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O Tempo das Criadas: A Condição Servil em Portugal

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«Até chegar aqui, fui-me cruzando com as indicações e regras produzidas pelas or­ganizações femininas do Estado Novo ensinando às jovens portuguesas que as suas criadas mereciam caridade, voz firme e olho vivo. Rica em metáforas políticas sobre a definição do valor de um indivíduo a partir do seu lugar de nascimento, a criada de casa era julgada pela desobediência, preguiça, sujidade e mania, para referir apenas os atributos mais incisivos.
Procurei neste livro esclarecer as formas de relacionamento dos criados com os patrões, a natureza dos conflitos e os códigos de tratamento, as origens sociais, os hábitos, os usos do corpo, a linguagem, entre muitos outros aspectos.
O que sabemos para além de um conjunto de rasgos de criação literária que ficcionaram a vida das criadas de servir no contexto do século xx português? Na literatura, no cinema e na dramaturgia popular encontrei muitas vezes densidade psicológica atribuída a estas personagens, mas faltava uma interpretação estrutural que dinamitasse ou, pelo contrário, sustentasse as construções sociais da trabalhadora servil doméstica.»

320 pages, Paperback

First published August 1, 2012

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About the author

Inês Brasão

12 books6 followers
INÊS BRASÃO nasceu nas Caldas da Rainha, em 1972. É doutorada em Sociologia Histórica (2010), pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a tese A condição servil em Portugal: memórias de dominação e resistência a partir de narrativas de criadas.
Com actividade docente desde 1999, tem publicado nos domínios da sociologia da cultura, da história do corpo e das estruturas da sociedade portuguesa. É autora de Dons e Disciplinas do Corpo Feminino: Os discursos sobre o corpo no período do Estado Novo, obra premiada pela Comissão para a Condição Feminina em 1998. É também co­-autora de Leitores de Bibliotecas Públicas e de Comunidades de Leitura: Cinco estudos de sociologia da cultura. Mais recentemente, dirigiu a sua atenção para o estudo dos subalternos, com particular destaque para uma reconstituição da história das criadas domésticas em Portugal, agora levada à estampa, tema que tem merecido crescente lugar no debate sobre as estruturas da sociedade portuguesa.

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Profile Image for Paula Mota.
1,798 reviews610 followers
May 7, 2026
”Serão mais felizes (as criadas) com a regalia do descanso semanal? Temos sobre isso as nossas dúvidas. E porquê ? – Porque elas não sabem aproveitar essas horas de descanso semanal, e ocupam-nas de forma que se multiplicam à sua volta perigos muito graves, por um lado, e, por outro, dando-se a divertimentos muito mais esgotantes do que o trabalho feito com regularidade na casa dos Patrões.”

É curioso que de todo o vocabulário associado à vassalagem – mordomo, jardineiro, governanta, lavadeira, cozinheira – o único que se tornou realmente ofensivo foi “criada”. Afinal, quem nunca disse: “Não sou tua criada!” quando alguém abusa da sua boa vontade? Lendo “O Tempo das Criadas – A condição Servil em Portugal, 1940-1970” compreende-se perfeitamente de onde vem toda a conotação negativa de um cargo que, por vezes, roçava a escravatura, e no qual a endoutrinação católica, incutindo a obediência e a subserviência, também teve a sua quota-parte de culpa.

A Igreja é chamada a funcionar como instrumento legitimador por excelência do regime e como “instituição privilegiada de enquadramento das massas nos valores fundamentais por ele definidos.” Assim o declaram os princípios orientadores da Acção Católica Portuguesa, redigidos numa fase de consolidação: “A massa existe, a elite é necessária para cristianizá-la.”

