Entrevista a Al Berto, a propósito da edição de Horto de Incêndio, a Manuel Hermínio Monteiro. Em Março de 1997, o editor Manuel Hermínio Monteiro entrevista o poeta Al Berto, a propósito da edição daquele que viria a ser o seu último livro de poemas originais publicado, Horto de Incêndio. O poeta faleceria em Julho desse ano. Esta curta entrevista, com um evidente carácter de urgência, foi feita como complemento do seu último livro Horto de Incêndio. Não esperava tanta brevidade nas respostas. Hoje, parece-me, faz todo o sentido. Como julgo natural que a grande maioria dos leitores de Al Berto sejam jovens que viam nele a intensidade chispante de um cantor rock deambulando pelas noites de Lisboa com uma disponibilidade de diálogo e de corpo inexcedíveis. Por isso se nos torna difícil ver uma Lisboa tardia sem a sua presença, o seu sorriso e as suas histórias envolventes. Sem os seus textos para os catálogos de artistas amigos. As inúmeras leituras públicas sempre repletas de gente jovem, que acorria para ouvir o homem a quem «crescera uma pérola no coração». Mas quem melhor o conhecia era o mar e os barcos que «faziam escala à sua porta».
Outubro de 1997 1 – Há bastante tempo que não publicavas e no entanto este livro, até pelo título, tem um carácter de urgência. Porquê? Telegrama 1: Todos os meus livros tiveram sempre um carácter de urgência. Porque ao terminar um livro nunca tive a certeza que um outro se seguisse. Cada um deles está intrinsecamente ligado a um momento da minha vida. A vida e os livros acontecem… Stop.
2 – Há os poemas «inferno», «sida», «febre», «fantasma», «senhor da asma». É um livro triste, trágico quase apocalíptico? Telegrama 2: Não podia ser de outra maneira. Veja-se os tempos que correm, tempos de manipulação e de enxertia, tempos de metamorfose maligna e hipocrisia. Já não há cidadãos, mas contribuintes – o que quer dizer que o corpo foi substituído por uma série de algarismos. Stop.
3 – A segunda parte, «Morte de Rimbaud» foi dito em voz alta no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Ao escreveres existe alguma vontade de que as tuas palavras sejam para ser ditas em voz alta? Telegrama 3: Sempre defendi a oralidade. É uma tradição da poesia portuguesa. Não publico poemas sem os lerem voz alta muitas vezes. «Morte de Rimbaud» foi escrito propositadamente para o espectáculo Filhos de Rimbaud e para ser dito em voz alta. Tentei ser claro. Stop.
4 – Coloquiais e íntimos, poemas como pequenos segredos ou conversas afectivas. Esta tua poesia parece nascer da necessidade de uma confidência. A poesia é feita para todos? Telegrama 4: Se calhar é porque toda a minha escrita é um dialogo comigo mesmo… Uma viagem em direcção ao silêncio. Não sei… Não. A poesia não é feita para ninguém em especial, mas uma vez publicada é para quem a lê. Talvez este livro seja um livro para ler também em voz alta. Stop.
5 – O que é que a tua vida deve à poesia? Telegrama 5: A poesia tem-me levado ao despojamento daquilo que é lixo e me atrapalha a vida. Cada vez mais me parece que a poesia é a única linguagem capaz de atingir o rosto de um deus e feri-lo moralmente, nem que fosse por um milésimo de segundo. Stop.
Al Berto, pseudonym of Alberto Raposo Pidwell Tavares, was a poet, painter, editor and cultural worker.
He was born in an high class burgeois family (with english origins from his grandmother). A year later he moved to Alentejo and in Sines he gets through all his childhood and teenagehood until his family sent him to the arts school António Arroio in Lisbon.
14th of April 1967, he went to study paiting in Belgium at the École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels, in Brussels.
After getting his degree, he decided to abandon painting in 1971 and get dedicated exclusively to writting. He comes back to Portugal at 17th November 1974 and at that time, writes his first book entirely in portuguese, Á procura do Vento num Jardim d'Agosto".
O medo, an anthology of his work from 1974 until 1986, is edited for the first time at 1987. It became his most important masterpiece and his definitive artistic testemony.
He left some incomplete texts for an opera, for a photography book about Portugal and "a false biography, as he called it.
For more information, in portuguese, go to: Wikipedia.
That's the last book published by Al Berto. One of the masterpieces of contemporary Portuguese literature. Rich in resources and interpretations that can spark debate.
