Um segredo escondido dentro de um dossier encontrado pelo cônsul português em Atenas, exilado em Malta durante a Primavera de 1942, dá o mote a esta história. Perseguido pelos nazis, o diplomata faz chegar este documento a Salazar. Informações sobre o duvidoso passado de Hitler fazem do dossier um alvo a abater. Movido pela conquista africana e pela urgência de recuperar o documento, Hitler decide conquistar a pequena ilha de Malta. Ao mesmo tempo que a busca pelo Graal, que acredita estar em Portugal, o leva a destruir o nosso país e à fuga de Salazar para os Açores.
Luís Corredoura é licenciado em Arquitetura e Mestre em Recuperação do Património Arquitetónico e Paisagístico. O autor de vários títulos, entre os quais "Nome de Código Portograal" foi galardoado já com o Grande Prémio Adamastor de Literatura Fantástica do Colectivo Trëma-Fórum Fantástico de Lisboa e do Encouragement Award atribuído pela European Science Fiction Society.
Confesso que se não fosse pela apresentação que Luís Corredoura fez do seu livro no Fórum Fantástico não daria por ele. As estantes de romance histórico não são o local que mais habitualmente assombro nas visitas às livrarias e não daria muita importância a um romance com Hitler e Salazar na capa. Mas a apresentação despertou-me irremediavelmente a curiosidade. Não só pela paixão com que o autor falou do livro, mas por ter percebido que estávamos perante uma intrigante obra de história alternativa escrita e pensada com muita precisão.
Nome de Código Portograal é um romance ambicioso. O seu volume dá indícios ao leitor mais incauto, mas é ao mergulhar nele que percebemos o alcance da ambição. É uma história alternativa, um elaborado e bem montado e se...? de especulação bem alicerçada em dados históricos. Vive de três narrativas confluentes, uma história possível e duas opções justificativas para os eventos ficcionais.
Numa, documentos secretos em posse de um diplomata português contém um segredo sobre o passado de Hitler que, se revelado, poderia abalar até à medula os pilares do nazismo. Sempre perseguido pelas forças alemãs, acaba por morrer na conquista germânica de Malta, mas os documentos chegam a Portugal pela mão dos familiares sobreviventes. Acaba nas gavetas de Salazar, e a sua revelação no final da guerra não tem o impacto esperado.
A outra linha narrativa prende-se com a busca do graal, imaginado por Corredoura como um artefacto de tecnologia antiga já esquecida, uma esfera armilar cujos mecanismos rivalizariam com o mecanismo de Antikhytera. É uma visão interessante que mistura especulação informada sobre mitologia, tecnologia antiga e os mitos do Graal e dos Templários, transplantados para uma visão de Portugal com o seu quê de quinto império. Mexe também com a mitografia contemporânea sobre o apetite nazi por artefactos míticos e o lado esotérico das SS.
Estes dois enredos já dariam boas histórias. Há por aí muito livro popular que atingiu o sucesso só com alguns dos muitos elementos que Corredoura mete nestes enredos. Mas as verdadeiras histórias, que dão ao livro o seu maior valor e o destacam, tornando-o uma interessante história alternativa, não são estas. E sente-se que o autor se apercebeu disso ao longo do livro. Se inicia com um duplo focalizar nos documentos secretos e no graal, depressa se centra na narrativa principal, regressando pontualmente a estes temas para manter a estrutura narrativa mas com o seu quê de reflexão posterior. E por interessantes que sejam o livro passaria bem sem elas.
O livro brilha na sua narrativa central. A hipótese colocada é o que é que aconteceria se Portugal tivesse sido invadido pela Alemanha na segunda guerra. É uma hipótese bem estrutura, melhor pesquisada e desenvolvida com uma invejável precisão métrica. Corredoura revela-se um profundo conhecedor da história geo-estratégica da época e sabe muito bem onde desviar o curso da história para criar uma alternativa verosímil. Começa por Malta, postulando a sua queda após a heróica defesa. Empatando as forças britânicas com Rommel no deserto, Gibraltar é o passo seguinte para quebrar a hegemonia britânica no Mediterrâneo mas Hitler precisa do apoio espanhol. Portugal é a moeda de troca, dado a Franco para permitir a captura do rochedo gibraltino. E Corredoura não faz a coisa por menos: mete a Divisão Totenkopf, em descanso da Frente Russa, a entrar por Portugal dentro e a pulverizar as fracas defesas nacionais.
