(classificação: 3.5 )
Considero sempre um enorme privilégio poder ter acesso a obras escritas neste período. Acho incrível terem sobrevivido até aos nossos dias (muitas não tiveram a mesma sorte, como sabemos) e ser possível encontrar casualmente na biblioteca um exemplar para trazer para casa para ler.
Descobri as obras deste período por causa do meu blog/projecto de leitura «Linked Books» e cedo se tornaram favoritos meus, tendo sido "arrebatada" em especial pelas tragédias de Sófocles.
Fico sempre pois muito feliz, quando mais uma peça dos antigos gregos entra para a minha lista de livros a serem lidos. Estava assim muito expectante sobre esta leitura de Aristófanes, um autor cuja obra ainda desconhecia.
Fiquei bastante agradada com esta peça, proporcionou-me uma leitura muito agradável, mas não me arrebatou como as tragédias o costumam fazer. É, em minha opinião, bastante mais difícil escrever uma comédia que resista ao passar do tempo do que uma tragédia. Nas tragédias, podemos encontrar os grandes temas e questões intemporais da vida e da literatura (amor, amizade, lealdade, honra, bravura, e tantos outros) que facilmente transpomos para os nossos dias. Já nas comédias, o humor é algo que muda muito conforme os tempos e acontece-me muitas vezes acabar por considerar as comédias inferiores às tragédias (o mesmo me acontece também por exemplo com as tragédias e comédias de Shakespeare). É óbvio contudo que não são as obras que são inferiores, mas o prazer de leitura destes textos e a marca que deixam em mim é realmente menos forte do que quando leio tragédias.
As Rãs é uma comédia que foi pela primeira vez representada num concurso dramático de comédias : as Leneias (festival ateniense dedicado a Dioniso), no ano 405 a.c. tendo ganho o primeiro lugar no concurso desse ano. Estou a partilhar esta informação convosco pois é muito relevante para o próprio conteúdo deste texto. Aristófanes em minha opinião, criou aqui uma peça bem "à medida" desse festival. Lembremos que Dioniso era o Deus do teatro entre várias outras coisas (das festas, do vinho, da loucura, etc ... )
Ora reparem no enredo da peça: Dioniso (deus do teatro e de várias outras "cenas malucas" :) ) farto de não haver produção teatral como deve ser desde a morte de Eurípedes, decide ir ao submundo, ao Hades (pois claro, estão lá todos) buscá-lo. Leva o seu criado Xântias (um mortal), não vá a um Deus lhe faltar o serviço de criado na sua descida ao submundo.
Antes porém, vai a casa de Héracles (seu irmão, entre muitos claro, pois sabemos como era Zeus para fazer filhos...:) ) perguntar-lhe qual o melhor caminho para lá e se tinha alguma dica para lhe dar (uma vez que Héracles já havia descido ao Hades quando foi lá buscar Cérbero, o cão de 3 cabeças, guardião do submundo).
nota: Héracles e Hércules são a mesma coisa, ficou mais conhecido como Hércules.
Após esta "visita" ao seu meio-irmão, desce então com Xântias ao submundo disfarçado de Héracles (o que lhe vai originar várias peripécias e sustos, pois parece que Héracles não se "havia portado lá muito bem" na sua visita anterior :) ). Após as trocas de identidades resolvidas (onde assentou uma boa parte da componente humorística desta peça) , finalmente encontra Eurípedes, mas encontra também uma animosidade "aguda" no submundo entre Eurípedes e Ésquilo. Ésquilo que havia morrido antes de Eurípedes ocupava no submundo o trono de maior poeta e escritor de tragédias. Constava que Eurípedes ao chegar, havia usurpado o trono de forma injusta (pelo menos segundo Ésquilo). Dá-se então uma verdadeira "batalha literária" no submundo, entre Eurípedes e Ésquilo , de que são juizes Dioniso e também Plutão (o maior lá do sítio, deus do submundo). O vencedor da batalha literária poderia então voltar com Dioniso à terra dos vivos, pelo que um e outro batalham atacando as obras um do outro alternadamente, para tentar provar qual dos dois é o maior poeta e escritor.
Como dizia anteriormente, é um enredo muito apropriado para as Leneias. O enredo é muito bom e surpreendeu-me. Aristófanes faz ironia sobre a obra de outros escritores da sua época, aproveitando sempre que pode para satirizar também a política, a economia e a sociedade em geral da altura.
Existem os elementos de comédia mais "básica", como por exemplo a figura do criado "desbocado", a inversão de papéis, a caracterização de Dioniso como o um deus cobarde com menos coragem que o seu criado mortal, de Héracles como um deus comilão. Essas partes achei engraçadas, bem como algumas frases mais irónicas.
Às partes em que Aristófanes goza com os seus colegas escritores já não achei grande graça e a batalha literária, quase épica, pareceu-me ocupar uma grande parte da peça, tornando-se aborrecida para mim. Foi um discorrer de citações das obras de um e de outro e de ofensas mútuas, que seriam para ter graça mas às quais não consegui achar piada. Faltou-me para esta parte um maior conhecimento das obras destes escritores, já que de Ésquilo só conheço duas obras (Os Persas e Prometeu Agrilhoado) e de Eurípedes não conheço ainda nada.
Também não achei muita graça quando Aristófanes tentar provocar o riso com obscenidades, mas confesso que me surpreendi ao encontrá-las nesta peça.
Para mim e nesta altura teria mais interessante se Sófocles tivesse participado na batalha literária. Foi estranho ele não estar lá pois já tinha morrido e juntamente com Ésquilo e Eurípedes eram os três grandes tragediógrafos da época. Uma pequena pesquisa revelou-me que quando Aristófanes começou a escrever esta peça, Sófocles ainda era vivo, que morreu durante esse periodo e que Aristófanes ainda o colocou no submundo na sua peça, mas mais quase como um "remendo" . Daí o papel pouco preponderante de Sófocles nesta peça de Aristófanes.
Resumindo, uma boa leitura, com alguns momentos de riso, mas que não chega para recomendar a obra de uma forma geral a todos os leitores. No entanto, se já gostam de teatro clássico grego não deixem passar esta obra! Por mim, vou continuar a querer ler mais desta época e a descobrir melhor a obra de Aristófanes :)
Queria deixar ainda uma nota à edição das Edições 70 que está maravilhosamente bem feita, com notas excelentes e explicações sem as quais dificilmente entenderia a obra no seu todo.