Em Janeiro de 2011 parti. Estiquei-me todo, abri os braços e o coração e abracei-me a alguns sonhos que andavam perdidos, entre inspirações momentâneas ou gargalhadas sem maldade. Queria fazer algo extraordinário, queria conhecer pessoas que não fossem como eu, queria entregar-me ao esforço de viver com pouco dinheiro e vários sorrisos. A outra ponta do continente Euroasiático, tão distante quanto a lua, atraiu-me e estendeu-me um tapete feito de estrada, carris e simpatias. Ora de dedo esticado na berma, ora de bilhete na mão, mergulhei. Ri, chorei, amei, desesperei, morri e nasci novamente, mais eu e mais mundo. Quando cheguei as asas que ganhara eram demasiado grandes e não cabiam no céu, pelo que agarrei novamente o alcatrão. Fui e vim. Daqui ali, com cinquenta mil quilómetros tatuados na alma.
Acho que nasci a chorar, assustado com aquelas luzes todas, nos idos 84. O mundo não resistiu e encapsulou-me, oferecendo-me a estabilidade e alegrias mais comummente desejadas. De um liceu bem passado em Vale de Cambra segui para uma Universidade melhor passada, em Coimbra. Ao abrigo de desculpas de que não há trabalho para psicólogos em Portugal, deixei-me aterrar na Noruega por seis meses, e em Inglaterra por dois anos, seguindo um caminho que, ainda que incomum, já outras pessoas tinham traçado. Quis traçar o meu e despedi-me para ir viajar. Agora vivo meio ao desbarato, viajando, escrevendo, e trabalhando.
À primeira vista pode parecer que vamos ler um diário de viagem, uma espécie de almanaque de viagem. Mas à medida que vamos percorrendo cada pagina reparamos que se trata afinal de um diário de vida. Da vida e das vidas apanhadas de boleia da viagem. Com uma escrita absolutamente descontraída, utilizando a linguagem do povo e aquelas palavras e "termos técnicos" a que o povo está tão habituado, APM retrata-nos não só a viagem que fez e como a fez, mas também todas as peripécias e vidas que foram acontecendo. Alem do mais, somos levados a conhecer também aquelas vidas com algum pormenor o que nos faz pensar que por momentos estamos a ler um livro de auto-ajuda. Factos, descrições, figuras de estilo, humor são parte integrante deste daqui Ali. Uma leitura que nos ensina sempre qualquer coisa de novo ao virar de cada página. Um open eyes a cada esquina.
O autor não só fez uma viagem espectacular, como conseguiu escrever um livro que me deu um grande prazer a ler do princípio ao fim. Combina muito bem as aventuras diárias, com reflexões sobre a vida em geral, a sociedade em que vivemos e as diferenças/semelhanças culturais. Já li vários livros de viagens e este superou as minhas expectativas. Fico à espera do próximo livro do António Pedro Moreira, que está neste momento a caminho da África do Sul, em bicicleta :)
Para os amantes de livros, ou para quem quer criar hábitos de leitura, o livro de António Pedro Moreira "Daqui Ali - de Portugal a Singapura Por Terra" é ideal para desfrutar de uma viagem pela Europa e Ásia sem ter de sair do sofá. Mais do que um livro de viagem, o Daqui Ali reflete o espírito livre de quem vive empaticamente com o mundo que o rodeia, vivenciando experiências marcantes que deixam o autor cada vez mais apaixonado pela Vida e pelas pessoas, fomentando a importância da reflexão sobre nós mesmos, sobre a relação com as pessoas com quem vivemos ou cruzamos. Uma viagem pelo mundo, e pelo interior do mundo de cada um de nós. ;)
Este livro vale apenas pelas experiências vividas pelo autor, durante uma viagem pouco convencional. Porém, a nível literário deixa muito a desejar, quer por ter adotado um discurso demasiado coloquial, que chega a ser chocante, quer por recorrer a descrições paupérrimas e adjetivações fraquinhas, quer ainda por desenvolver sequências lógicas pouco claras (confusas até) acerca das suas observações e sentimentos. No final, fiquei com a ideia de que os locais por onde passou e as pessoas que conheceu ou são ‘fixes’ ou ‘altamente’ ou ‘porreiros’. Muito esclarecedor, sem dúvida.