O que se segue é um relato plausível de um país sob ocupação. Salazar refugia-se nos Açores com apoio anglo-americano, apostado em manter o porta-aviões fixo no meio do Atlântico. Lisboa recebe um governo fantoche encabeçado por Rolão Preto, que reúne as mais decadentes figuras da ala extrema do regime fascista mas que é de facto controlado pelo embaixador alemão. Às forças espanholas é entregue o controle militar do país mas é dos alemães endurecidos pela guerra que dependem. Se a resistência oficial cede facilmente, formam-se aguerridos grupos de resistência que unem diferentes facções, dos comunistas aos resistentes salazaristas, e são estes grupos que se tornam capazes de provocar incómodos às forças de ocupação. Há atrocidades, sabotagens, e até o pormenor tétrico do estabelecimento de um campo de concentração onde os judeus ibéricos e outros elementos incómodos são gaseados. Corredoura imagina o campo próximo de Torres Vedras e, pessoalmente, estou mesmo a ver onde, naquelas zonas desoladas entre Torres e o Bombarral.
João Barreiros tem fama (e proveito) de ser o escritor português mais danoso para a arquitectura lisboeta, rotineiramente destruída nos seus contos. Corredoura deixa Lisboa relativamente incólume mas arrasa com muito estilo Santarém e Coimbra debaixo de bombardeamentos da Luftwaffe, e ainda descreve violentas acções anti-guerrilha na Beira Baixa. Arquitecto de formação, presta muita atenção aos pormenores geográficos, o que transmite mais força à verosimilhança da narrativa. Isto é particularmente notável no que toca à zona oeste. Haja alguém que se lembre que Mafra não é só o convento e o pormenor de refugiar um personagem no moinho de água da Samarra é encantador para quem, como eu, gosta de fugir para essa pequena enseada.
O desvio à história é subtil e, eventualmente, o esgotamento germânico na frente leste e o dia D terminam a guerra da forma que sabemos. Portugal é libertado, e Salazar regressa para encabeçar um governo democrático. Corredoura não só percebe de história como de realpolitik. Os desvios pontuais são certeiros e plausíveis. Malta poderia ter caído. A defesa da RAF foi lendária mas se tivesse sucumbido as vitórias da raposa do deserto poderiam ter ido mais longe. E Hitler esteve por um triz de se aliar com Franco, mas não o fez por perceber que teria em mãos outro Mussolini para sustentar. A fraqueza das forças portuguesas face às bem equipadas e endurecidas divisões alemãs é plausível, se bem que talvez nos ares as coisas não tivessem corrido tão bem. À época, entre doações britânicas para manter a aliança e os açores, e aeronaves internadas por se extraviarem no espaço aéreo português, a nossa força aérea estava relativamente bem equipada e poderia causar algumas chatices aos Stukas germânicos.
Este livro é antes de mais uma boa história, bem enquadrada e contada. A construção das personagens é cuidada e Corredoura não hesita em eliminar personagens depois de ter criado empatia no leitor, o que é um toque raro na ficção. Se os rebeldes portugueses e os torcionários nazis são icónicos, não são superficiais e o romance consegue terminar com uma nota de redenção de um dos seus piores facínoras.
Há a notar uma certa falta de edição. O livro é longo, e ganharia se se tornasse mais sucinto, embora honestamente não consiga dizer onde devido à necessidade de enquadramento histórico da narrativa. O descuido editorial nota-se particularmente na linguagem narrativa, com muitas passagens invadidas por coloquialismos de corrente de pensamento desenquadradas da linguagem literária. Outras vezes há algumas frases dignas de uma Thog's Masterclass. É daquelas coisas. Por cá o trabalho editorial decididamente não passa por leitura atenta e aconselhamento que vá para lá da redução do número de páginas. Um livro é mais do que uma história, repositório de peripécias ou acumular de ideias. É tudo isso e a linguagem que o unifica.
São pormenores importantes, mas não diminuem o alcance nem o interesse desta ambiciosa, bem estrutura e verosímil obra de história alternativa, campo em que possivelmente é a única obra portuguesa. A especulação é bem fundamentada e o conhecimento da época é de uma solidez invejável, a geografia do espaço ficcional espelha a dos locais reais. Lisboa debaixo das botas cardadas da Wermacht poderia ter acontecido, e Corredoura pega nessa premissa para criar um romance impressionante.
