Colectânea de textos breves, que participam duma interface em que a prosa poética, a micro narrativa e a asserção mordaz, tonalidades reconhecíveis na obra poética de Inês Lourenço, se conjugam numa síntese outra.
“Os textos breves de Inês Lourenço assemelham-se às efémeras na urgência e na delicadeza. Falam de coisas preciosas mas voláteis, coisas que se foram perdendo: o misterioso latim das missas (substituído por uma «liturgia pimba»); as casas como lugares onde já não se nasce, nem morre; o peso do nome que nos dão; os prazeres tácteis (a «comunhão erótica» com os livros em papel, inexistente nos sofisticados e-books; ou a «luxúria apoteótica» dos frutos e suas «polpas macias», «arredondadas promessas de sumo»); as cartas de amor ridículas, em envelopes de forro violeta, brevemente enfiadas no decote «como para lhe transmitir algo da própria pele»; fotos de família em caixas de sapatos». A maioria destas micro-histórias, no seu exercício de melancolia, estão no limiar do poema em prosa ou da crónica (mas da crónica que não quer ir a lado nenhum, antes se suspende na observação de detalhes ou súbitas fulgurações). Há também esboços ficcionais com desfechos irónicos, cruéis, surpreendentes ou de escolha múltipla. Inês Lourenço tem a noção exacta do que é a arte da miniatura; trabalhar as palavras como matéria raríssima que não se pode desperdiçar.” José Mário Silva (Atual/Expresso, 24 de Novembro de 2012)