brasileira. Bem, meu interesse pelo tema se deu espontaneamente e, como leiga, posso dizer que a leitura me trouxe um misto de sentimentos, indo da satisfação à frustração, pois sinto que, devido ao meu incipiente repertório, não consegui capturar todas as nuances que essa rica e complexa obra oferece. Por outro lado, entender, a partir do aspecto sociológico weberiano, que os motivos do comportamento superficial de hospitalidade atribuído ao brasileiro advém do legado colonial e patriarcal, e que tal característica atormenta até hoje a necessária impessoalidade no meio público, respondeu alguns dos meus questionamentos do porquê sermos um povo tão ímpar; uma nação marcada pelas raízes profundas e remotas do iberismo.

O autor caminha pela obra elaborando comparações entre a colonização espanhola e a portuguesa, idealizando tipos de personalidade conforme as éticas de trabalho e analisando traços da formação da população brasileira, o que dará base para sua interessantíssima tese do homem cordial. Nascido de uma cultura ruralista, personalista e patrimonialista, o homem cordial se funda no seio familiar marcado pela figura do patriarca. Nas relações sociais, o homem cordial se comporta de maneira hospitaleira ao tratar os outros com lhaneza e com uma afetividade exagerada – que beira à superficialidade –, buscando criar uma forma de intimidade, a qual é entendida como necessária devido à concepção de teor emocional carregada por valores de preferência. É nesse sentido que o homem cordial não consegue distinguir a vida pública da privada, transpondo seus interesses particulares para o público, de modo a corrompê-lo pela falta de racionalidade e de impessoalidade.

Mesmo que a obra tenha sido escrita em meados do século XX, ainda dá para fazer, com cautela, paralelos com o Brasil atual. Quando Sérgio Buarque nos avisa que a democracia foi um mal entendido por aqui, ele está falando sobre a persistência dos privilégios de nobreza que as nossas elites se beneficiam. O Brasil, e toda América Latina, possui a esperança eterna em se desenvolver e constituir um pleno Estado Democrático de Direito. Porém, o funcionamento de nossas instituições permanecem frágeis e, consequentemente, a justiça é golpeada pela parcialidade, pois na prática observa-se o favorecimento daqueles que são "amigos" dos que têm poder político ou econômico – ou até mesmo, vemos os favorecidos se confundirem com as próprias pessoas de poder –, além da condenação daqueles que são desfavorecidos por todos os pormenores que a estrutura social lhes impõe, seja por uma invisibilização sistemática ou por uma demonização imperativa.

Como retirar, portanto, essas raízes tão profundas que se desenvolveram ao longo da nossa história? Não é uma tarefa fácil, simples e instantânea. Conforme Buarque ditou no século XX, nossa maior revolução será no dia em que superarmos tais valores arcaicos desenvolvidos no mundo rural semifeudal que se construiu no início da colonização. Essa transformação, que não vai ocorrer do dia pra noite, impactará a moralidade e a política, primando de modo verdadeiramente solidário os interesses coletivos em detrimento daqueles desejos particulares mesquinhos que interferem negativamente na vida pública. Assim, espera-se extinguir os vícios patrimonialistas que alimentamos por causa de um passado nefasto.
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