Ignorando as normas do condomínio, Diogo dispõem-se a criar um porco no seu apartamento, um sétimo andar de um prédio no centro de Luanda. O propósito é simples: cevá-lo bem para depois o transformar em fêveras, costeletas e afins e, dessa forma, poder fintar a inevitabilidade de comer peixe frito todos os dias. Empolgados com a ideia, Zeca e Ruca, os filhos de Diogo, começam por baptizar o porco com o surpreendente nome de “Carnaval da Vitória” (data prevista para passar o porco a torresmos), mas rapidamente mudam de ideias, encontrando nele uma inesperada fonte de descobertas e aventuras e a mola propulsora de uma popularidade crescente entre os seus colegas. Diogo, porém, não esquece o festim carnavalesco que se avizinha, no pressuposto de que porco é porco. Dessa forma, as crianças vão ter de se mobilizar com vista a impedir que o seu mais novo amigo vá parar à mesa de refeições.
Verdadeiro marco da literatura angolana contemporânea pós-Independência, “Quem Me Dera Ser Onda” espraia-se por terrenos da sátira política, do humor e da ironia, dando a ver as instituições sociais, as organizações, as pessoas e os costumes que, no seu todo, ajudam a compor uma sociedade angolana profundamente dividida e a viver os efeitos de uma guerra civil que se prolongou por vinte e sete anos, deixando um legado de dor, carências, angústias e corrupção. Comprometido com a crítica e as reformas sociais, mas sem descurar jamais a ideia de uma certa utopia libertária, Manuel Rui explora a vasta gama de comportamentos sociais, profissionais, familiares e políticos, ao encontro da chamada pequena-burguesia urbana onde pontifica uma vasta panóplia de “camaradas”, do burocrata ao carreirista político, do pseudo-intelectual ao operário alienado.
Caminhando ao lado de outros grandes nomes da literatura angolana, como António Jacinto, Luandino Vieira, Pepetela, José Eduardo Agualusa ou Ondjaki, Manuel Rui traz-nos esta história muito simples mas imensamente bela, fundada nos mais nobres ideais da amizade e da solidariedade. Desta forma, a narrativa toma um cariz chaplinesco, o leitor forçado a rir das situações mais inesperadas mas, ao mesmo tempo, incapaz de não chorar. Entre “fenelás” e “ó-dê-pês”, “karcamanos” e “embambas”, “berenguéis simonescos” e “ramalhos eanes”, “Quem Me Dera Ser Onda” traz com ele a denúncia dos sistemas ineficazes, dos inconcebíveis autoristarismos ou das terminologias desadequadas, mas não esquece a alegria e a inocência das crianças, nas quais toda a esperança se encontra depositada. Delas é o futuro de um mundo que se quer renovado e justo, poder-se-á concluir.