No ano em que se assinalam os 120 anos do nascimento de Mário de Sá-Carneiro (19 de Maio de 1890) a Alma Azul disponibiliza a um preço mais acessível um conto de um dos responsáveis pelo modernismo português, juntamente com Os Últimos Poemas de Mário de Sá-Carneiro (1915/1916).
Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de Maio de 1890 — Paris, 26 de Abril de 1916) foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu.
Na fase inicial da sua obra, Mário de Sá-Carneiro revela influências de várias correntes literárias, como o decadentismo, o simbolismo, ou o saudosismo, então em franco declínio; posteriormente, por influência de Pessoa, viria a aderir a correntes de vanguarda, como o interseccionismo, o paulismo ou o futurismo.
Nessas pôde exprimir com vontade a sua personalidade, sendo notórios a confusão dos sentidos, o delírio, quase a raiar a alucinação; ao mesmo tempo, revela um certo narcisismo e egolatria, ao procurar exprimir o seu inconsciente e a dispersão que sentia do seu «eu» no mundo – revelando a mais profunda incapacidade de se assumir como adulto consistente.
O narcisismo, motivado certamente pelas carências emocionais (era órfão de mãe desde a mais terna puerícia), levou-o ao sentimento da solidão, do abandono e da frustração, traduzível numa poesia onde surge o retrato de um inútil e inapto. A crise de personalidade levá-lo-ia, mais tarde, a abraçar uma poesia onde se nota o frenesi de experiências sensórias, pervertendo e subvertendo a ordem lógica das coisas, demonstrando a sua incapacidade de viver aquilo que sonhava – sonhando por isso cada vez mais com a aniquilação do eu, o que acabaria por o conduzir, em última análise, ao seu suicídio.
Embora não se afaste da metrificação tradicional (redondilhas, decassílabos, alexandrinos), torna-se singular a sua escrita pelos seus ataques à gramática, e pelos jogos de palavras. Se numa primeira fase se nota ainda esse estilo clássico, numa segunda, claramente niilista, a sua poesia fica impregnada de uma humanidade autêntica, triste e trágica.
Por fim, as cartas que trocou com Pessoa, entre 1912 e o seu suicídio, são como que um autêntico diário onde se nota paralelamente o crescimento das suas frustrações interiores.
Este livro trata de um mistério como o título indica e a última palavra o confirma. Li-o três vezes seguidas apesar das suas poucas páginas. Em minha opinião, «Mistério» é uma versão em prosa dos poemas Caranguejola, Crise Lamentável, Aqueloutro e Fim, que, provavelmente por apropriada decisão editorial, acompanham este curto conto.
Sá-Carneiro era genuinamente autobiográfico, assustadoramente autobiográfico, e natural se o compararmos com Fernando Pessoa, mais fingidor, mais artificial. O tema é o duplo e a descoberta dessa duplicidade conduz à morte, mas também a história de um encontro e de uma dúvida, «Poder-se-iam , em verdade , abater todas as barreiras entre as duas almas?...»
«Todo o meu sofrimento provém disto: sou um barco sem amarras que vai bêbado ao sabor das correntes. Se conseguisse lançar âncoras...Mas aonde... aonde?»
«Só nessa época indecisa [infância] ele fora feliz – tivera tudo. E porquê? Percebera-o nitidamente nesse instante – tinha o exemplo em sua face: É que na infância, não possuímos ainda o sentido da impossibilidade; tanto podemos cavalgar um leão como uma abelha…»
«E era-lhe ainda mais caricioso saber dalguém que o conhecia sem segredo, do que ter varado enfim o mistério dalguém.»
"Turbilhões de pensamentos por a mínima coisa suscitados lhe sibilavam no espírito sempre redemoinhante, e mesmo quando em verdade não pensava em coisa alguma, sentia entanto, nitidamente sentia, o seu cérebro a trabalhar. Apenas a sua febre lhe não chegava aos ouvidos. Martírio sem nome! Martírio sem nome!".
"Turbilhões de pensamentos por a mínima coisa suscitados lhe sibilavam no espírito sempre redemoinhante, e mesmo quando em verdade não pensava em coisa alguma, sentia entanto, nitidamente sentia, o seu cérebro a trabalhar. Apenas a sua febre lhe não chegava aos ouvidos. Martírio sem nome! Martírio sem nome!".
Um conto que termina em mistério, num final aberto que abre várias possibilidades ao leitor. Seráque a Esfinge Gorda ansiava por morrer como o artista do seu conto? O volume inclui também a imperdível Caranguejola - "(...) Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o/mais acabou."; Crise Lamentável, Aqueloutro ("o Esfinge Gorda") e Fim ("Quando eu morrer batam em latas...).