Este livro conseguiu ter o condão de me abrir os olhos para uma forma de ver e viver a VIDA (como o autor escreve) que nunca tinha equacionado. Tenho de agradecer a inspiração e como a dedicatória que o Pedro me deixou no livro, tenho a certeza que viajarei inspirado pelas suas palavras. Um obrigado por isso!
Não tendo lido muitos livros de viagem, e aliás penso que o único que li/tentei ler foi o Into the Wild, em inglês, e um outro livro em inglês da maior travessia geograficamente possível, dentro do Reino Unido, penso que houve demasiado detalhe nestes dois sobre mapas, coordenadas, e descrições paisagísticas que para mim não me cativam tanto, nem me fazem envolver tanto na "história". Colei neste livro do Pedro do príncipio ao fim, e apesar de achar que não será apelativo para algumas pessoas, derivado da linguagem utilizada, e talvez do modos operandi do autor não ser o mais cativante para muita gente, não deixa de ser uma viagem cheia de histórias e vivências, em que nos é dado a conhecer um cem número de pessoas (algumas mais aprofundadas que outras), culturas, lugares, e situações de bondade humana genuínas. Isto sempre com um questionar de tudo, que para mim é essencial.
Escrita descontraída, o que torna o livro uma espécie de ligação com o autor, como se ele nos estivesse a falar diretamente. Como também adoro viajar, identifiquei-me com bastantes reflexões do autor. Recordei, vivi e também refleti com ele sobre diversas situações pelas quais passa e das quais fala abertamente dando a sua opinião. Concorde-se ou não com certas opções, é um livro que vale a pena ler de mente aberta.
“To find out what is truly individual in ourselves, profound reflection is needed; and suddenly we realize how uncommonly difficult the discovery of individuality is.” C.G. Jung
Se ao iniciar a leitura, perante o discurso muito coloquial de Pedro, houver desmotivação para prosseguir, recomendo um salto à sua passagem pelo Paquistão (Capítulo 4 - Do Irão à Índia). O que mais me impressionou neste livro foram os relatos introspectivos. Momentos em que as vivências do autor nesta aventura, lhe exigem que pare, e no confronto com a solidão ou conflitos internos consiga encontrar algumas resoluções e um rumo na busca de um sentido para uma vida plena.
Lê-lo foi como uma suave brisa numa tarde de verão. Este livro é muito mais que uma estória, é uma dissertação sobre a VIDA (como o Pedro a escreve).
O Pedro é um escritor fantástico e permite-nos viver a aventura a seu lado, como se fossemos o seu confidente. Tem o poder de inspirar e de nos fazer perceber que não temos de ser, pelo menos a full-time, mais uma peça na engrenagem.
Tenho a certeza que mudou a minha vida…Falta-me descobrir como ;)
Tal como o Pedro cresce nesta viagem também cresce a sua escrita. Sabe bem ler o seu íntimo, disponível e sem muitos absolutos. É um livro sobre uma viagem mas, essencialmente, sobre a VIDA e sobre como a VIDA passa por nós e como nós a vemos e sentimos. Ou neste caso como podemos ver e sentir a VIDA.
Uma viagem inesquecível para o leitor, conseguimos sentir-nos no local como um backpacker, a viver o momento e a aprender novas formas de nos deslumbrarmos. gostei particularmente das aventuras pelo médio oriente que quebram tabus e me deram muita vontade de lá ir!
Adorei o livro. Pelo espírito de iniciativa, pelas vivências descritas, pela escrita descontraída. Dá vontade de visitar cada um dos lugares descritos no livro. A experiência contada é única.
