Publicado originalmente em 1944, primeiro livro em prosa do poeta mineiro, foi incluído na edição da Obra completa e nunca mais ganhou a forma de volume independente. A edição da Cosac Naify restaura volume independente que reúne textos escritos entre os anos 1920 e 1940, acompanhado de textos críticos de Antonio Candido, Sérgio Milliet e Lauro Escorel. Neste livro, o escritor da grande poesia de A rosa do povo e Claro enigma faz prosa da melhor qualidade e de diferentes maneiras. O romancista Cyro dos Anjos, amigo de Drummond, comentou à época do lançamento: “não acredito que se encontrem páginas mais belas na língua portuguesa”. Em Confissões de Minas Drummond se confessa por intermédio da poesia e do modo de ser de outros escritores, e também ao falar de suas origens e da paisagem humana com a qual se solidariza no anonimato da metrópole. A prosa deste livro se alimenta do “sentimento do mundo”, ou seja, das grandes correntes históricas de sua época, marcada pela transformação do Brasil rural em urbano-industrial, pela crise de 1929, pela ascensão de nazismo e comunismo, culminando na Segunda Guerra Mundial. Um Drummond menos conhecido mas não menos fundamental.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.
Quase às vésperas de meu aniversário de oito anos, assistindo ao telejornal com a família, o apresentador em vez do tradicional ‘boa noite’ declamou com sua voz grave e característica o poema “E agora, José?”. Morria o poeta Carlos Drummond de Andrade, nascia — ou crescia, talvez — uma admiração à poesia.
Confissões de Minas, porém, não é um livro de poesia. Trata-se do primeiro livro de prosa do autor, uma coletânea de textos escritos a partir de 1932 até a sua publicação em 1944 dos mais variados gêneros: crônicas, ensaios críticos, perfis, minicontos, e notas sobre leituras, poesia, arte e acontecimentos da época.
A edição da finada Cosac Naify ainda conta com uma fortuna crítica e um posfácio — vários artigos publicados quando do lançamento do livro e dois ensaios recentes. Há uma edição mais nova da Companhia das Letras que imagino que tenha o mesmo conteúdo.
No excelente artigo do crítico literário Antonio Candido, este observa que no Brasil os poetas escrevem melhor em prosa do que os romancistas — quando estes saem do campo da ficção. Segundo ele, “os poetas têm entre nós maior capacidade de organizar o seu pensamento e disciplinar sua língua” e “manejam a prosa com uma elegância e uma beleza iguais às de seus versos”. Claro que é uma baita generalização e não saberia dizer se ainda valeria para hoje, mas com certeza reflete, pelo menos, a experiência de leitura de escritores como Drummond e Bandeira.
Drummond revela-se, transborda-se em qualquer texto, qualquer tema. Nas notas de leitura e nos artigos de crítica literária mostra-nos sua face de leitor, sua visão da literatura. Nas entrelinhas conseguimos perceber todas as características do poeta: a solidão, o estranhamento perante o mundo, uma esperança difusa e melancólica em um mundo um pouco mais humano.
Um amontoado de retalhos, aparentemente sobras não publicadas (ou já publicadas), mas que conseguem formar o pensamento de Drummond sobre várias coisas da vida, inclusive sua poesia, baseada na filosofia da cidade pequena (aonde toca na sua infância) e na solidão da modernidade. É extremamente preciosa e prazerosa essa visão poética sobre todas as coisas. Como aponta Candido, em uma das fortunas críticas do livro, alguns trechos podem ser remontados no formato de poesia, aspecto esse que se impregna por todos os textos dessa colcha de retalhos poéticos.
O autor inegavelmente escreve bem. Entretanto, o tom de muitos relatos de quem já descansou: poetas, políticos, personalidades... cria um tom melancólico e depressivo.
Ademais, a maior parte refere-se ao interior de Minas. Um tanto quanto centrado lá.
Mergulhar na escrita de Drummond é mergulhar em um universo definitivamente mágico, não porque há bruxas ou fadas, mas porque seu uso da palavra é absolutamente magistral. Maravilhoso!