De John Steinbeck,só tinha lido As Vinhas da Ira. Foi, portanto, com grande surpresa, que descobri neste livro um género completamente diferente, satírico e muito divertido. Pepino Arnulf Héristal, um pacato astrónomo amador, que por acaso também é descendente de Carlos Magno, vê-se, numa dessas voltas imprevisíveis que o destino por vezes dá, coroado rei da França, após uma prolongada crise política que leva todos os partidos a votarem unanimemente pela restauração da monarquia.
Fica um cheirinho, um diálogo entre Pepino e o seu tio, solteirão comerciante / falsificador de antiguidades, a quem o sobrinho recorre com frequência em busca de conselho, ou simplesmente para desabafar:
“- É horrível – disse o Rei, enquanto despejava o pequeno copo. - Sirva-me outro, sim? - Lambeu os lábios. - Tinha-me esquecido de que o Rei tem hóspedes, hóspedes perpétuos. Duzentos aristocratas vivem comigo em Versalhes.
- Bem, tu tens lugar para eles.
- Lugar, sim, mas mais nada. Dormem no chão, nos vestíbulos. Quebraram a mobília para deitar no fogão e conservarem-se quentes.
- Em Agosto?
- Versalhes seria frio mesmo no inferno (…)
- Estou rodeado pelo que, se eles não fossem tão bem nascidos, se chamaria vagabundos, mas soberbos vagabundos. Passeiam-se majestosamente pelos jardins. Levam aos lábios grandes pedaços de renda. Falam com palavras extorquidas directamente a Corneille. E não são honestos, tio Carlos. Roubam.
- Que queres dizer com isso de “roubam”?
- Meu tio, não há um galinheiro nem uma coelheira, dentro de um raio de dez milhas, que esteja a salvo deles. Quando os lavradores se queixam, os meus hóspedes sorriem e fazem pequenos acenos com os lenços de renda que roubaram no Printemps. Também já tive queixas acerca disso. Todos os armazéns de Paris têm agora uma Secção de Nobreza para proteger os seus balcões. Tenho receio, tio Carlos; dizem-me que os camponeses já estão a afiar as foices.
- (…) Compreendes, certamente, que o que para a gente comum é simples roubo, para a Nobreza é o seu direito ancestral.(...)”
Muito bom!