Se o seu sonho é morar numa vivenda, contente-se por não viver num prédio assim. Quando uma infiltração nas arrecadações põe à prova os condóminos deste prédio, o que sairá da cabeça de uma corja constituída por um cantor desafinado, uma psicóloga deprimida, um polícia brutamontes, um informático chulo, uma estudante prostituta, um cientista maluco, um casal com sete filhos e um escritor javardo?
Gosto de histórias decorridas em prédios, como Claraboia de José Saramago ou Caminho Como Uma Casa em Chamas de António Lobo Antunes. Porém, naturalmente que não estava a esperar encontrar um registo semelhante. Surgiu-me antes uma narrativa humorístico-satírica em que as personagens são directamente apresentadas e respectivamente colocadas nos seus andares, pelo que não temos de descortinar através da leitura quem é quem ou onde mora esta ou aquela personagem.
Acompanham-se então as peripécias, sobretudo as que reúnem os condóminos, em busca da solução para o problema que atingiu o prédio.
Acabou por ser uma leitura rápida, mas que se perdeu em figuras-tipo demasiado estereotipadas: o que era para ser engraçado, acaba por não o ser demasiadas vezes, roçando apenas o seu objectivo.
Apreciei bem mais as duas histórias em anexo, sobretudo A volta aos cavalos com a sereia taxista, devido ao carácter surreal de uma sociedade conviver tão naturalmente com sereias taxistas e outros seres mitológicos.
O Prédio é o último livro publicado por Miguel Morais. Quem me segue, sabe gosto imenso do trabalho deste autor. Ele costuma escrever livros pequenos, mas que possuem uma mensagem ou crítica mordaz. Ou uma colectânea de poemas focados num tema pré-determinado. Tudo com uma linguagem acessível e regado com bastante humor.
Em conversa com o autor ele disse-me “atenção à linguagem, é propositadamente vernaculosa”. Também fui alertada para o facto de não ser o meu género de leitura, mas decidi arriscar. Arrependo-me dessa decisão? Não, nem um pedacinho. Gostei? Devo dizer que nem por isso... Porquê? Porque embirrei com os condóminos [e com a sereia, mas já lá vamos] que se os tivesse como vizinhos, provavelmente já teria cortado os pulsos com uma colher de pau há bastante tempo.
Imaginem um prédio decrépito, habitado por inquilinos nas lonas, cuja discrepância de personalidades cria algumas situações caricatas que me fizeram rir. As críticas que mais me chamaram a atenção nesta obra foram a clara preferência que os condóminos manifestaram por ganhar dinheiro fácil através do jogo, de maneiras ílicitas ou a chular o Estado [não que ele não mereça, mas no final de contas que sustenta o Estado é o Zé Povinho], em vez de se aplicarem e, digo eu, trabalharem e a da típica atitude do “deixa andar” sem se preocupar com problema X até ser demasiado tarde.
Curiosamente, o condómino que mais me deu voltas ao estômago foi o escritor [Irónico, eu sei, mas acreditem quando vos digo que o homem era um porco. Pior! Um porco abertamente assumido e sem intenções de mudar]
Uma ideia original que encontrei no livro foi o anexo no fim. Segundo compreendi, esse anexo consiste numa história escrita pelo meu odiado escritor. Gostei da ideia, mas achei o conteúdo confuso: uma sereia taxista, cujo cliente lhe quer comprar uma camisa para a pobre coitada não andar em topless?!? Não gostei do conteúdo, mas ele enceta mais críticas: uma às mulheres relativamente à sua esquisitice e frugalidade quando vão às compras e outra à proliferação das lojas dos chineses no mercado nacional.
Sou volátil na atribuição de estrelas e sou a primeira a admitir isso. Atribuo maior peso ao que o livro me faz sentir, à empatia criada com as personagens, à história em si [enreda-me ou deixa-me à deriva?]. E é por isso que apesar de ter gostado das críticas e do humor, só atribuí 2* ao livro.
(...)... O humor sarcástico e tipicamente "tuga" reina neste livro, mas o que mais me fascinou foi a inteligência por detrás de toda aquela estupidez e as voltas e reviravoltas hilariantes......(...)
(...) Perante um problema que atingiu o prédio, as personagens procuram uma solução em conjunto. É na tentativa de o resolver que surgem inúmeros episódios caricatos que, por vezes, nos fazem rir. (...)