Em 2011 o Pedro partiu numa viagem daquelas que, muitos anos mais tarde, se contam aos netos, à beira de uma lareira. E até lá se vão repetindo a amigos e a quem mais as quiser escutar. Quando se sai de Portugal com a intenção de atingir Singapura e regressar, sempre por terra, é inevitável: as estórias, as experiências e as lições serão abundantes. Quando se coloca tudo isso no papel, tanto melhor.
A verdade é que vivemos tempos estranhos: há cem anos, era tão complicado andar aí pelo mundo que qualquer viagem era um feito e o seu relato teria sucesso garantido. Depois, as coisas começaram a banalizar-se. Quem queria saber disso de viagens agora que tudo o que era preciso para se atravessar continentes era embarcar num jacto e passado umas horas pisar terra do outro lado do Globo? Nos dias que correm a literatura de viagens está de novo em grande… mas para ter algo digno de contar tornou-se necessário chocar. No bom sentido. É preciso fazer coisas fabulosas, como… ir e vir a Singapura por terra.
O autor vai escrevendo num estilo informal, sem escolher palavras caras, pondo no papel da mesma forma como o diria, cara a cara com o leitor. Gosto. Fez-me pensar no livro que li do montanhista João Garcia. Direito ao que interessa sem floreados, pondo logo toda a gente à vontade. Simplificando, cada parágrafo do texto enquadra-se numa destas categorias: ou é uma descrição de alguém – uma boleia, um anfitrião, um outro viajante… enfim, uma pessoa com que o autor interagiu, ou é a descrição de um local ou é o fruto de uma reflexão pessoal ou é a história de um incidente da atribulada viagem. E isto não é redutor. É mesmo assim que é andar na estrada e resulta em livro. Torna a prosa natural, desprentenciosa, fácil de ler e, sobretudo, viciante. Peguei no livro com um chá de menta num café de rua de Marrakesh, e ainda não tinha saído daquela cidade marroquina quando virei a última página. É aquilo a que os americanos chamam um “page turner“.
Pessoalmente tenho alguma dificuldade em escrever sobre Daqui Ali. E isto porque conheço o Pedro. Um tipo tem mais dificuldades em arriar num amigo, não é? De qualquer modo também não há muito de negativo para dizer. O que pontualmente me aborreceu foi uma certa postura de “sou tolerante se as opiniões e perspectivas coincidirem com a minha ou pelo menos não esbarrarem”. Sem se parar muito tempo para pensar que se estamos convictos daquilo em que acreditamos, os que estão convictos daquilo em que não acreditamos têm igual direito de estarem certos. É a intolerância ao que sentimos como intolerância. Talvez tão intolerante como a intolerância dos intolerantes.
Ainda nas notas pessoais, deu-me imenso gozo ler sobre paragens que um dia foram minhas, do Cambodja à Síria, passando pelo Vietname. Até porque o autor – retirando daqui e adicionando ali (não boleio porque tenho alguma timidez e não lido bem com a rejeição, não gosto de passar tempo com viajantes e pessoas que me tirem o foco das gentes que visito e tenho um pouco menos de medo das coisas que costumam meter medo) – tem um estilo de viagem algo similar ao meu.
Valorizo o aspecto didático do livro, o encorajamento à partida por esse mundo fora, escrito na língua de um povo que tanto precisa de sair por ai para conhecer o que há fora da caverna platónica a que está normalmente limitado. É tramado viver num pedaço remoto da Europa numa época em que Portugal deixou de se projectar para o mundo e passou a estar encafuado no canto designado. Por isso, só tenho uma coisa a dizer para terminar este texto que já vai longo: leiam Daqui Ali. Se gostam de viajar ou ler sobre elas, leiam este livro.
Um livro de leitura fácil e cativante, no qual facilmente nos perdemos com o tempo a passar. Para quem gostar de de viagens um pouco mais "hardcore" (e mesmo que goste do tipo de viagens norma) a não perder.