Baseado na história real conhecida como “Três de West Memphis”, a qual 3 adolescentes do Arkansas foram acusados de matar 3 crianças e condenados à prisão perpétua – e um dos adolescentes recebendo a pena de morte - Demolidor Redenção trabalha com uma narrativa muito semelhante, em que 3 adolescentes são acusados de assassinar uma criança no Alabama, e a polícia mesmo não tendo tantas provas concretas, prendem os 3 jovens por serem “satanistas” e servirem como ótimo bode expiatório.
Nesse ensejo, a mãe de um dos adolescentes acusados, recorre a Matt Murdock, que aceita o caso, e inicia sua investigação na pequena cidade do estado do Alabama ( que não é nada receptiva com o advogado). Nesse sentido, é interessante notar a construção da atmosfera de cidade do interior, por exemplo os vizinhos fofocando e comprando uma narrativa facilmente para condenar alguém que não é bem-quisto na cidadezinha. A fama da família do jovem, bem como a do próprio jovem, influencia no julgamento e opinião dos demais, fazendo com que não pensem duas vezes antes de acusarem os jovens. Apesar de parecer algo estereotipado de cidade pequena e “caipira”, posso atestar com experiencia própria que é assim que funciona uma cidade pequena do interior, principalmente aquelas em que os ricos mandam e moldam as narrativas e compram pessoas e cargos importantes,
Se tratando do caso em que Matt se torna o advogado de defesa, ao longo dos 6 capítulos, nós o acompanhamos – juntamente de sua estagiária – fazendo o possível e impossível para encontrar uma saída para o caso. Em alguns momentos, parece que a investigação realizada pelo Demolidor, que encontrou algo em suas saídas noturnas, irá resultar em algo bom, mas não consegue somar em nada para um caso que já está praticamente definido. Em outros momentos, Matt e sua estagiária escolhem uma narrativa que pode ser sustentada com base em argumentos científicos e explorando falhas dos depoimentos dos acusados, no entanto, a batalha judicial travada contra eles, somado a toda opinião sobre o caso não ter outro desdobramento se não acusar os jovens, fazem todo esse esforço ser em vão. A sensação de agonia e frustração percorrem a HQ do início ao fim, deixando o leitor instigado a querer saber o que irá acontecer.
Além disso, é importante destacar que o Demolidor é um personagem que quase não aparece na trama, sendo específico de momentos da investigação. A trama joga os holofotes no Matt Murdock e em seu entorno jurídico, sendo um quadrinho totalmente focado em investigação e trama policial.
Outro aspecto interessante da HQ, que me fisgou muito a atenção e me fez refletir bastante sobre o tema, é toda a narrativa criada entorno dos jovens: satanistas, que escutam heavy metal e bebem/usam drogas. Somados a isso, há todo o discurso de um padre (que facilmente também poderia ser um pastor) alegando que rock, rpg, certos livros e afins, seriam coisas do diabo e que as famílias deveriam proibir que seus filhos utilizassem e usufruíssem de tais coisas do demônio, para proteger o lar e as famílias de Deus. Todo esse discurso me lembrou muito a nossa sociedade, que infelizmente ainda sofre com tais alegações de líderes religiosos. Embora muitas vezes pensamos que Yu-Gi-Oh ser taxado como cartas do demônio e Naruto ser do diabo sejam coisas do passado, atualmente temos fundamentalistas religiosos e líderes/militantes da extrema direita pautando sobre a “agenda woke”, que pode ser vista da mesma forma, é uma narrativa que visa criminalizar e menosprezar certos conteúdos que “ferem” os ideais conservadores pautados por eles.
Ademais, recomendo demais esse quadrinho, é uma trama incrível do Matt Murdock, mostrando o quanto ele é um advogado incrível, que se importa com as pessoas e como ele lida com a atuação do Demolidor influenciar ou não suas ações como advogado.