Desde trabalharem de graça ou por uma ninharia, não terem dia de descanso ou apenas a tarde de domingo, dormirem em cantos aleatórios da casa, até serem humilhadas e receberem castigos físicos ou poderem ser violadas pelos homens da casa, não admira que a palavra “criada” seja encarada como uma ofensa e tenha, entretanto, sido substituída por sinónimos mais aceitáveis.
Tanto pelo lado do pai como do da mãe, descendo de uma linhagem de mulheres que foram criadas de servir, umas temporariamente no êxodo do campo para a cidade, outras permanentemente sempre em contexto urbano, pelo que li esta obra também por motivos pessoais, para tentar enquadrá-las neste panorama socio-económico de Portugal em ditadura e perceber até que ponto eram comuns as suas histórias de vida. E encontrei um bocadinho de cada uma delas nas 17 entrevistadas que servem de base a este estudo exaustivo, ainda que um pouco prolixo e redundante no que toca a estatísticas, origens e evolução do estatuto de serviçal.
Inês Brasão esboça o retrato de jovens ou até crianças com a 4ª. classe ou menos, provenientes de famílias numerosas e miseráveis, que iam trabalhar para centros urbanos através de familiares ou conhecidos, muitas cheias de saudades de casa, onde raramente podiam ir de visita, para serem exploradas e raramente acarinhadas, onde eram controladas física e moralmente, submetidas a um processo de reificação, onde a “boa selvagem” poderia ser demonizada a qualquer instante e fichada como prostituta se mantivesse relações sexuais pré-matrimoniais.

A retórica oficial insistia na limpidez que o campo transparecia e na robustez das suas gentes. O entrave ao êxodo feminino era concebido como medida proflitáctica, que permitiria o controlo da propagação de doenças venéreas e infecto-contagiosas no meio urbano. Em meados da década de 1950, as medidas santitárias de contenção da sífilis são acompanhadas de um conjunto de políticas sociais nas quais se sugere a “restrição do êxodo para a capital e a criação de colónias de trabalho para as “reincidentes”. (…) De acordo com o director do [Dispensário de Higiene Social], as mulheres que figuravam nos registos policiais não podiam ser consideradas “verdadeiras profissionais da prostituição”. Eram, na grande maioria, “desgraçadas criaturas, sem cultura alguma, sem educação, 60% analfabetas, emigrantes dos campos para a vida na cidade, que nem para criadas de servir têm aptidões ou condições de adaptação, incapazes de trabalhar em qualquer indústria, e que uma gravidez ou um filho que nasce lançou em condições de não poderem mais trabalhar.”

“O Tempo das Criadas” é um compêndio pormenorizado de indignidades em que se sucedem as passagens que revelam a sociedade mesquinha, retrógrada, estratificada, patriarcal e repressiva que cada vez mais alguns tentam branquear, que a autora termina com uma conclusão pertinente fazendo ponte com o presente.

Em termos de operacionalização do conceito de “trabalho servil”, podemos concluir que, sempre que se desenhar, como elemento estruturante de uma determinada relação, um regime de autoridade que dispõe da existência de um indivíduo não apenas de um ponto de vista da obediência às regras contratuais do emprego como também de obediência em face da regulação da sua vida privada, sobrepondo ambos os campos de uma forma tendencialmente contínua, estamos perante regimes de trabalho tipo servil. A servilidade doméstica não colapsou na transição de um regime dictatorial para um regime democrático. Em Portugal, como na maior parte dos países ocidentais, o emprego doméstico cresceu. Novas formas travestidas de servidão afloram o mundo global: aí se reproduzem desigualdades de género, desigualdades salariais, racismo, práticas laborais ocultadas pelos ambientes familiares sofisticados dos indivíduos que recrutam novos servos. Na sua pior expressão, o trabalho doméstico representa o uso de um indivíduo para aumentar e expor prosperidade e status familiar: os novos criados são os novos-velhos objectos de luxo da cena privada.
Profile Image for Em Memória de Fátima Linhares.
1,029 reviews360 followers
June 7, 2026
Eu, coitadinha de mim, o que é que eu sabia? Era uma garota com 12 anos, vinda da província, sabia o quê? Nada! O que é que os nossos pais nos ensinaram? A apanhar batatas, milho, mais nada. Não sabíamos mais nada. E vim para ali e a senhora entendia que eu já devia saber. Pronto, era aquela escravidão, era escravidão!

