Fernando Assis Pacheco foi uma das mais singulares personalidades da cultura portuguesa do século xx. Escritor que se destacou em vários géneros literários, jornalista que marcou uma geração, F.A.P. deixou um legado de importância inegável. Esta «edição aumentada» de A Musa Irregular - título que o próprio F.A.P. deu à única reunião que fez da sua poesia, em 1991 - reúne os livros de poemas publicados em vida do autor (de Cuidar dos Vivos, em 1963, a Desversos, em 1990), bem como o volume póstumo Respiração Assistida (2003) e ainda um conjunto de poemas inéditos, intitulado Lote de Salvados. Toda a produção poética de F.A.P. num só volume. Organização de Abel Barros Baptista Posfácio de Manuel Gusmão
FERNANDO ASSIS PACHECO nasceu em Coimbra, a 1 de Fevereiro de 1937. Licenciado em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi poeta, ficcionista, jornalista e crítico. O avô paterno foi redactor da revista Vértice, circunstância que lhe permitiu privar de perto com Joaquim Namorado e outros poetas da sua geração como Manuel Alegre e José Carlos de Vasconcelos. Publicou o primeiro livro de poesia em Coimbra, em 1963: “Cuidar dos Vivos”, poesia de intervenção política, de luta contra a guerra colonial. O seu segundo livro de poesia “Câu Kiên: Um Resumo” (título vietnamita para escapar à censura fascista), foi publicado em 1972, mas conheceria a sua versão definitiva em “Katalabanza, Kiolo e Volta”, em 1976. No mesmo ano publicou “Siquer este refúgio”, também de poesia. Em 1978 publicou o livro de novelas “Walt ou o frio e o quente” e em 1980 “Memórias do Contencioso e outros poemas” que reuniu poemas publicados entre 1972 e 1980. Em 1987, mais um livro de poesia: “Variações em Sousa”. E outro em 1991: “A Musa Irregular”, onde reuniu toda a sua produção de poeta até esta data. Estreou-se no romance com “Trabalhos e paixões de Benito Prada: galego da província de Ourense, que veio a Portugal ganhar a vida” em 1993. Morreu em Lisboa, com 58 anos, à porta da Livraria Bucholz em 1995.
* Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento às coisas regulares e irregulares do mundo. Ou também: eu envio o amor sob a forma de muitos olhos e ouvidos a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo da escuridão do mundo. Porque tudo se escreve com a tua letra. *
comprado para constatar os "aumentos": inéditos, dispersos, salvados e a "respiração assistida". e constata-se o óbvio: permanece incontornável esta escrita. mas constato que me continua desaparecida a velha edição da hiena.
"Do beijo fica um sabor, do sabor uma lembrança, um vento leve, uma espuma. Do beijo fica um sereno olhar, o amor de coisas minúsculas e humildes, um pássaro que vai e vem da nossa boca às palavras. Do beijo fica, suprema, a descoberta da morte. Um vento leve, uma espuma salgada, à flor dos lábios."
Um vento leve, uma espuma
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"A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo para um lado misterioso e frágil. Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe contorno, peso. Destrói o meu corpo. A tua nudez é uma violência suave, um campo batido pela brisa no mês de Janeiro quando sobem as flores pelo ventre da terra fecunda.
Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas com o vocabulário da tua nudez. Tenho «um pensamento despido»; maturação; altas combustões. De mão dada contigo entro por mim dentro como em outros tempos na piscina os leprosos cheios de esperança. E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete que lanço com mão tremente desastrada para rebentar e encher a minha carne de transparência."
Nova edição do volume que reúne toda a poesia de Fernando Assis Pacheco, aumentada com inéditos. Sou fã da escrita de FAP, seja a poética, seja a prosa, de ficção ou jornalística. Mas os seus poemas são verdadeiramente incontornáveis, entre muitas outras razões pelo conjunto de poemas que reflectem, e reflectem sobre, a sua experiência da guerra colonial. Mas o que verdadeiramente me prende na poesia de FAP é o modo como ela testemunha o olhar de quem vive os dias, de quem vive os outros, de quem vive o mundo.