A natureza está repleta de paradoxos que, de tão imiscuídos que estão, já passam despercebidos pelo comum dos mortais. Mais para mais quando actualmente o deslumbramento perante esses quadros naturais é densamente poluído pelas nuvens da industrialização, nos vários aspectos que esse conceito pode conter.
Nessa tangência de contrários, nasce uma obra, cujo próprio título já revela o que lá vai dentro. - o horto associado à vida, a cores inebriantes e a um perfume delicado contra o incêndio associado a morte, escuridão consumptiva e a um cheiro acre pestilento. Nesse limbo, este eu poético, embrenhado nos mundos obscuros da solidão e do silêncio, caminha pelas calçadas de uma cidade, na qual se destila. Crítico face àquilo com se depara, aponta os erros notórios para ele mas não para todos. O tom é visceral, utilizando termos orgânicos, fundindo-se neles.
Qual encantador de serpentes, às quais não removeram as glândulas plenas de um veneno agridoce, este livro causa uma adição incompreensível - como qualquer uma -, implantando um desejo por mais, a que se somou a visualização do filme biográfico. A overdose não poderá ser possível para as palavras de Al Berto dispostas quase sem pontuação, para imprimir um ritmo em stacatto. Grato estou por mais uma oferenda abre-mentes de uma amiga para a vida (certo, Cristina?)
"porque não se pode falar com o espectro mudo do engate - nem o desejo se levantará para seduzir o corpo daquele que se ausentou" (pág. 34)
"a qual dos demónios me vender? que besta suja será preciso adorar? em que sangue contaminado mergulhei a língua? que fogo estranho é este? que devora a beleza interior das coisas... que mentira me poderá salvar?" (pág. 70)
deitado há muito tempo - o cigarro luzindo como um olho de tigre vindo da noite e lá fora ainda se apercebe a húmida incandescência das frésias o rumor surdo das vozes pelo jardim onde a florida macieira se recorta no intenso céu de verão
mais além o rouxinol a madressilva a sebe de pilriteiros a brisa de um mar invisível - aflora-te a boca arde no coração a memória álgida dos limos dos casinos das praias saturadas de sal e de sedução
mas nada é perfeito - nem o magnífico chapéu de mademoiselle de noialles nem os dias que aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos falta-me o tempo para procurar o tempo perdido e não estou deitado na recordação da infância confesso que odeio escrever cartas ou enviar recados
ando há uma semana arrumando livros - comovido acabei agora mesmo de sacudir o pequeno novelo de poeira acumulada no interior das páginas do senhor da asma
por hoje é tudo *
ouve-me que o dia te seja limpo e a cada esquina de luz possas recolher alimento suficiente para a tua morte vai até onde ninguém te possa falar ou reconhecer - vai por esse campo de crateras extintas - vai por essa porta de água tão vasta quanto a noite deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te e as loucas aveias que o ácido enferrujou erguerem-se na vertigem do voo - deixa que o outono traga os pássaros e as abelhas para pernoitarem na doçura do teu breve coração - ouve-me que o dia te seja limpo e para lá da pele constrói o arco de sal a morada eterna - o mar por onde fugirá o etéreo visitante desta noite não esqueças o navio carregado de lumes de desejos em poeira - não esqueças o ouro o marfim - os sessenta comprimidos letais ao pequeno-almoço *
Primo libro vero (non per apprendenti) che leggo in portoghese. Con meno fatica che in russo, ma comunque con un occhio sempre teso verso i dizionari (e la grammatica). Grande soddisfazione.
"(...) recomeço a fuga, a última, e nela hei-de morrer de olhos abertos, atento ao mínimo rumor, ao mais pequeno gesto – atento à metamorfose do corpo que sempre recusou o aborrecimento.
o que vejo já não se pode cantar.
caminho com os braços levantados, e com a ponta dos dedos acendo o firmamento da alma.
espero que o vento passe… escuro, lento. então, entrarei nele, cintilante, leve… e desapareço."
