Alternando realidade e ficção, o livro transporta-nos até aos agitados dias do pós-25 de Abril de 1974. Os acontecimentos do país repercutem-se no quotidiano do Cais do Sodré. O rebuliço generalizado, tópico de conversa nas tascas, agudiza as tensões latentes entre os intervenientes do novo jornal "Revista de Portugal". A fogosidade de uma jornalista estagiária e as manigâncias de um ex-PIDE foragido incendeiam ainda mais o prédio do Ramalhão, onde funciona a Tipografia Gazela Atlântica, testando os limites de amizades profundas e paixões secretas.
Será neste Portugal à procura de novo rumo que uma mulher de letras chamada EVA se atreve a sonhar com utopias, rodeada de generais num sótão com vista para a praça de São Paulo.
Paulo M. Morais nasceu em Lisboa, em 1972. Licenciado em Comunicação Social, trabalhou na imprensa especializada, em áreas como cinema ou gastronomia. Após uma volta ao mundo, dedicou-se à tradução, edição e escrita de conteúdos. Gosta de cozinhar, ler e caminhar junto ao mar. Continua apaixonado por filmes e tem uma vasta coleção de jogos de tabuleiro. Estreou-se no romance com "Revolução Paraíso" (2013). Após a distopia "O Último Poeta" (2015), seguiram-se "Seja Feita a Tua Vontade" (2017, obra finalista do Prémio LeYa) e "Pratas Conquistador" (2019), ambos integrados no Plano Nacional de Leitura. Em 2022, em coautoria com Pedro Lopes, adaptou para livro a premiada série televisiva "Glória". O romance mais recente, "A Boneca Despida" (2023), foi finalista dos prémios LeYa e SPA Autores e selecionado pelo Plano Nacional de Leitura. Em 2024, integrado na coleção “Portugal”, escreveu o volume "São Miguel". Tem ainda um livro infantil: "A Aldeia Verde e Vermelha" (2020). Na área da não-ficção, publicou "Uma Parte Errada de Mim" (2016) e "Voltemos à Escola" (2017, obra também incluída no PNL). "A Glória Efémera – biografia de Egas Moniz" (2025) marcou a estreia no registo biográfico.
O cravo vermelho desta maravilhosa capa transporta-nos de imediato para o 25 de Abril de 1974, a revolução pacífica que tanto nos orgulha. E é precisamente pouco depois dessa altura que se inicia este livro. Dois amigos, César e Adamantino, estão na Lisboa de 74 para fazer um jornal humanista. Aos dois (que me fizeram por diversas vezes lembrar os velhos jarretas dos marretas) junta-se a Deodete (que completa a santíssima trindade), Adão, Viriato, Manuel Ginja e Pandora. Estes são os nomes que fazem "A revista de Portugal". O dinheiro de Adamantino, a revisão e o perfeccionismo de César, a lealdade de Deodete, o amor à impressão de letras de Adão, a genica de Pandora dão o mote a uma estória que se entrelaça com a História. Entre o 25 de Abril de 74 e o 25 de novembro de 75, Portugal caminhou numa corda bamba, num caminho que nos trouxe até onde estamos hoje (e diga-se o que se quiser, estamos muito melhor do que estávamos antes do 25 de Abril e até do 25 de Novembro). É essa história que Paulo M. Morais nos conta neste livro. De uma forma extremamente detalhada relembramos acontecimentos, reconhecemos personagens que fizeram a nossa história recente. Este é um romance histórico, com ênfase no Histórico. Quem está à espera de um romance, esqueça. E essa é para mim o que mais falha neste livro: a total falta de equilíbrio entre a realidade e a ficção. A estória existe apenas para contar a História. E a forma que o autor escolheu para nos aproximar dos protagonistas reais da revolução e da política é muito interessante. Infelizmente ainda me afastou mais da vida dos moradores do Ramalhão. Este é um livro para os Portugueses. Não é um livro para quem não sabe nada do contexto histórico do PREC, do pré-25 de Abril nem do pós- 25 de Novembro. Mas para nós é fantástico. Gosto bastante de história e gostei imenso de ler um livro passado num dos mais interessantes períodos da nossa História recente. Faz-nos falta lembrar esse período. Imortalizá-lo nas páginas de um livro é sempre uma óptima ideia. Estou desejosa de dá-lo a ler a quem viveu este período para ver a reacção, para saber o que está a mais e o que está a menos. Resumindo: se querem ler sobre História de Portugal este é o livro certo. Se querem ler um romance histórico levezinho esqueçam, não estão preparados para ler este "Revolução Paraíso".
Numa altura em que se comemoram os 40 anos do 25 de Abril, decidi “investigar” esta época que não vivi com um livro que talvez tenha passado despercebido a muita gente, mas que é uma verdadeira “pérola” a retratar esta época – “Revolução Pararaíso”.