Este testemunho é de Catarina Miguel, mas podia ser das milhares de meninas/raparigas que saíram das aldeias do interior para fugir à pobreza e à miséria. Era assim no tempo das criadas.

#LivroAcidodoMes de junho, projeto do Ricardo.
Profile Image for Sónia Santos.
209 reviews35 followers
May 2, 2026
A servilidade doméstica não colapsou na transição de um regime ditatorial para um regime democrático. Em Portugal, como na maior parte dos países ocidentais, o emprego doméstico cresceu. Novas formas travestidas de servidão afloram o mundo global: aí se reproduzem desigualdades de género, desigualdades salariais, racismo, práticas laborais ocultadas pelos ambientes familiares sofisticados dos indivíduos que recrutam novos servos. Na sua pior expressão, o trabalho doméstico representa o uso de um indivíduo para aumentar e expor prosperidade e status familiar: os novos criados são os novos-velhos objectos de luxo da cena privada. Para que não se tornem serem fantasmáticos e reificados, é imperativo conferir-lhes também o direito à história.
Profile Image for Matilde.
84 reviews2 followers
May 2, 2022
Retrato muito bom sobre a condição das empregadas domésticas que, apesar da sua representação massiva nas classes mais precárias, raramente mereceram menção por parte das forças comunistas.
Foi uma ótima companhia na minha ressaca 🧘🏻‍♀️
Profile Image for Ricardo Silvestre.
229 reviews40 followers
June 30, 2026
Andava à procura de uma nova leitura para a rubrica #LivroAcidodoMes quando me cruzei com este O Tempo das Criadas , de Inês Brasão, e percebi que era a escolha certa (obrigado Paula, por mo teres dado a conhecer).

O principal motivo da minha escolha foi o facto de a obra dar protagonismo a uma classe invisível, cuja realidade foi varrida para debaixo do tapete. Este livro é um estudo profundo sobre o serviço doméstico durante o Estado Novo, contextualizando um país na cauda da Europa, totalmente atrasado em direitos laborais e femininos. A autora expõe a segregação destas mulheres, muitas vezes recrutadas ainda crianças, aos 9 ou 10 anos. Afastadas das origens e isoladas, eram paternalistamente chamadas de "parte da família", mas viviam em condições de total crueza, sem privacidade e, frequentemente, sem sequer uma cama para dormir.

Com elevado detalhe, o livro analisa as relações de poder desiguais entre patrões e criadas, o peso do catolicismo na imposição da submissão e o severo distanciamento social da época. Aborda ainda temas duros, como o preconceito de saúde associado à classe e a distorção moral em torno do abuso sexual, onde as vítimas eram injustamente culpabilizadas e tratadas como portadoras do pecado.

Por todas estas razões, e mais umas quantas, este é um livro essencial para compreender a nossa história social através do olhar e dos relatos de quem esteve sempre na sombra.

Obs.: esta leitura fez parte do desafio #LivroAcidodoMes que decorreu este mês e cuja dinamização esteve a meu cargo.
Aproveito também este review para fazer uma homenagem muito especial à Fátima Linhares.
A Fátima esteve presente em todas as leituras desta rubrica e, infelizmente, este foi o último livro que tivemos a oportunidade de ler em conjunto. Apesar da sua partida inesperada, e de nunca nos termos conhecido além das redes sociais, ela conseguiu deixar um pouco de si no meu dia a dia. A sua ausência será profundamente sentida em cada novo livro que venha a fazer parte deste projeto.
Profile Image for Marta Silva.
347 reviews120 followers
July 15, 2026
“O Almanaque de Santa Zita constitui a sua única referência literária. Nunca aprendeu a ler, mas as imagens de santos e a leitura, por outros, do seu conteúdo, era um momento que aguardava mês após mês, devolvendo-lhe a ideia de participação num colectivo maior.”