“tudo se decompõe apodrece e as mãos enterram-se no estrume das horas - assim te escrevo sentado na parte mais triste do meu corpo noite dentro na boca a encher-se-me de ossos - até que irrompa a manhã e os tiros recomecem e a cinza do cigarro caia no chão e em mim cresça uma alegria maligna”
Al Berto (1948 – 1997) numa entrevista ao jornal Expresso, um mês antes de falecer – refere: “Aterrador foi ter-me apercebido o que havia neste livro de premonitório (“Horto de Incêndio”). A eternidade não é lerem-me dentro de 50 ou 60 anos ou ficar na história da literatura portuguesa. Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os toque.” Poemas que nos falam de palavras que não podem ser escritas, mas apenas ditas em surdina; de noites tristes junto ao mar; de feridas incuráveis; de homens cegos que procuram a visão do amor; da paixão por Lisboa, de um País de silêncio, sombrio, onde a realidade devorou o delírio, imóvel devorado pelo sol; antes e depois da alegria, antes e depois do pânico,
"Recado"
ouve-me que o dia te seja limpo e a cada esquina de luz possas recolher alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar ou reconhecer – vai por esse campo de crateras extintas – vai por essa porta de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te e as loucas aveias que o ácido enferrujou erguerem-se na vertigem do voo – deixa que o outono traga os pássaros e as abelhas para pernoitarem na doçura do teu breve coração – ouve-me
que o dia te seja limpo e para lá da pele constrói o arco de sal a morada eterna – o mar por onde fugirá o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes de desejos em poeira – não esqueças o ouro o marfim – os sessenta comprimidos letais ao pequeno-almoço
in “Horto de Incêndio”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997
"o sol fulmina a memória. limpa-a da crueldade do passado. a vida, aqui, reduz-se a efémeros passos, surdas gargalhadas, ideias que se evaporam lentamente. enfim, o mundo não é assim tão grande...
e a vida, afinal, é como as orquídeas — reproduz-se com dificuldade. mas estou cansado. os olhos fecham-se-me com o peso das paixões desfeitas. imagens,imagens que se colam ao interior das pálpebras — imagens de neve e de miséria, de cidades obsessivas, de fome e de violência, de sangue, de aquedutos, de esperma, de barcos, de comboios, de gritos... talvez... talvez uma voz. o desejo de um sol impiedoso, sobretudo enquanto dormia."
***
Posso estar encantada com José Tolentino Mendonça neste momento (e com outros, a bem dizer), mas quando as horas mais fundas da noite chegam, é sempre para Al Berto que os meus pensamentos voam.
Szerintem még sosem olvastam portugál irodalmat, és ezt a kötetet olvasva lehet, hogy nem is bánom. Bár arra rádöbbentem, hogy nem sokat tudok Portugália történelméről, pláne az utóbbi 1-2 évszázadról.
Iszonyú letargikusak voltak a versek, nem is értettem mindent, de ez a hangulat átjött. Aztán persze az utószóból megértettem a kontextust. Az lenne az igazi, ha ezután megint nekiállnék a kötetnek. De nem érzem a kraftot magmaban hozzá.
Ettől függetlenül kuriózum, hogy ez a kötet teljes egészében olvasható magyarul, és egy kicsit megismerhettem Al Berto munkásságát (és életét az utószóból).
”envolto num lençol de cal duas cintilações sobre as pálpebras húmidas e de um ardor perfura a noite onde uma noite atravessa um rio
o voo é demorado ficaste a saber que nem Deus é eterno desfez-se no erro daquilo que criou perdeu-se nas suas imperfeições e certezas
agora pela janela do avião vês como tudo é mínimo lá em baixo - quando a oriente da loucura a mão cinzenta do inverno perdura no rosto daqueles que sonolentos viajam dentro deste pequeno túmulo de serenidade”
………….. ……………
“escavo no coração um poço de sal, para dar de beber ao viajante que fui
deixo o vento arrastar consigo a infindável caravana de ilusões”
Nunca tinha lido a poesia de Al Berto, mas encontrei este pequeno a um preço convidativo, na Feira do Livro, e não consegui ignorar. Li-o de rajada, bebi estes poemas como se fossem água no deserto, e fiquei rendida a este Horto de Incêndio. Consigo agora perceber porque é que o Fred (Olá! 👋🏻) mo recomendou, e só lamento ter esperado tanto tempo para o ler.
"...o regresso nunca foi possível o verdadeiro fugitivo não regressa, não sabe regressar. reduz os continentes a distâncias mentais. aprende a fala dos outros -e, por cima dele, as constelações vão esboçando o tormentoso destino dos homens."
