Era um sonho que eu tinha, ir à Escócia com a Elsa, íamos os dois de carro, atravessávamos o canal, apanhávamos um ferry, e depois outro, íamos juntos, a Elsa também tinha uma cena com a Escócia, falávamos os dois inglês, e íamos juntos, no verão, já estava tudo combinado, chegávamos lá no dia 8 de agosto, no dia do meu aniversário (...) mas depois, em maio, a Elsa acabou comigo depois de 12 anos juntos, saiu de casa, disse que estava confusa e que não se conseguia decidir e que por isso se ia embora. Nunca mais a vi.
Cresceu em Lisboa, Macau, Utrecht, Helsínquia. Trabalha em teatro, dança e cinema. Quase sempre nos bastidores. Vive entre Paço de Arcos e Antuérpia.
Tem 34 anos. Publicou "Operação Cardume Rosa"; "Se Não Bigo Não Digo" (ambos na Fenda); "Odília ou a história das musas confusas do cérebro de Patrícia Portela" (Caminho) e "Escudos Humanos" (Culturgest). Fez o curso de realização Plástica do Espectáculo e esteve no Teatro da Garagem, O Olho e Projecto Teatral. Escreveu diversas peças, como one spoke, one smoked, one died; Operação Cardume Rosa; T5; Banquete ou a Trilogia Flatland. Recebeu os prémios ACARTE/Madalena Azeredo Perdigão; Revelação de teatro pela Associação de Críticos de Teatro Portugueses e Navegadores Portugueses 94 de BD, pelo CNC.
Era capaz de não me importar de ler uma história maior contada pelo narrador deste conto. É um resumo bem acertado do eterno “quem me dera mas…” que, julgo, dificilmente encontrará um/a leitor/a que não se identifique, pelo menos em parte, com a atitude de vontades falhadas que percorre o conto do início ao fim. A fluidez da narrativa faz esquecer a extensão de alguns parágrafos. É uma reflexão, com humor subliminar, sobre os desperdícios de tempo, sonhos e, em última análise, da vida.
Uma autora que não conhecia, um conto engraçado e divertido. É verdadeiramente um monólogo, daqueles em que o nosso pensamento salta sucessivamente de problema em problema, sem parar de ritmo ou sem pausas pelo meio. Muito real, leva-nos a pensar quantas vezes desejamos algo e que depois os nossos pensamentos nos levam a questionar tudo e acabamos por resolver algo completamente diferente da ideia inicial. A ansiedade, a hesitação, o medo do desconhecido levam a que as ideias se percam, e que os sonhos nunca se concretizem. A escrita é fluida como é o pensamento, simples e directa. Recomendo. Nota : 3,8/5
Mais uma autora de quem nunca tinha ouvido falar, apesar de já ter vários livros publicados. Patrícia Portela traz-nos aqui um monólogo, como o título indica, de um homem que não tira férias há 7 anos. O narrador, em jeito de desabafo, fala nos planos que lhe saíram furados de fazer umas férias na Escócia e na Islândia, e dos motivos porque as ideias nunca saíram do papel. Desgastado com a vida de trabalho e com vontade de conhecer novos países, o narrador planeia uma grande viagem à China, mas depressa começa a colocar entraves a si próprio, sentindo-se cauteloso e com medo de arriscar.
Gostei deste conto. Nota-se que tem um propósito, uma ideia que pretende passar e consegue transmiti-la de forma eficaz e de forma cativante – ao contrário de vários contos desta coleção que li até agora. O conto chama a atenção para a cautela que há em nós, para as desculpas constantes que arranjamos para não prosseguirmos determinado objetivo, de nos acomodarmos às circunstâncias e não nos esforçarmos para mudar aquilo que achamos estar errado com a nossa vida. Só não gostei por aí além do estilo da narrativa, porque este narrador é daquele tipo de pessoa que não se cala e não conhece os pontos finais, tornando-se um bocado cansativo. Mas de resto, foi uma leitura agradável e que me deixa curiosa por conhecer mais desta autora.
O conto de Patrícia Portela é tão fiel como possível ao seu título: é um monólogo de um homem que acaba por esboçar um possível planeamento duma provável viagem ao Oriente. O homem fala, fala, fala sem parar, sempre a saltar de uma decisão para outra, à medida que pondera quais as preparações necessárias para levar cada plano a cabo. Faz lembrar um pródromo de uma crise de ansiedade, em que a mente da pessoa parece voar de problema em problema, de questiúncula em questiúncula, do futuro incerto para o passado que correu mal ou para a insatisfação com o presente, do planeamento de uma tarefa para a auto-comiseração em bola de neve a descer a montanha. O discurso chama à atenção do leitor não só porque lembra aquela típica hesitação e exagero de preocupação que costumam fazer com que as ideias morram na praia, mas também porque simultâneamente evita o melodrama e acaba por ter mesmo piada em alguns momentos. O ponto negativo foi somente o final que, embora expectável, me pareceu de certa forma demasiado anti-climático para uma leitura de resto tão engraçada e com mais potencial. Pondero ler mais de Patrícia Portela no futuro, dependendo da temática a que se dedica nas suas outras obras.
Os meus comentários a todos os contos da colecção estão publicados no meu blog.
Isto é um monólogo da procrastinação. Dá vontade de empurrar o narrador e dizer-lhe "Epá, VAI!". As desculpas esfarrapadas que arranjamos quando não temos coragem de perseguir os nossos sonhos... neste conto nota-se a ironia fina das consequências, e se me debruçar atentamente sobre as minhas desculpas, consigo desarmá-las e rir-me. Caramba, naaaa... não consigo ser tão enconada como ele! Sempre tive curiosidade em conhecer o cheiro da China... "-Agora não, que falta um impresso... -Agora não, que o meu pai não quer... -Agora não, que há engarrafamentos... -Vão sem mim, que eu vou lá ter... "
Fiquei curiosa para espreitar mais coisas desta autora. Agora, sim!
Gostei imenso da escrita de Patrícia Portela. O monólogo que ela escreveu não é aborrecido, muito pelo contrário. O narrador está a desabafar que há muitos anos que não vai de férias, mas está sempre a adiar por tudo e por nada e a verdade é que consegui relacionar-me com este relato, pois a vida tem montes de momentos como os que são descritos assim. Dizemos que vamos fazer qualquer coisa mas depois vamos sempre adiando, até que quando demos por ela, passaram anos e anos e nunca acabamos por fazer o que de início tanto queríamos fazer. Muito giro.
Típica história de procrastinação, de ir adiando as decisões, de ponderar o imponderável e acabar por não tomar decisão nenhuma. Um engraçado texto sobre uma possível viagem de férias, que vai alterando o destino inúmeras vezes... até chegarmos ao destino oriental da China, mas como é necessária habituação, vamos primeiro a um restaurante chinês para irmos provando a comida chinesa para não estranharmos quando chegarmos à China...
Nunca tinha lido nada de Patrícia Portela e gostei bastante deste conto.
A indecisão extrema faz com que a personagem nunca concretize os seus projectos.
Tantos sonhos por realizar. Tantos planos e locais de eleição; Escócia, Creta, Islândia, Pacífico, Xangai, Macau e acabar no restaurante chinês do bairro, é um eterno adiar da vida.
A história de alguém que queria ir a todo o lado sempre com outro alguém ou por outros motivos que não a sua vontade própria. Fazia imensos planos e no fim não fazia nada de novo.
Gostei do conto. Revive-se aqui o adiar constante de sonhos e a elaboração de projectos megalómanos que, certamente, são reduzidos a um monte de papéis e ideias soltas por concretizar (mais uma vez).