De uma forma bastante divertida, mas sem nunca perder a seriedade que o tema exige, este livro apresenta-nos o ano quente pós-revolução -entre maio de 1974 e dezembro de 1975 – em que Portugal esteve à beira de uma complicada guerra civil. Neste ano e meio, acompanhamos o dia-a-dia de um jornal – primeiro, “Revista de Portugal” e, depois, “Revolta de Portugal” – bem como as alegrias, os excessos e os dilemas das pessoas que aqui trabalham. Através dos artigos do jornal, vamos conhecendo o que se passa no país, ou seja, através da ficção, o autor retrata o período pós-revolução de forma bastante fidedigna, muito devido ao facto de se ter baseado em verdadeiras notícias de jornais da época para construir a sua história. Asim, lado a lado com personagens fictícias, temos os nomes sonantes do 25 de abril – General Spínola, Otelo Saraiva de Carvalho, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Sá Carneiro, Rosa Coutinho, e outros mais.
O que mais me atraiu neste livro é que não existe a “divinização” do 25 de Abril. Ninguém pode negar a sua importância para um país subjugado por uma ditadura brutal, mas a verdade é que se cometeram também muitos excessos e erros em nome da Revolução. Nesta história, são apresentadas as contradições, os disparates e posso mesmo dizer, as injustiças, mas sempre de uma forma caricata que nos faz pensar – “A sério? Isso aconteceu mesmo assim? Estavam todos doidos!”
Este é um livro que recomendo a todos aqueles que preferem olhar para os dois lados da barricada e não ficar só pelos “clichés” associados ao 25 de abril!
Ainda não tinha nascido quando se deu o 25 de Abril? Devia ler este livro. Já tinha nascido quando se deu o 25 de Abril? Devia ler este livro. Muito, muito bom logo a começar pelo título. Não dá lições de moral nem opiniões, é o relato da época contada nas notícias dos jornais. Verdade que tive que fazer uma cábula com uma linha cronológica para não me perder com tanto golpe de estado, generais e almirantes, siglas, partidos políticos e paraquedistas em queda livre, mas se tinha apenas uma vaga ideia do que se passou na altura agora até já sei o que quer dizer e quando foi o PREC (viva o google) Temos dois velhotes amigos de longa data, Adamantino Teopisto e César Precato (que nomes do catano), fãs do Eça de Queirós, com o seu próprio jornal que querem contar o lado humano da revolução. Temos ainda a fiel secretária, o sobrinho que quer ser jornalista mas não escreve duas linhas, a estagiária que em vez de notícias só escreve a sua opinião, o tasqueiro Inocêncio nada inocente, o chulo a quem a revolução dá cabo do negócio, a prostituta com nome de fadista fascista, o ex-pide que continua a aterrorizar quem se mete no seu caminho e um Adão alucinado. Todas estas pessoas se movimentam em duas ou três ruas do Cais do Sodré enquanto se dá a revolução e é toda uma novela histórica muito bem contada. E a Eva pá? Uma mulher de letras! Todas as conversas no sótão são simplesmente deliciosas.
Ficamos também a saber que há coisas que não mudam: CP e Carris em greve, e “quase metade dos 250 deputados da Constituinte ou não compareceu em S. Bento ou desertou pouco depois de responder à chamada e de garantir o pagamento das ajudas de custo”. São chulos e não é de agora.
Revolução Paraíso é o primeiro grande romance escrito por Paulo M. Morais. Quando me foi dada a oportunidade de leitura desta obra, tive que aceitar. Um romance que mistura conceitos queirosianos, uma revolução marcante da nossa história e ainda todo o conceito de liberdade de expressão através de um jornal no mínimo insólito, só poderia ser no mínimo interessante. E assim foi.
Retratando de forma bastante genuína e cuidada a época logo após o 25 de Abril, o autor construiu personagens para todos os gostos. Desde a Pandora revolucionária, ao rabugento Adamantino, ao recatado e pouco seguro de si Adão. Apesar de estas serem as que mais acabaram por marcar a minha leitura, não posso deixar de mencionar a Eva do Paraíso que Paulo M. Morais acabou por usar para transmitir os vários devaneios políticos das altas patentes da altura.
Para além de ser um romance com todas as características presentes na sinopse, em Revolução Paraíso revisitamos os vários Chefes de Estado que foram passando nos primeiros tempos pós-revolução e ainda o factos mais importantes dessa altura. A linguagem do autor é concordante com a época retratada e nota-se que houve uma boa preparação a nível de pesquisa e de fieldade dos acontecimentos retratados.
Confesso que este tipo de romances não costuma ser de todo o meu género de eleição. Por norma aborreço-me facilmente com o excesso de História com que por vezes os autores carregam as suas obras, mas confesso que em Revolução Paraíso Paulo M. Morais teve a mestria de com o seu enredo multifacetado tornar estar leitura agradável. Um autor que não conhecia, mas que vou querer acompanhar no futuro.