Um retrato social sobre a migração em Portugal durante o Estado Novo, onde se explora as relações laborais, a subordinação, as privações e humilhações por que passaram tantas jovens, muitas delas analfabetas e em idade menor.

Obrigado Paulinha e Ricardo, pelo incentivo a esta leitura, gostei bastante!
Profile Image for Bea.
34 reviews3 followers
October 5, 2019
não acabei de ler porque tive de o devolver à biblioteca mas se o conseguirem agarrar por aí 10/10 recomendo. é um retrato bastante detalhado e curioso não só da situação das criadas de '40 a '70 mas também daquilo que era ser uma mulher no interior do país durante a ditadura salazarista
Profile Image for Joel José .
23 reviews
September 18, 2024
A escrita da Inês Brasão é fluida, o livro interessante e fácil de ler. Um bom retrato de um grupo de pessoas marcante para o século XXI em Portugal, assim como da estrutura social e do seu envolvente. Com bastantes testemunhos
Profile Image for Helena Sardinha.
94 reviews4 followers
May 22, 2022
Melhor parte do livro são os relatos das próprias empregadas:

“Éramos pessoas muito humildes. A minha mãe teve oito filhos - todos pobres. Assim que acabei a terceira classe fui logo para Lisboa. As minhas irmãs já estavam todas a trabalhar. Com 12 anos fui para Lisboa. Já lá estavam três irmãs. Lembro-me perfeitamente. O meu pai morreu e a minha mãe disse: "Pronto, já não podes acabar a 4. classe, tens que ir trabalhar e eu fico com os teus irmãos.”

“Uma vez até me bateu na rua! (…) Passaram dois soldados e disseram assim: «Qual delas será a criada?» Eu ia com a minha roupita, toda arranjada. Ela deu-me uma bofetada. Mas ao tempo que me deu uma bofetada para demonstrar aos magalas quem era a patroa, não fiz mais nada. Agarrei e dei-lhe outra. Ela tinha uns óculos que lhe caíram e ela disse: «Apanha-me os óculos! E eu disse: «Apanhe-os a senhora que não é mais do que eu!» Depois fui para casa e disse que ia embora. (…) E uma dessas vezes foi quando me meteu a cabeça debaixo de água.”
Profile Image for Cat.
826 reviews88 followers
December 15, 2024
leitura extremamente interessante. estas e muitas mais mulheres tiveram papéis essenciais em várias casas por este país fora e pouco tempo tem sido dispensado em ouvi-las ou a registar as suas histórias. este livro é completo e bem fundamentado, mas as minhas partes preferidas foram sem dúvida os testemunhos. todos beneficiamos de mais livros assim
Profile Image for João Tiago Silva.
1 review
May 16, 2025
A Doutora Inês Brasão, a quem tive o privilégio de chamar professora, retrata o êxodo rural de jovens mulheres para o meio urbano, com o intuito de servir em contexto doméstico.

O livro tem uma escrita maravilhosa que facilita a leitura àqueles que não estão tão familiarizados com determinados conceitos afetos à sociologia.

Esta obra díspar, de leitura obrigatória, preserva e interpreta a memória coletiva destas mulheres de grande relevo para a sociedade. Aos que se interessam por dinâmicas relacionais e questões de estratificação social, recomendo seriamente a leitura.
Profile Image for ..
42 reviews
May 11, 2024
Um verdadeiro abre-olhos. Não tinha a noção do verdadeiro impacto social e económico da movimentação de meninas e raparigas do campo para a cidade. Mas mais do que isso, é importante finalmente dar voz a estas milhares de meninas, raparigas e mulheres que aguentaram o país nas sombras. É injusto terem sido condenadas ainda crianças e adolescentes a servirem os outros e a ter de arranjar manhas para viverem a sua juventude e a sua vida.

Que haja mais trabalhos destes!
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