Két részre osztanám a kötetet, a bevezető versekre és a végén Rimbaud halálára. Ez utóbbi volt, ami elnyerte a tetszésem. Habár nem eredetiben olvastam, ezért elveszik a mű egy része fordítás után, de ez kivételesen jól meg lett ragadva. Rimbaud már régi kedvencem és biztos vagyok benne, hogy elismerően tekintett volna ő is erre a részre. A fiatal Rimbaud dekadenciája, a világmegvetés és az filozofikus elmélyülés párharca. Talán egy kissé rövidek a részei, de a végére érve nem volt különösebb hiányérzetem miatta.
Az első részben is találtam olyan verset, amin kicsit bővebben elcsemegézhettem, de az a helyzet, hogy ezt, minthogyha egy teljesen másik ember írta volna, mint a Rimbaud halálát. Túl sok, túl magasztos, túlságosan emészthetetlen, vagy éppen csak távol áll tőlem - pl. a nemzeti identitásában, hovatartozásában nem tudok osztozni vele olyan szinten, mint ahogyan azt az adott vers megérdemelné. A romantikusabb lelkületűek lefogadom, hogy könnyen kedvencre lelnének ezek közt a versek közt, de engem nem vett meg (két-három versszak kivételével). " istent minél előbb le kell cserélni versekre, [ sziszegő szótagokra, izzó villanykörtékre, valódi, élő és tiszta testekre.
az üres utcák fájdalma." - naplójegyzetek (részlet)
Az bosszant igazán ebben a kötetben, hogy háttéranyagot igényel, a verseket olvasva olyan érzésünk támad, hogy ez tipikusan az a vers, amikor "vajon mire gondolhatott a költő, amikor azt mondta hogy..." és kivételesen tényleg van valami, ami megbújik a vers hátterében. Emiatt az egyéni preferenciám miatt értékelem csak egy alacsonyabbal, meg amiatt, amiket följebb kifejtettem (obviously).
“horto de incêndio” foi o livro que escolhi para o desafio #primaverapoética do bookstagram. já há muito tempo que tinha curiosidade em ler al berto, e aproveitei este desafio para o fazer. disseram-me que este era um bom livro para começar, mas na realidade, comecei mal.
não estou muito habituada a ler poesia, muito menos poesia desta dimensão, com esta complexidade. e refiro-me a complexidade no sentido que acho que pode ser importante haver algum contexto.
nesse sentido, vi o filme biográfico “al berto”, de 2017, que gostei e me deixou mais curiosa com esta leitura. recomecei. e por vezes é necessário recomeçar, e recomeçar de forma diferente. li mais devagar, repeti a leitura de cada poema - às vezes mais que uma vez -, li-os em voz alta. e a verdade é que poemas que não me disseram nada na primeira leitura, passaram a dizer… e ainda marquei alguns como favoritos deste livro.
acho que nem sempre é necessário entendermos o poema para o acharmos bonito, para que sintamos alguma coisa ao lê-lo, mas tive alguma dificuldade em sentir coisas ao ler este livro.
acredito que esta seja a experiência de quem está a aprender a ler poesia, ou simplesmente a minha experiência (não temos que gostar todos do mesmo), por isso não se acanhem. acho que pode valer a pena!
“nesta casa só sobrevive a memória turva dos poemas amados”
“mesmo assim conheço todas as esquinas da imunda cidade que amo mesmo assim sofro de insónias”
“sinto-me capaz de acabar com este vácuo, e de acabar comigo mesmo. a dor de todas as ruas vazias. mas gosto da noite e do riso das cinzas. gosto do deserto e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precariedade doutro corpo. (…) os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas… e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
triste, intenso, funesto até. um portal para mundos mais complexos, para o silêncio da solidão e para uma intimidade, subtilmente, posta à vista. é o ultimo livro de poemas de al berto onde a sua morte é quase anunciada e pressentida em cada verso. li-o muito devagar e, chegado o seu final, percebo que não se consegue ler de outra forma: a urgência na escrita pede a calma na leitura.
"a verdade é que passei a vida a fugir, de cidade em cidade, com um sussurro cortante nos lábios. e atravessei cidades e ruas sem nome, estradas, pontes que ligam uma treva a outra treva. caminho como sempre caminhei, dentro de mim - rasgando paisagens, sulcando mares, devorando imagens."
Decidi ler este livro pois agrada-me imenso o gênero literário da poesia, prefiro poemas de romance. Que não há neste livro, mas mesmo assim consegui adorá-lo muito! De certeza que vou voltar a lê-lo mais vezes. Fiquei com um certo receio ao ver a capa, pois parecia- me ser de terror. Mas não, o livro baseia-se muito na reflexão do eu poético e o seu sentimento de medo.