Ao mesmo tempo íntimo e abrangente, subjetivo e analítico, esse livro me tocou muito e, a cada descoberta revelada aos poucos pela narrativa, um novo sentimento visceral emergia.
O livro é uma investigação dos ciclos de violência que assombram a humanidade e das estruturas sociais que os permitem, mas o é de um jeito emocionante, gradual e consciente. A autora demonstra um entendimento louvável de escopo narrativo quando começa numa revelação poética da cena do crime e vai se distanciando a cada capítulo: pais, vizinhos, profissionais envolvidos... mudando o fluxo narrativo de acordo com o contexto e o estado mental de cada enfoque e chegando até assuntos muito mais abrangentes como a história de religiões e contextualizações políticas. Essa "inconstância" pode até gerar algum estranhamento, principalmente quando a mudança de estilo é mais brusca, mas depois de aceitar esse movimento da narrativa, fica muito claro que cada parte é um argumento de uma discussão maior, cujo simbólico ponto final é o ouroboros que vem antes do epílogo.
A autora também revela camadas de violência, misturando vítimas e algozes, e, onde outras pessoas colocariam uma violência como justificativa de outra, diminuindo uma ou ambas, Micheliny as apresenta com um lirismo mais investigativo, argumentativo. Elas se acumulam e se fortalecem narrativamente em prol do todo da obra.
Avassaladora de um jeito bonito e sutil, essa leitura certamente vai ficar na minha cabeça por um bom tempo.