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Mistério

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No ano em que se assinalam os 120 anos do nascimento de Mário de Sá-Carneiro (19 de Maio de 1890) a Alma Azul disponibiliza a um preço mais acessível um conto de um dos responsáveis pelo modernismo português, juntamente com Os Últimos Poemas de Mário de Sá-Carneiro (1915/1916).

45 pages, Paperback

First published May 1, 2005

19 people want to read

About the author

Mário de Sá-Carneiro

94 books177 followers
Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de Maio de 1890 — Paris, 26 de Abril de 1916) foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu.

Na fase inicial da sua obra, Mário de Sá-Carneiro revela influências de várias correntes literárias, como o decadentismo, o simbolismo, ou o saudosismo, então em franco declínio; posteriormente, por influência de Pessoa, viria a aderir a correntes de vanguarda, como o interseccionismo, o paulismo ou o futurismo.

Nessas pôde exprimir com vontade a sua personalidade, sendo notórios a confusão dos sentidos, o delírio, quase a raiar a alucinação; ao mesmo tempo, revela um certo narcisismo e egolatria, ao procurar exprimir o seu inconsciente e a dispersão que sentia do seu «eu» no mundo – revelando a mais profunda incapacidade de se assumir como adulto consistente.

O narcisismo, motivado certamente pelas carências emocionais (era órfão de mãe desde a mais terna puerícia), levou-o ao sentimento da solidão, do abandono e da frustração, traduzível numa poesia onde surge o retrato de um inútil e inapto. A crise de personalidade levá-lo-ia, mais tarde, a abraçar uma poesia onde se nota o frenesi de experiências sensórias, pervertendo e subvertendo a ordem lógica das coisas, demonstrando a sua incapacidade de viver aquilo que sonhava – sonhando por isso cada vez mais com a aniquilação do eu, o que acabaria por o conduzir, em última análise, ao seu suicídio.

Embora não se afaste da metrificação tradicional (redondilhas, decassílabos, alexandrinos), torna-se singular a sua escrita pelos seus ataques à gramática, e pelos jogos de palavras. Se numa primeira fase se nota ainda esse estilo clássico, numa segunda, claramente niilista, a sua poesia fica impregnada de uma humanidade autêntica, triste e trágica.

Por fim, as cartas que trocou com Pessoa, entre 1912 e o seu suicídio, são como que um autêntico diário onde se nota paralelamente o crescimento das suas frustrações interiores.

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Displaying 1 - 5 of 5 reviews
Profile Image for Celeste   Corrêa .
381 reviews329 followers
June 19, 2021
Este livro trata de um mistério como o título indica e a última palavra o confirma. Li-o três vezes seguidas apesar das suas poucas páginas.
Em minha opinião, «Mistério» é uma versão em prosa dos poemas Caranguejola, Crise Lamentável, Aqueloutro e Fim, que, provavelmente por apropriada decisão editorial, acompanham este curto conto.

Sá-Carneiro era genuinamente autobiográfico, assustadoramente autobiográfico, e natural se o compararmos com Fernando Pessoa, mais fingidor, mais artificial.
O tema é o duplo e a descoberta dessa duplicidade conduz à morte, mas também a história de um encontro e de uma dúvida, «Poder-se-iam , em verdade , abater todas as barreiras entre as duas almas?...»

«Todo o meu sofrimento provém disto: sou um barco sem amarras que vai bêbado ao sabor das correntes. Se conseguisse lançar âncoras...Mas aonde... aonde?»

«Só nessa época indecisa [infância] ele fora feliz – tivera tudo. E porquê? Percebera-o nitidamente nesse instante – tinha o exemplo em sua face: É que na infância, não possuímos ainda o sentido da impossibilidade; tanto podemos cavalgar um leão como uma abelha…»

«E era-lhe ainda mais caricioso saber dalguém que o conhecia sem segredo, do que ter varado enfim o mistério dalguém.»

«Triunfo? Quebranto?
- Mistério, perturbador mistério…»

Sá-Carneiro tinha um conflito entre ele e ele, que tão bem traduziu no oxímoro:

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


Fascina-me. Tivera eu tempo e disponibilidade intelectual para me dedicar a estudá-lo.
Profile Image for Maria Nolasco.
17 reviews1 follower
May 17, 2022
"Turbilhões de pensamentos por a mínima coisa suscitados lhe sibilavam no espírito sempre redemoinhante, e mesmo quando em verdade não pensava em coisa alguma, sentia entanto, nitidamente sentia, o seu cérebro a trabalhar. Apenas a sua febre lhe não chegava aos ouvidos. Martírio sem nome! Martírio sem nome!".
Profile Image for Rui Vivas.
Author 1 book7 followers
August 10, 2017
"Turbilhões de pensamentos por a mínima coisa suscitados lhe sibilavam no espírito sempre redemoinhante, e mesmo quando em verdade não pensava em coisa alguma, sentia entanto, nitidamente sentia, o seu cérebro a trabalhar. Apenas a sua febre lhe não chegava aos ouvidos. Martírio sem nome! Martírio sem nome!".
856 reviews
March 29, 2019
Um conto que termina em mistério, num final aberto que abre várias possibilidades ao leitor. Seráque a Esfinge Gorda ansiava por morrer como o artista do seu conto?
O volume inclui também a imperdível Caranguejola - "(...) Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o/mais acabou."; Crise Lamentável, Aqueloutro ("o Esfinge Gorda") e Fim ("Quando eu morrer batam em latas...).
Profile Image for Daniel.
179 reviews
July 30, 2025
Acorrentado à sua própria narrativa... O que Raul Brandão descrevera, Sá-Carneiro vivera
Displaying 1 - 5 of 5 reviews

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