Trata-se de uma viagem por uma História que poderia ter sido a nossa, mas não foi. A imaginação do autor leva-nos a um Portugal do Estado Novo em 1942, quando os Nazis estão a bombardear a Ilha de Malta, onde se refugiou um cônsul português que tinha documentos sobre os antepassados de Adolf Hitler (ascendência judaica). Após a tomada da Ilha de Malta, o próximo ponto que os Nazis querem dominar é Gibraltar e também Portugal. Vemos então o desenrolar dos acontecimentos com a invasão de Portugal pelas tropas alemãs, a fuga de Salazar e seus ministros para os Açores, a acção da Resistência Portuguesa contra os invasores, a construção de campos de extermínio de judeus em Torres Novas e Entroncamento... uma realidade que aconteceu noutros países da Europa dominada pelo Reich, mas que não aconteceu em Portugal. Os alemães em Portugal também procuram uma relíquia religiosa trazida pelos Templários, posteriormente Ordem de Cristo: o Santo Graal. Mas o Graal não é o cálice onde foi depositado o sangue de Cristo quando foi trespassado pela lança do soldado romano. É um acrónimo que designa a esfera armilar. Um globo que nos périplos de Jesus Cristo pela difusão da palavra de Deus mostrava a forma redonda do mundo e os continentes. Foi escondido pela Igreja Católica para não contrariar a versão de Terra no centro do universo e de ser quadrada. Foi um segredo protegido pelos Templários e foi trazido para Tomar, sede da Ordem de Cristo. Terá sido utilizado pela Ínclita Geração na preparação das viagens dos Descobrimentos, ou não fosse o Infante D. Henrique o líder da Ordem de Cristo. Os alemães não conseguem encontrar o Graal, apesar das muitas pistas, pois um grupo de resistentes conseguem encontrar as pistas e chegar aos locais antes deles. Entretanto a II Guerra Mundial desenrola-se e há um desembarque de tropas aliadas no Algarve para libertar Portugal. Os alemães, com as tropas a lutarem em várias frentes na Europa, são expulsos do território português pelos ingleses, americanos e portugueses. Há um contingente de tropas portuguesas que vão lutar para a Europa juntamente com as tropas americanas. Em Portugal, Salazar regressa ao Continente, ajudado pelos americanos e ingleses, expulsam os governantes nacional-sindicalistas apoiados por Hitler, com a condição de haver eleições livres. Em 1946, após o fim da II Guerra Mundial, a morte de Hitler e o regresso a casa das tropas envolvidas nos confrontos, existem eleições livres em Portugal, onde Salazar concorre contra partidos de esquerda. Salazar ganha as eleições, com a manipulação de algumas urnas de voto... É eleito e nada muda, à excepção de ter terminado a PVDE e não haver censura.
No final, o historiador pertencente ao grupo de resistentes pensa saber a localização do Graal, escreve um relatório para Salazar, mas não lhe é permitido continuar as buscas, que o levariam ao Palácio-Mosteiro de Mafra. Assim, o segredo do Graal é guardado juntamente com o relatório das pesquisas, no cofre-forte do Banco de Portugal.
Nota: De salientar que existem vários erros de revisão de texto, falha da editora.
A magnificent discovery! Here is a new Author that I had never heard about, and what he does is quite different from the usual "historical romance" - what he does is to imagine (but based on a rather rigorous historical research) what would have happened if the Nazis had decided to invade Portugal and Salazar managed to escape to Azores (with the help of the British) to prepare his come back after liberation? What if, among the Nazis' interests, the Holy Grail would figure at a high level of priority, and if the Templar presence in Portugal led them to the conclusions that it was here? A very imaginative book, which took me long to read because the font was too small, rendering a book of almost 600 pages as if these were actually 1000! Loved the mix of extreme accuracy of details historically verifiable with the imagination of the Author in writing this parallel history.
Aqui está um bom livro para todos os que se interessam pelo tema da Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, para aqueles que já pensaram no que poderia ter acontecido se Lisboa tivesse sido invadida pela Alemanha de Adolf Hitler. O autor demonstra como conhece bem esta época e muitas das regiões referidas que se localizam em Portugal, articulando tudo isto numa história que bem podia ter acontecido realmente. Um reparo apenas para a dimensão das letras que poderá, numa próxima edição, ser aumentada e para a dimensão do livro. Talvez, também, o livro pudesse ser dividido em dois volumes, o que tornaria mais ligeira a sua leitura e cativasse um maior número de leitores: um sobre a invasão de Portugal pelos alemães; e outro sobre a perda de Portugal pelos alemães e a mudança dos ventos da Guerra.
Uma escrita interessante, com uma boa história por detrás... Só achei muito longo o livro... No fim, parecia que andavam a espremer para ver se rendia mais umas páginas...