Fugu é o modo como chamam no Japão o baiacu — peixe capaz de inflar feito um balão e possuidor de um veneno letal. Iguaria rara por aquelas bandas, tal peixe só pode ser preparado por cozinheiros experientes que saibam retirar-lhe o veneno, deixando apenas um tiquinho capaz de inebriar os sentidos sem matar. Uma perfeita mistura de sabedoria e confiança, no preparo e na degustação. Segundo Fugu, a autora, em “mar onde vivem fugus não se criam iniciantes”. Por isso mesmo, a protagonista de Duas bocas, prestes a completar cinquenta anos, apelida seu amante, também de meia idade, com o nome oriental do peixe e também é chamada assim por ele. Fugu, a personagem, descobre no amor maduro um corpo novo, dotado de sentidos complexos, com mais tesão, mais olfato, mais tato e mais paladar. Sentidos que serão explorados através de experimentos culinários e sexuais, em anotações de cama e mesa onde slow food encontra-se com slow sex e confort food com confort sex. Literalmente uma delícia de livro.
A capa, o título e a sinopse são bem provocadores e foram o que me levaram a esta leitura. Mas, infelizmente, o que me manteve amarrada até o fim foi olhar a quantidade de páginas e ver “ah, falta só isso, você leu até aqui, aguenta ir até o fim”. Sempre na esperança de que, na proximidade do fim, o livro melhorasse.
O maior problema de “Duas bocas” é a falta de história. O relacionamento entre Fugus é contada de uma maneira etérea demais, falta matéria ao leitor pra poder se envolver com a história. Falta história. Eu imagino que isso tenha sido proposital (e bem pretensioso), talvez a autora tenha pensado: já que todo mundo se apaixona e transa, qualquer um pode se identificar e preencher os vazios da história com suas próprias experiências. Pra mim, não funcionou, com certeza significo minhas experiências e amores de formas muito diferentes da autora.
Uma pena não ter gostado, a proposta de um livro com receitas, preenchido de histórias parece encantadora. Mas a execução deixou a desejar. Talvez, se essa autora fizesse um livro de receitas e poemas, o resultado seria melhor.