“De Nada” (excelente título que nos remete, com ironia e corrosão, para os tratados filosóficos em voga nos séculos XVII e XVIII) podia ser apenas um dos melhores livros de Alberto Pimenta publicados neste século. O que já não seria pouco. Mas a proeza é de outra ordem, alegoricamente sugerida no texto final do livro (“o trabalho que dá pôr em ordem um caos”) ou na nota colocada logo a seguir ao índice: “a escrita é contínua (sem interrupções sonoras entre as faixas)”. O importante não é tanto o facto óbvio de estarmos perante um audiolivro, admiravelmente lido e gravado, mas antes o continuum que este ciclo de poemas reclama ser. Não se trata, porém, de um conjunto harmonioso, elegante ou unívoco.
Alberto Pimenta (16/12/1937, Porto, Portugal). Poeta, narrador, ensaísta, performer e professor universitário. Licenciou-se em Filologia Germânica na Universidade de Coimbra e, durante alguns anos (1960-1977), exerceu funções de leitor de Português e de Literatura Portuguesa em Heidelberg, na Alemanha. Regressando a Portugal, desenvolveu uma intensa actividade no domínio da criação literária relacionada com os movimentos experimentalistas. Os seus textos, por vezes publicados em livros com uma configuração gráfica original, assumem um sentido polémico, que ocasionalmente os próprios títulos podem evidenciar, e ao mesmo tempo de vanguarda. É autor de O Silêncio dos Poetas (1978), um importante estudo sobre o sentido da criação literária ligada aos movimentos de vanguarda, a qual se caracteriza pelo seu "desvio da norma"; o desenvolvimento dos seus pontos de vista leva-o a estabelecer uma bem fundamentada e sugestiva "fenomenologia da modernidade". Realizou o seu primeiro happening em 1977 no Jardim Zoológico de Lisboa (Homo Sapiens) e a mais recente performance (Uma Tarefa para o Ano Vindouro), dividida em duas partes (31/12/1999 e 01/01/2000), também em Lisboa, na Galeria Ler Devagar. Traduziu, entre outros, Thomas Bernhard (A Força do Hábito, em colaboração com João Barrento, 1991) e Botho Strauss (O Parque). Colaborou com Miguel Vale de Almeida e Rui Simões em Pornex: Textos Teóricos e Documentais de Pornografia Experimental Portuguesa (coord. de Leonor Areal e Rui Zink), 1984. É actualmente professor auxiliar convidado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
daí a vossa melancolia de classe e vosso medo de não ganhar maior que a vossa tristeza de perder a nós outros o tempo passa-nos por cima a vocês parece que não passa fica em cima como o de Proust o que costuma acontecer nessa posição é sabido e é a vossa conquista se restassem deste mundo só os livros de poesia os arqueólogos mais tarde pensariam que neste tempo não aconteceu nada a não ser afiar os cabos das facas as vossas leituras são a ver o mar mas a vossa poesia olha o mundo como um ecrã de televisão com um grande vazio de árvores os pássaros quando aparecem pousam no chão com Schubert no ouvido uma elegia ao pássaro em cima do rochedo podia vir a calhar com os ecos uns dos outros era bom que o pássaro voasse o problema é esse mesmo ele não levanta voo quando passar este tempo de sombra total do corpo e do espírito vocês partirão sem haver gente no cais a despedir-se nem terão já a quem acenar com o vosso lenço de papel manchado de tinta de choco o que nos divide é um véu espesso não não podemos ser amigos
Este é um dos tais livros, sobre o qual não sei o que dizer.
Identifiquei-me com algumas ideias de algumas poesias, mas a escrita é tão dele, do poeta, que se torna difícil de penetrar a 100%. Fazem-se referências a várias personalidades nacionais e internacionais e até bíblicas, com o intuito de dar corpo a uma voz intervencionista, revolucionária, irónica... que se cola ao atual momento de crise por que passamos, ou não se tratasse de Alberto Pimenta.
O livro vem acompanhado de dois CDs. Vou ouvi-los para tentar "mergulhar um pouco mais na sua onda".