#outubrohispanoamericano
Os contos de “Dias da Noite” são viciantes e, ao invés de ler um ou dois de cada vez, como costumo fazer com a ficção curta, tive de ler vários sempre que pegava neste livro. Silvina Ocampo é mais uma autora bafejada pelos ares criativos da Argentina e tendo sido amiga de Alexandra Pizarnik, tendo sido casada com Bioy Casares e tendo convivido com Cortázar e Borges, acredito que tenha sido inspirada por todos, mas a verdade é que o seu estilo é muito próprio: verdadeiramente desconcertante, bastante fantasioso, um pouco absurdo, ligeiramente lúgubre, com uma pontinha de sobrenatural e pejado de personagens excêntricas.
Como se torna evidente pelos títulos, são contos centrados sobretudo em pessoas, pessoas peculiares, como videntes e antropófagos, em breves estudos psicológicos e incisivas descrições físicas. Alguns dos contos são demasiado breves e inconclusivos, fazendo-os parecer apenas o início de narrativas maiores, mas a maioria está extremamente bem desenvolvida e explora situações inusitadas e até perturbadoras.
Deles destaco “Amada no Amado”...
Durante algum tempo, resolveram dormir de mãos dadas, na esperança de que os sonhos dele passassem para dentro dela através das mãos. (...)
- Há pessoas que não sonham – dizia ele. – Não há nada a fazer.
- Seria capaz de tomar mescalina, de fumar ópio. Qualquer coisa faria se com isso sonhasse.
...”As Escravas das Criadas”...
Hermínia sentada junto à janela, via todas estas coisas. Não gostava, não gostava nada que elas se tivessem apoderado daquela casa, que se tivessem apoderado da vida da patroa, que tantas mulheres frívolas andassem pelos corredores da casa, se sentassem na sala, mexessem nos livros, nas jarras de flores, nos animais.
...”Coral Fernandez”...
Melhorei a olhos vistos, mas quando pegava na pena para escrever à minha namorada, as mãos enchiam-se-me de eczema. Curava-me, adoecia, assim sucessivamente. Começavam-me a arder os olhos mal recebia as cartas de Coral.
...”Anamnesis”
Herdou a beleza bem gostaria de saber de quem. Ela diz que herdou de um prato de sopa onde no fundo da sopa de tapioca reluzia sempre Diana, a Caçadora. Das consecutivas manhãs de Primavera, a mentira. De um gato, a entrega aparente de si a qualquer pessoa ou a ninguém. (...) Herdou o vaivém da cama de rede e do baloiço da praça onde gravou na madeira do banco as suas iniciais.
...e “Keif”
- Acredita na transmigração das almas? – perguntei-lhe sorrindo.
- Naturalmente – respondeu.
- E como o vais fazer? – disse-lhe tratando-a pela primeira vez por tu. – É tão difícil mudar de vida como de corpo.
- Vou-me suicidar.
- Vais-te suicidar?
- Não, não é nada trágico. Vou-me suicidar de uma forma agradável – respondeu.