(...) mas não é uma tristeza como a nossa, de quem não tem voz, e sim a tristeza de quem tem voz mas não pode exprimir nada, e mesmo se pudesse, de nada adiantaria, em nada alteraria o rumo das coisas.
Não parecem saber o que fazem aqui ou o que é a felicidade, e mesmo que frangos assados revoassem por todos os lados e eles pudessem colhê-los no ar como a uma fruta madura, ou mesmo se voltassem a saber como apanhar a comida que nasce pronta e cozida a seus pés, ou que o amor fosse algo simples e banal, deparável em cada esquina, barato e frequente, ao alcance de qualquer um, ainda assim acabariam entediados e se matariam uns aos outros, como já o fazem sem nenhum propósito compreensível, agora que não há nada a comer sendo migalhas e carcaças, e se matariam uns aos outros quando restasse algum tutano para ser sugado de uma costela ou fêmur cavado nas fossas
É o único lugar que existe, o estrangeiro. E costuma estar cercado de grades.
(...)
Nunca conheci minha casa verdadeira, diz Ahmed, sempre estive preso fora dela.
Arrastam detrás de si uma série de coisas que não sabemos o que são, as quais no entanto lhes parecem ser importantes.
A despeito de creditarem ao seu deus a violência que praticam, perderam qualquer sentido de compreensão do sagrado. Não entendem o pasto, e mesmo que não consigamos ver as estrelas diretamente, algo que também ignoramos, o céu, eles conseguem vê-lo, a despeito de verem nas estrelas apenas uma via de escape. De si mesmos. Ao contrário de nós, que nos sabemos bem enraizados no pasto circular, eles se sentem prestes a se desprenderem no espaço. Talvez tenham sido pássaros, como esses que se alimentam dos carrapatos em nosso lombo, e tudo se resuma à nostalgia do voo perdido.
Ao desejo de partir.
Nós só podemos ver o céu refletido na beira da lagoa ou nas poças deixadas pela chuva, apenas uma nesga dele, estrelas turvas, sinais tardios de mundos extintos. Nossa fatalidade é sermos devorados por quem nos amam. A deles é matar a quem amam.
A única regra de partir é que ao voltar não se é mais o mesmo. Talvez não sejam mais aquelas pessoas, talvez ao perderem uma parte essencial de si (...), as pontas que restam se soltem para sempre no ar, num laço desfeito.