Guilherme José de Melo (Lourenço Marques, 20 de Janeiro de 1931) é um jornalista, escritor e poeta português, autor de numerosas obras de ficção e não-ficção. Iniciou a sua carreira de jornalista em Moçambique. Casou com uma mulher, mas pediu a anulação do casamento por sentir que não podia viver senão como homossexual, condição que assumiu corajosamente num meio preconceituoso. Em Outubro de 1974, na sequência de acontecimentos políticos que conduziriam à independência da até então província ultramarina portuguesa de Moçambique, mudou-se para Lisboa, indo trabalhar para o Diário de Notícias. Algumas das suas obras tratam de temas da vivência homossexual, destacando-se A Sombra dos Dias (1981), com carácter autobiográfico. Bibliografia A Estranha Aventura: contos (1961) Moçambique Norte - Guerra e Paz (1969) Menino Candulo, Senhor Comandante (1974) A Sombra dos Dias (1981) Ainda Havia Sol (1984) Moçambique Dez Anos Depois: Reportagem (1985) O que Houver de Morrer (1989) Os Leões Não Dormem Esta Noite (1989) Raízes do Ódio (1990) Como um Rio sem Pontes (1992) As Vidas de Elisa Antunes (1997) O Homem que Odiava a Chuva e outras estórias perversas (1999) A Porta do Lado (2001) Gayvota: um olhar (por dentro) da homossexualidade (2002) Crónicas de Bons Costumes (2004)
Dois livros num só, com narrativas intercaladas, uma na primeira pessoa, por Eduardo (um alter-ego do autor?) e outra na terceira, onde a história de Eduardo, um jornalista, se entrelaça com a de Liza, uma artista plástica que é sua amiga e confidente. Eduardo, um quarentão, sofre, relembrando a sua relação com um rapaz mais novo por quem se apaixonou e que protege, mas que deixou partir para longe, para o Algarve. Liza, não consegue libertar-se das teias do seu casamento com Dino, de quem se afastou depois de o ter surpreendido numa cena de sexo com a secretária. Eduardo é casto e sensato, esperando pacientemente pelo seu amado, sabendo que ele provavelmente não voltará, sobretudo se se deixar encantar por alguma “moura”. Liza, pelo contrário, é impulsiva e procura afogar a dor no álcool, no trabalho e em sucessivos encontros sexuais com todos os que a atraem, um militar num cacilheiro, um gigolo num bar de travestis ou um grupo de amigas lésbicas. Quando Dino reaparece, após uma episódio de bruxaria em Algés, a vida de Liza muda radicalmente mas ela acaba por descobrir que a água nunca passa duas vezes por debaixo da mesma ponte.
A estrutura com duas linhas narrativas acaba por ser um pouco desequilibrada: o romance é lento na primeira metade, mas é rápido no final; utiliza um estilo de escrita poético (e mesmo, alguma poesia), emocional e sensorial, na narrativa de Eduardo, e apresenta um estilo mais descritivo e realista na prosa de Liza; o enredo das duas linhas é quase independente e o desfecho é muito previsível. No entanto, a composição dos dois personagens principais (Liza e Eduardo) é muito boa, tal como a de Telmo (que, por pouco, seria genial), e certas passagens do enredo são deveras interessantes.