Dentro da noite, editado em 1911, é o sétimo livro publicado por João do Rio. É a maior coleção de taras e esquisitices até então publicada na literatura brasileira. Oito histórias tratam de diversas formas da deformação sensorial (hiperestesia): sonoras, olfativas, sadomasoquistas (incluindo abuso de drogas, sexo e cleptomania). Cinco abordam diretamente a busca da satisfação sexual da elite na classe baixa, sendo que três ameaçam com o perigo das doenças contagiosas oriundo de tal mistura. Um clima opressivo de pavor cerca o sensualismo, expresso nas descrições de cores e cheiros, de personagens tão próprios do estilo Decadentista. Poucas obras se enquadram tão bem nos conceitos expressos por Susan Sontag no ensaio sobre o camp, onde analisa o art-nouveau como uma forma de expressão homossexual. Oscar Wilde, num trecho do De profundis, diz que o paradoxo está para a gramática assim como o homossexualismo para o sexo. Creio ser esta uma boa chave para decifrar o estilo vertiginoso, paradoxal, bizarro e por vezes quase repulsivo do nosso autor. (João Carlos Rodrigues)
SOBRE O AUTOR
João Paulo Emilio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, pseudônimo João do Rio, nasceu no Rio de Janeiro em 5 de agosto de 1881 e morreu em 23 de junho de 1921. Foi cronista, contista, jornalista, repórter. Em 1918, figura no jornal Cidade do Rio, com José de Patrocínio e um grupo brilhante. Surge então o pseudônimo de João do Rio com o qual se consagraria literariamente. Notabilizou-se como o maior jornalista de seu tempo. Como homem de letras João do Rio deixou obras de valor, sobretudo, como cronista. Cultivou também o conto, o teatro e o romance. Como teatrólogo, teve grande êxito com a peça A bela madame Vargas. (Texto adaptado de João do Rio - uma biografia, de João Carlos Rodrigues, Rio de Janeiro, Topbooks, 1996.)
O personagem principal de 'Dentro da noite', de João do Rio e ilustrações de Andrés Sandoval, procura satisfazer uma estranha obsessão. E assim ele conta ao amigo Justino, ao recordar o que aconteceu entre ele e a ex-noiva Clotilde, primeira e indefesa vítima dessa obsessão. Eu concluí que se trata de uma história de terror, e, aliás, fiquei bem surpresa diante do que eu achava que sabia do estilo do autor, que eu conheci como cronista da cidade do Rio de Janeiro no século 19. Talvez as ilustrações e a própria apresentação do livro devessem ter me indicado o caráter sombrio do texto, mas também foi exatamente isso que me atraiu. Terror não é um gênero de leitura que eu aprecie. A habilidade do autor, sim, mas não me encantou. Minhas três estrelas vão mais para o ilustrador, que achei realmente brilhante.