#WIT Month
Quando os filhos são adolescentes, é importante ter um cão em casa para que alguém fique feliz quando entramos.
A argumentista e realizadora Nora Ephron publicou “Não gosto do meu pescoço” em 2006, quando tinha 65 anos, seis anos antes de morrer, um livro em que a sua franqueza sobre a idade e os seus efeitos no corpo e na personalidade surte um efeito cómico muito eficaz. Ephron era famosa pelo seu humor, sendo sobejamente reconhecida pelos argumentos de comédias românticas como o mítico “When Harry Met Sally”, com Meg Ryan e Billy Crystal, e também “Sleepless in Seattle” e “You Got Mail”, em que só os seus diálogos argutos conseguiram fazer brilhar, ainda que palidamente, a pessoa mais aborrecida do mundo, e quiçá arredores: Tom Hanks.
Em pessoa, não faço confidências sobre estes assuntos; em pessoa, sou alegre e simpaticamente optimista, mas, para ser sincera, é triste ter mais de 60 anos. As sombras estão por todo o lado – os amigos morrem ou lutam contra as doenças. Um miasma de melancolia paira sobre a nossa cabeça, obrigando-nos a encarar o facto de que a nossa vida, por muito feliz e bem-sucedida que tenha sido, está cheia de desilusões e erros, pequenos e grandes. (…) A verdade é que je regrette beaucoup.
A questão do pescoço flácido a que o título se refere pouco mais é do que um pretexto desta mulher, que afirma ser a única estagiária a quem o Presidente Kennedy nunca se atirou, para proceder a desabafos tipicamente femininos, que podem incluir a escolha de roupas…
O preto simplifica muito a vida. O preto combina com tudo, especialmente com o preto.
…e malas…
As malas de noite, por motivos que só um marxista conseguirá descortinar, custam ainda mais do que as normais.
…ou até mesmo a queixas que creio ser universais, como ter de usar óculos para poder continuar a alimentar o vício da leitura.
A leitura torna-me mais esperta; dá-me matéria para poder conversar depois. A leitura é (…) escape e o contrário de escape; é uma maneira de descer à realidade ao cabo de um dia a inventar coisas e de entrar em contacto com a imaginação de outra pessoa ao fim de um dia demasiado real. A leitura é alimento. Ler é uma bênção, mas a minha capacidade de pegar numa coisa e lê-la – e que toda a minha vida se manteve intacta até há pouco – depende agora por completo do paradeiro dos óculos.
Acredito piamente que a capacidade de nos rirmos de nós mesmas/mesmos é um dos maiores sinais de inteligência emocional que podemos demonstrar, pelo que é fácil identificarmo-nos com as pequenas futilidades que não matam mas moem e também anteciparmos parte do nosso futuro.
Oh, como lamento não ter usado biquíni o ano inteiro quando tinha 26 anos. Se alguma mulher jovem ler este texto, vá já a correr vestir o biquíni e não o dispa até ter 34.
Mas “Não Gosto do Meu Pescoço” é também um livro de memórias, em que a autora discorre sobre as casas onde viveu, as lojas que deixaram de existir e lhe deixaram saudades em Nova Iorque, os seus casamentos e divórcios, bem como o seu percurso profissional de jornalista e colunista até chegar a argumentista de cinema. É preciso que se diga que Nora Ephron era uma típica nova-iorquina branca de classe alta, cuja maior tragédia é viver no Upper East Side e não no Upper West Side, por isso, são de esperar vários “white people problems” que, se estivermos dispostos a aceitar como aquilo que são, garantem algumas risadas. Mas, enfim, eu também me rio de tudo… o que, se pensar bem, faz rugas.
Há pescoços escanzelados e gordos, pescoços moles, pescoços estilo papel 'crépon', pescoços estriados, pescoços enrugados, pescoços fibrosos, pescoços descaídos, pescoços flácidos, pescoços às manchas. (…)Sem chegar à cirurgia, não há nada que possamos fazer em relação ao pescoço. É um inimigo silencioso. Os nossos rostos são uma mentira e o pescoço é a verdade.