Paulo M. Morais humaniza, relativiza e ironiza a grande desgraça que nos aconteceu, limpa as lágrimas de quem acreditava, faz rir – lá estamos nós, o grotesco, as ilusões da juventude, de sociedades de anjos revolucionários, daqueles que vão para o céu. Nós éramos assim, queríamos um mundo melhor, muito ao modo de Jesus Cristo, sendo ateus.
Paulo Morais não se fica pelo documento histórico, pela pesquisa de diversas fontes, entre elas um arquivo de notícias coligidas pela avó. Na história contada, a revolução dos cravos, entremeia o autor uma outra, fantástica – a visão de Eva do Paraíso. Não resisto a citar estas palavras de Eva , a minha personagem preferida.
(...) Não quero perder este estatuto de imperatriz. Tratam-me todos nas palminhas, independentemente dos cargos. Haviam de ter visto o Costa Gomes a lavar a loiça ressequida, o Vasco Gonçalves a varrer o chão emporcado de papéis queimados, o Otelo a fazer a cama a preceito com lençóis lavados. (…)
Revolução Paraíso é o primeiro livro de Paulo M. Morais. Um relato bem documentado dos dias que se seguiram à Revolução do 25 de Abril. Estamos perante um fresco desse período num olhar feito a partir dos jornais, a começar pela Revista de Portugal que pretende ser a voz do povo e dos seus afetos, recusando-se ser o eco das politiquices que invadem o resto da imprensa. Dar voz ao povo era a sua missão; mas, pelo caminho, deixa cair a questão colonial por imposição do seu proprietário.
O clima revolucionário lança a agitação no seio do jornal. No seu pequeno corpo técnico e redatorial instala-se a mudança imposta pelos ventos da revolução. Um operário, Adão, operador da grande máquina de linótipo, transforma-se no mais inesperado de todos os personagens.
Este livro foi o escolhido para a tertúlia de Abril do Clube Literário de Gaia. Neste post do meu blog sobre as sessões do clube, podem ler o meu resumo dessa discussão com a presença do próprio autor.
Numa escrita muito real, clara e acessível, o autor retrata fielmente a época em causa. Uma leitura muito agradável que me ajudou a reviver momentos que estão ainda bem presentes na minha memória. Menos romance e mais história do que eu estava à espera mas que, mesmo assim, considero muito bom.
Os comentários lidos e ideias partilhadas na Roda dos Livros (http://rodadoslivros.wordpress.com/) não me tinham preparado para a excelência de “Revolução Paraíso”. As expectativas eram elevadas e antevi que o tema, bem explorado, poderia permitir uma leitura diferente sobre uma época falada mas raramente alvo de um escrutínio “mais à séria”. Talvez por se tratar de uma época recente, por haver pouco conhecimento e pouco interesse, ou talvez pouco interesse por haver pouco conhecimento. A verdade é que quem desconhece a época “quente” e conturbada que medeia o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, ou a desconheça completamente e não tenha interesse em investigar (como eu fiz várias vezes, que sou interessada e curiosa mas já nasci em democracia), vai sentir que a História lhe passa ao lado, vai perder brilhantes requintes de ironia e de um humor de alto nível que Paulo M. Morais proporciona a quem se entrega a esta leitura. Personagens fiéis à época, pelo que consigo imaginar pois as minhas recordações não chegam tão longe, que falam, agem e vivem uma constante revolução, tempos loucos de uma liberdade que se aproveitava sofregamente mesmo não sabendo, algumas vezes, o que fazer com ela. Uma banda sonora das músicas que todos conhecemos, a intervenção nas ruas e a vida de todos os dias com muitas cores. Por vezes um bocado louco, a antítese da opressão vivida até então que, muitas vezes, leva a extremos pouco recomendáveis. Retrato de um país sem rumo, num risco real de guerra civil, que se desenvolve dentro da habitual bandalheira que caracteriza o nosso povo e na qual, aliás, continuamos a viver. Retrato não só de uma época mas dos portugueses passados e presentes, com tudo o que de bom e mau nos caracteriza. Difícil escolher uma personagem favorita, pelo menos das reais, traçadas e descritas com uma qualidade tão boa que até assusta, Paulo M. Morais até mete nervos de tão bem que escreve. Para atazanar ainda mais qualquer aspirante a escritor ainda se sai com aquelas fabulosas tiradas Queirosianas. Um trabalho exemplar que deve ser lido e reconhecido. Excelente.
Livro muito bem escrito, que nos leva a viver de forma intensa e bem documentada os primeiros meses do pós 25 de Abril, pela mão de personagens que não nos deixam indiferentes. Recomendo.