Em Porto Alegre, um grupo de rapazes se reúne numa oficina mecânica e decide fazer uma viagem curta e divertida, 'viagem de prazer até o mar'. A esses jovens junta-se o Cati, como é conhecido o personagem que dá título ao romance. Quando chegam ao mar, dois dos rapazes (Norberto e o Cati) decidem continuar a viagem e se desgarram do grupo. É nesse momento que as peripécias de uma viagem de prazer vão se tornando, aos poucos, um pesadelo, uma descida ao inferno. Perto de Florianópolis Norberto e o maluco são detidos de forma inexplicável, e em seguida são conduzidos de barco ao Rio de Janeiro, onde passam uma temporada no cárcere. O ambiente opressivo do Estado Novo pontua uma parte dessa desventura insólita, pois a prisão arbitrária dos dois personagens é, em si, significativa. Além disso, o silêncio de Cati pode ser visto como uma metáfora à censura e ao medo durante esse período da vida política brasileira.
O Cati é o mal, a morada do demônio. Mas como fugir do Cati quando se leva o Cati na alma? É essa a questão a ser enfrentada pelo perturbado protagonista de O Louco do Cati, considerado por muitos a obra-prima do escritor gaúcho Dyonelio Machado.
O Louco do Cati narra a história de um homem sem nome, sem passado e com poucas frases ditas ao longo das 270 páginas do romance. Sem personalidade definida e conhecido apenas por nacos oníricos de seu passado distribuídos aos poucos na narrativa, o "maluco" embarca em um bonde, vai até o fim de linha, tenta trocar uma nota antiga em um bar e acaba sendo levado por um grupo de jovens a uma excursão feita de caminhão pelo litoral.
Quando os demais retornam, o louco segue acompanhando um deles, o malandro Norberto, até ambos serem detidos sem razão aparente em Santa Catarina. Daí, são levados para o Rio de Janeiro e amargam a cadeia. Solto, o louco refaz o trajeto até o Rio Grande do Sul terminando, de modo fantástico, no Cati, em Santana do Livramento, na fronteira com Uruguai. Meticuloso, Dyonelio fez o planejamento da viagem desenhando um mapa com o percurso do protagonista e o tempo que cada passo do trajeto demandaria.
Se, como querem alguns teóricos, o maior objetivo da literatura é causar estranheza, O Louco do Cati é literatura em alto grau. O livro intriga desde a primeira linha, tanto na história narrada em clima de tédio e pesadelo quanto na forma. O Louco do Cati não foi escrito. Muito doente depois de haver conhecido as prisões do Estado Novo, em 1941, Dyonelio ditou o romance a sua filha. O escritor sentia-se alquebrado pela experiência do cárcere e acreditava não ter condições de pôr no papel a história que havia imaginado enquanto esteve preso. Cecília, a filha do escritor, anotou o romance.
Essa origem inusitada transparece no andamento do texto. Dividido em capítulos curtos, O Louco do Cati é narrado de forma áspera, intercalando em uma melodia esquizofrênica frases curtas, espasmódicas, com sentenças mais longas. A oralidade da história está também presente na linguagem coloquial e repleta de expressões e gírias – algumas delas de sabor passadista.
A região do Cati ganhou celebridade na história gaúcha devido à atuação feroz do caudilho João Francisco Pereira de Souza nos combates da revolução de 1893. João Francisco castigou os derrotados da insurreição com violência, apelando para o bárbaro recurso da degola. Sutil, Dyonelio cria uma atmosfera de mal-estar associando as lembranças esparsas que o louco tem de sua infância, passada sob o terror do coronelismo na região, e a ditadura Vargas, retratada e sempre presente, mas nunca mencionada.
Publicado em 1942, o romance recebeu a aprovação entusiasta de Mario de Andrade, Guimarães Rosa e Erico Verissimo, mas foi tratado com desdém pelo restante da crítica. Só foi redescoberto depois de relançado, em 1979, o que despertou o interesse pela obra de Dyonelio, hoje fixada entre as maiores expressões literárias do Brasil.
Não consegui ser "capturado" pelo texto, ainda que a história seja interessante. Creio que me faltou concentração para entender os subtextos do livro. A edição da Planeta traz um comentário de Maria Zenilda Grawunder que joga luz sobre a obra, mas eu confesso que fiquei pelo caminho.
O livro parece não ter enredo definido. Não se sabe por que viajam. Seria uma fuga? Se o louco fugia, por que aceitou passivamente a volta? A primeira parte é mais instigante e intrigante. Na segunda metade do livro, a volta, são mostrados aspectos mais comuns da vida, tanto em grande capitais quanto no interior do Brasil. No final, a loucura.
Uma obra lançada nos anos 40 ,escrito ou ditado pelo autor quase a beira da morte, bom não é uma trama totalmente surrealista ou psicodélica, mas é uma parada e viagem pela estranheza da mente e comportamento humano, num estado de terror. É claro que tem reflexos políticos de sua época ,embrulhado num "romance de estrada", do qual o destino, a cidadela do Cati, pode não ser o final.