Poucas pessoas saberão que, entre 1911 e 1933, Lisboa foi palco de um movimento negro que combateu o racismo, exigiu direitos para as populações nos territórios colonizados e criticou sistematicamente, embora por vezes de forma ambivalente, o colonialismo, chegando mesmo a dialogar com formas de internacionalismo negro, como o pan-africanismo. Este livro, que resulta de um longo e aprofundado trabalho colectivo de pesquisa, percorre a vida desta geração, dos seus inúmeros jornais, organizações e activistas, até ao ponto em que a ascensão da ditadura, a perseguição política dos seus mais destacados militantes e as contradições internas selaram o seu destino. Os autores problematizam ainda o modo como raça, género e classe atravessaram o movimento e as relações políticas que estabeleceu com a diáspora negra no mundo e com a «Geração Cabral». Tribuna Negra levanta o véu sobre uma história silenciada, interpelando as gerações do presente e do futuro sobre a História Negra em Portugal.
(PT) Entre 1911 e 1933, uma pequena elite negra agitou as coisas em Lisboa, a capital do Império Português. Quiserem combater o racismo, apoiar o feminismo e apelar aos governos para que reformassem as leis para permitir a educação e emancipação negra, em nome do desenvolvimento das colonias e a criação de elites em África, para o desenvolvimento desses lugares. Seguiam as ideias de Eugene W. DuBois e Macus Garvey, mas divergiam nos rumos a seguir, desde os moderados, aos radicais.
O livro é um fascinante mergulho de um tempo conturbado no século XX português, e muito pouco conhecido - praticamente esquecido até aos dias de hoje - entre a população negra, achando que a história da emancipação negra aconteceu na geração de Amílcar Cabral e Agostinho Neto, que iniciaram os movimentos de libertação, nos anos 60. Bem pelo contrário: num período entre a abolição da escravatura e essa geração, existiram pessoas, escreveram-se livros, publicaram-se jornais, sobre a condição negra, as revindicações da Árica Portuguesa e lutaram entre si para sabee qual seria o melhor rumo.
A história do movimento negro, em Lisboa, passou-me despercebida. Por isso, quando soube do lançamento deste livro, quis muito lê-lo e compreender as suas origens e os procedimentos desenvolvidos entre 1911 e 1933.
Nestas páginas, encontramos um trabalho de pesquisa fantástico, que coloca em evidência não só organizações, jornais, perseguições e a ascensão da ditadura, mas também as próprias «contradições internas», que condicionaram a expressão de um trabalho coletivo. Ainda assim, é notória a narrativa comum entre gerações que procuraram combater o racismo e exigir «direitos para as populações nos territórios colonizados»
Tribuna Negra é, também, a voz de como a raça, o género e a classe foram (e continuam a ser) fonte de uma dualidade de critérios infundada