Cruz de Portugal é mais do que a história de um rapaz. É a história de uma jovem república e do destino de toda uma nação chamada Portugal.
"Andava eu a atirar pedras aos pardais quando a República tomou conta de Portugal. A partir daí nunca mais tive descanso. O meu pai enfiou-me numa quinta, a trabalhar que nem um mouro para me tornar republicano. Depois mandou-me para Lisboa, para estudar e me tornar merceeiro. A seguir foi a vez de o governo me deitar as mãos: fechou-me num quartel em Tavira, para me tornar soldado. Por fim fui despachado para França, para as trincheiras da Grande Guerra. Foi aí que vivi o Inferno. Vistas as coisas assim até parece que nunca fui ouvido nem achado para a minha vida. Mas não é verdade. Houve um momento em que vislumbrei dois destinos e tive de escolher um. Terei escolhido mal? Talvez vocês mo possam dizer."
Professor no Colégio Internacional de Vilamoura desde 1987, onde tem dinamizado vários projectos inovadores no campo do processo ensino/aprendizagem, José Sequeira Gonçalves nasceu em 1952. Mestre em História Contemporânea de Portugal, com tese sobre Sidónio Pais e a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial.
O romance inicia-se pouco depois de 1910 e da Implementação da Republica.
Silves, Algarve, um menino, filho único, vive com os pais numa casa de média classe. O seu pai, dono de uma quinta e de uma mercearia, tem rendimentos suficientes para que a família viva com algum conforto.
Pouco depois dá-se a implementação da república e o pai torna-se republicano fanático, aderindo ao partido e acabando mesmo por conseguir um lugar como membro da comissão concelhia do partido republicano.
Tempos difíceis e confusos em que o povo se encontrava dividido entre os apoiantes da monarquia e os da republica, havendo mesmo confrontos em todo o território.
É assim neste contexto que a história tem início e onde o autor desenvolve as alterações politicas ocorridas nessa altura. Às mudanças geopolíticas que deram origem à 1ª Grande Guerra (1914-1918).
E é nesse período que o autor mais se centra.
O nosso rapaz, agora já estudante da escola comercial em Lisboa, vê-se incorporado no exército português com guia de marcha para a Frente.
Nesta fase é clara a intenção do escritor em mostrar o embuste que foi passado aos soldados que se exercitavam em Lisboa e Tancos com vista a defesa da pátria e da humanidade.
Chegados a França, depressa os soldados portugueses viam que aquilo não era nada como tinha sido pintado pelos comandantes e, sempre de bom humor (isso é algo que de facto sucedeu), foram encarando a guerra como algo que não lhes pertencia, onde nunca viram a sua utilidade e muito menos percebendo que sentido fazia estarem ali.
Toda a 2ª parte do livro narra episódios de conflito e das tropas portuguesas.
É depois do ataque de La Lys, em Abril de 1918, que o livro entra noutra fase e, quanto a mim, aquela que melhor exemplifica a monstruosidade da guerra e do quanto sofreram milhares de soldados.
Passado em grande parte num hospital, o autor consegue criar uma metáfora sobre o absurdo do conflito e da capacidade maléfica do ser humano, em simultâneo que vai dando exemplos da extrema humanidade que se verificava quando menos se esperava.
O dilema entre o amor à vida e o amor à pátria, também é explorado pelo autor, assim como achei muito curioso a exploração ou o brincar com o efeito borboleta que o autor leva a cabo.
Um excelente romance histórico que nos dá uma outra perspectiva dos tumultuosos tempos que antecederam a 1ª Grande Guerra e uma outra visão, talvez mais realista, mais crua, das sensações e reacções humanas num conflito militar.