O modernismo brasileiro muito deve à atuação francamente anticonformista de Paulo Prado. Herdeiro de uma das famílias mais ilustres de São Paulo, ainda moço completou sua formação intelectual em Paris. Bonito, elegante, rico, esportista e culto, o jovem Prado impressionou Eça de Queirós: “Menino, tu és uma perfeição humana!”, exclamou o escritor português. Nos anos 1920, para espantar o tédio da São Paulo provinciana, o então dirigente de um dos maiores grupos privados do país reunia em torno de uma mesa farta artistas que se projetavam, como Villa-Lobos, Di Cavalcanti e Brecheret, grupo esse que se destacaria na Semana de 1922, organizada graças ao estímulo desse discreto mecenas. Bibliófilo apaixonado pelo período colonial, o já cinquentão Paulo Prado iniciou seus estudos do passado brasileiro sob a orientação do grande historiador Capistrano de Abreu, com quem recolheu documentos raros, e publicou e republicou relatos dos primeiros cronistas. Depois de lançar a coletânea de ensaios Paulística (1925) - reeditado pela Companhia das Letras em 2004 -, Prado arriscou uma empresa de maior envergadura: um ensaio interpretativo que fustigava o entusiasmo dos ufanistas e expunha as mazelas nacionais, acumuladas ao longo de quatrocentos anos de exploração, conformismo e desmandos. Assim surgia em 1928 o Retrato do Brasil. Numa época e num lugar em que os autores custeavam a edição de seus livros, que raramente tinham esgotadas suas modestas primeiras tiragens, Paulo Prado surpreendeu-se com o enorme sucesso de seu ensaio, que teve três impressões consecutivas. Esquecido por mais de vinte anos, o livro foi reeditado em 1997, sob a coordenação de Carlos Augusto Calil. Também às vésperas do século XXI, o pequeno ensaio provou guardar seu potencial de motivar polêmicas, tendo gerado diversos artigos na imprensa. A presente edição - baseada na de 1997, que teve o texto minuciosamente revisto pelo organizador - foi complementada com resenhas que o livro recebeu nas últimas décadas. Foi também ampliada a coleção de cartas trocadas entre Paulo Prado e seus principais interlocutores, e incluída a seção “Outros retratos do Brasil”, que reúne textos dispersos do autor de Paulística. O apelo veemente à modernização do Brasil e a denúncia dos males da política ainda hão de reverberar como questões candentes (e irresolutas) ao leitor de hoje. (Em Portuguese do Brasil)
O livro desenha um retrato pessimista do Brasil em uma linguagem límpida. Para Paulo Prado, o país está fadado à melancolia por causa da luxúria e da cobiça, agravada, a partir do século XIX, pelo romantismo que contaminou a reduzida elite intelectual e cultural brasileira. A obra foi recebida com críticas à época, de Tristão de Athayde a Oswald de Andrade, mas parece ter tocado em um nervo exposto do sentimento nacional no fim da década de 1920. O livro é datado, muitas vezes preconceituoso e ligeiro em suas opiniões, porém mesmo assim tem intuições luminosas sobre a formação a brasilidade. Em que pesem os defeitos, a leitura do ensaio recompensa por oferecer, com um estilo luminoso e preciso, elementos para pensar a brasilidade.
"A melancolia dos abusos venéreos e a melancolia dos que vivem na ideia fixa do enriquecimento -- no absorto sem finalidade dessas paixões insaciáveis -- são vincos fundos na nossa psyché racial, paixões que não conhecem exceções no limitado viver intintivo do homem, mas aqui se desenvolveram de uma origem patogênica provocada sem dúvida pela ausência de sentimentos afetivos de ordem superior."
Paulo Prado lançou a tese, em 1928, que a formação do brasileiro se dava a junção de dois fatores principais. O primeiro é a luxúria, que encontra sua vertente tanto no índio, no europeu e no africano; a colonização foi marcada por uma ambiente extremamente liberal em termos de sexualidade. O segundo fator seria a cobiça, que encontrou seu símbolo maior na corrida pelo outro, na capacidade de tudo abandonar pela esperança, mesmo que ténue, em encontrar o metal. Essas duas características tornaram o brasileiro um povo triste, tanto pelo desperdício de suas energias na sexualidade quanto pela frustração de não conseguir o ouro desejado. Esse homem triste se tornou pronto para receber as influências do romantismo europeu, gerando uma revolta constante e uma rejeição de toda tradição e sabedoria. O Brasil é resultado dessa equação e por isso mesmo condenado a um quadro quase estático de país que poderia ter sido. O mais interessante no ensaio de Prado é o pós-escrito, quando de forma um tanto caótica, por pinceladas, descreve o quadro brasileiro da década de 20, muito semelhante ao que temos hoje. Se a tese de Prado for verdadeira, fica patente que nunca nos livramos dessa herança e temos até hoje esta aliança entre luxúria e cobiça, que se traduz no sexo e poder. Basta ver como escândalos sexuais e políticos andam juntos.
É uma leitura muito interessante a se fazer, recomendo sobretudo aos da área de sociologia e de história do Brasil. O autor faz uma interpretação riquíssima sobre a colonização de nosso país e a herança que este processo nos legou por meio de uma sociologia histórica. Embora a análise nos traga um conhecimento bastante pertinente para os que se propõem a afiar um pensamento mais crítico, a leitura deve ser feita cautelosa em decorrência do uso de termos obsoletos e uma abordagem metodológica inadequada à ciência contemporânea. Não obstante suas limitações, é interessante a leitura desta obra como expressão intelectual do Brasil dos anos 20, cuja identidade nacional era frágil e longe de se associar ao nacionalismo tal qual a compreendemos hoje. A meu ver, o autor traz um descontentamento sobre sua interpretação, que é um tanto quanto pessimista no tocante a abordagem de sua obra. Quando se propõe a analisar a “Luxúria”, “Cobiça”, “Tristeza” e “Romantismo”, esta perspectiva fica mais evidenciada. Ainda assim, a escrita é rica e nos faz examinar o estudo do autor com merecida atenção.