Quando os casais oferecem abrigo ou uma refeição a pessoas perdidas ou solitárias, não as incluem realmente. Brincam com elas. Atuam para elas. E quando já lhes chega, dizem à convidada encalhada, das mais variadas formas astuciosas, que é altura de ela se ir embora.
Este Nadar para Casa passou-me completamente ao lado. A um terço estive para desistir, mas preserverei na esperança de lhe encontrar algum significado oculto, alguma ligação mais profunda. Isso não aconteceu, infelizmente.
A premissa é interessante: usar de um elemento fraturante para obrigar à ação é uma excelente ideia na maior parte das vezes. No entanto quando esse elemento fraturante é uma mulher jovem, culta e bela rotulada como mentalmente instável - por qualquer razão a nossa noção de perigo não muda ao longo dos séculos -, tentar sustentar praticamente 200 páginas com aquilo que é um mito atraente para os homens (para mim, nem por isso), isso é que, em minha opinião, não resultou, de todo.
-Porque é que toma pastilhas?
-Oh, decidi não tomar durante uns tempos. Sabe... é um alívio bastante grande sentir-me infeliz outra vez. Não sinto nada quando tomo as pastilhas.
Pegar numa família-tipo - mãe, pai, filha -, um casal amigo a puxar para o disfuncional (aparentemente), e juntar-lhe uma intrusa que virá a ser uma espécie de MacGuffin de um romance demasiado focado em si mesmo, resulta demasiado inócuo e batido para começar. Mesmo apesar de haver aqui muito material para trabalhar, sem dúvida: os estereótipos, o preconceito face não só às patologias mentais e emocionais, mas também às estruturas tradicionais (família, amor etc), e ao mister do artista e do poeta, todos estes elementos são abordados muito à superfície. Traições, falências, abuso emocional e crescimento são temas colocados no mesmo saco e que sofrem do mesmo tratamento básico: estão aqui apenas para fazer avançar a ação sem acrescentar grande coisa ao enredo.
Eu sei o que estás a pensar. Só vale a pena viver a vida porque temos a esperança de que ela melhore e de chegarmos todos a casa em segurança.
As motivações e reflexões das personagens pareceram-me inverosímeis e motivadas apenas pela necessidade de cumprir um guião; a ideia de fazer de todas elas criaturas emocionalmente imaturas, à deriva num mundo a preto e branco, não resultou comigo. À parte algumas citações mais profundas, tudo é dito e feito como por acaso, sem gravidade.
(...)ela penetrara demasiado na infelicidade do mundo para começar tudo de novo. Se pudesse optar por desaprender tudo o que supostamente a tornara mais sábia, começaria tudo de novo. Ignorante e com esperança(...).Era o melhor que se podia ser na vida.
Não resultou sobretudo a exploração de um elemento frágil para justificar um clímax que se pretende surpreendente, mas que senti apenas como politicamente correto. Como se Levy pretendesse uma espécie de justiça divina, uma ironia ex-machina que vem justiçar os estigmatizados com a doença mental apenas porque fica bem. Ninguém, em Nadar para Casa, tem verdadeiras opiniões, andam todos, uns e outros, a vogar ao sabor da corrente e por isso, quando alguém usa de uma opinião mais forte, essa afirmação, apesar de nociva, parece demasiado peregrina na sua boca para ser credível:
Não suporto OS DEPRIMIDOS. É como um emprego, é única coisa em que trabalham no duro. Oh que bom a minha depressão está muito bem hoje. Oh que bom hoje tenho mais um sintoma misterioso e vou ter outro amanhã. OS DEPRIMIDOS estão cheios de ódio e de bilis e quando não estão a ter ataques de pánico estão a escrever poemas. O que é que eles querem que os poemas deles FAÇAM? A depressão e a coisas mais VITAL neles. Os poemas deles são ameaças, SEMPRE ameaças. Não há sensação que seja mais viva ou esteja mais ativa do que a sua dor. Não dão nada em troca a não ser a sua depressão. É mais um item de primeira necessidade. Como a eletricidade e a água e o gás e a democracia. Não poderiam sobreviver sem ela.
Não acredito na sanidade mental tal como não acredito na loucura. Vivemos todos num espectro (diversos espectros de diversas coisas) e este tipo de literatura que fomenta a ideia de que as tendências suicidas e as jovens "perturbadas" são sexy porque são perigosas (o que justifica a sua exploração emocional e sexual) não me agradou nada.
(...)procurou a palavra... «perturbada»? A palavra ficou-lhe encravada na boca e ela desejou saber outra língua para traduzir o que queria dizer, porque as únicas palavras que tinha guardadas dentro de si eram do recreio da escola da sua geração, um léxico que, sem qualquer ordem particular, começava por avariada, aluada, alucinada, prosseguia com chanfrada, desatinada, com macaquinhos no sótão e depois saltitava pelo alfabeto outra vez para acabar em anormal.