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O Cachecol do Artista

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«Aproxima-se o General Inverno que até ajudou a vencer Napoleão, como se aprende na escola.

O ARTISTA PRECISA DE UM CACHECOL.

O cachecol do Artista, eufemismo simbólico que passamos a explicar, são vários, pode mesmo afirmar-se para cada Artista seu cachecol. Igual coisa acontece com o comum das pessoas porque, logrados pelo dito do dá Deus o frio conforme a roupa, já muita gentinha tem morrido de frio, pobrezinhos! Assim, o mais seguro ainda é usar um bom cachecol. Há vários… […]»

8 pages, Mass Market Paperback

First published January 1, 1964

39 people want to read

About the author

Luiz Pacheco

56 books59 followers
Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco foi escritor, editor, polemista, epistológrafo e crítico de literatura.
Nasceu em 1925, na freguesia de São Sebastião da Pedreira, numa velha casa da Rua da Estefânia, filho único, no seio de uma família da classe média, de origem alentejana, com alguns antepassados militares. O pai era funcionário público e músico amador. Na juventude, Luiz Pacheco teve alguns envolvimentos amorosos com raparigas menores como ele, que haveriam de o levar por duas vezes à prisão.

Desde cedo teve a biblioteca do seu pai à sua inteira disposição e depressa manifestou enorme talento para a escrita. Estudou no Liceu Camões e chegou a frequentar o primeiro ano do curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, onde foi um óptimo aluno, mas optou por abandonar os estudos. A partir de 1946 trabalhou como agente fiscal da Inspecção Geral dos Espectáculos, acabando um dia por se demitir dessas funções, por se ter fartado do emprego.
Desde então teve uma vida atribulada, sem meios de subsistência regulares e seguros para sustentar a família crescente (oito filhos de três mães adolescentes), chegando por vezes a viver na maior das misérias, à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues, indo à Sopa dos Pobres. Esse período difícil da vida inspirou-lhe o conto "Comunidade", considerado por muitos a sua obra-prima.

Nos anos 60 e 70, por vezes viveu fora de Lisboa, nas Caldas da Rainha e em Setúbal.
Começa a publicar a partir de 1945 diversos artigos em vários jornais e revistas, como O Globo, Bloco, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado, Diário Popular e Seara Nova. Em 1950, funda a editora Contraponto, onde publica escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Natália Correia, Herberto Hélder, etc., tendo sido amigo de muitos deles. Dedicou-se à crítica literária e cultural, tornando-se famoso (e temido) pelas suas críticas sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime salazarista. Denunciou, de igual modo, plágios, entre os quais o cometido por Fernando Namora em Domingo à Tarde e sobre o romance Aparição de Vergílio Ferreira.

A sua obra literária, constituída por pequenas narrativas e relatos (nunca se dedicou ao romance ou ao conto) tem um forte pendor autobiográfico e libertino, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamaria de corrente "neo-abjeccionista". Em "O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor" (escrito em 1961), texto emblemático dessa corrente e que muito escândalo causou na época da sua publicação (1970), narra um dia passado numa Braga fantasmática e lúbrica, e a sua libertinagem mais imaginária do que carnal, que termina de modo frustrantemente solitário.

Alto, magro e escanzelado, calvo, usando óculos com lentes muito grossas devido a uma forte miopia, vestindo roupas usadas (por vezes andrajosas e abaixo do seu tamanho), hipersensível ao álcool (gostava de vinho tinto e de cerveja), hipocondríaco sempre à beira da morte (devido à asma e a um coração fraco), impenitentemente cínico e honesto, paradoxal e desconcertante, é sem dúvida, como Pícaro, personagem literário, um digno herdeiro de Luís de Camões, Bocage, Gomes Leal ou Fernando Pessoa.

Debilitado fisicamente e quase cego devido às cataratas, mas ainda a dar entrevistas aos jornais, nos últimos anos passou por três lares de idosos, tendo mudado em 2006 para casa do seu filho João Miguel Pacheco, no Montijo e daí para um lar, na mesma cidade.

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Displaying 1 - 3 of 3 reviews
Profile Image for tiago..
487 reviews130 followers
August 6, 2023
Mostrando que certas coisas realmente não mudam, O Cachecol do Artista é uma apaixonada crítica à falta de apoio estatal às artes, essa doença crónica do nosso bom Portugal. Pelo caminho, leva bordoada a mesa censória e o regime do Estado Novo, e não se descuida, já que estamos com a mão na massa, no vilipêndio da mediocridade da literatura portuguesa, para que tanto contribui a repressão governamental. Ainda que panfletário, não falta aquela verve à Pacheco, capaz de tornar o manual de instruções de uma torradeira numa leitura sedutora.

A verdadeira pérola, no entanto, é o pequeno texto de três páginas que se lhe segue, intitulado O que é o neo-abjeccionismo. Nele, Luiz Pacheco fala em primeira pessoa do estado de pobreza abjeto a que chegaram ele e a família, e roga, encarecidamente, por algum trabalho que lhe permita alimentar os filhos. Di-lo com o lápis carregado de um desprezo por si próprio que, devo dizer, é inteiramente justo. Ei-lo, dois filhos na mão, outro a caminho na barriga de uma rapariga de 15 anos (uma vez pedófilo, sempre pedófilo, aparentemente), implorando por trabalho, mas afirmando orgulhosamente, ao mesmo tempo, que só trabalha no que entende, que só escreve o que quiser, mesmo que os filhos passem fome - e tem ainda o enorme descaramento de dizer ser uma música horrível, uma música que nos entra pelos ouvidos e me endoidece o ouvir os filhos esfomeados a pedir comida. Evidentemente que ele tem toda a razão quando diz, n'O Cachecol do Artista que nem um artista nem os seus filhos deveriam passar fome para que verdadeira arte possa ser feita; mas o ponto que quero fazer tem menos a ver com isso e mais a ver com quem é, realmente, esta esquiva figura a quem chamaram Luiz Pacheco: um homem para quem o auto-desprezo é uma hipocrisia já bem ensaiada, de tantas vezes proclamada, que mais que se achar um pulha, sabe que o acham um pulha; e disso, ele está perfeitamente orgulhoso. Desta contradição que é o orgulho em ser desprezível nasce o feitiço da figura e da obra de Luiz Pacheco: um homem que é, ou proclama ser, irredutivelmente livre, custe a quem custar, pensem o que quiserem pensar.
Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre e salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me.
Profile Image for Margarida Sajara Vidinha.
16 reviews
January 30, 2023
Luiz Pacheco começa por falar da urgência que um artista tem em ter um cachecol, vestuário que pode aparecer de diversas formas. Passa por criticar uma lacuna na sociedade - que ainda hoje se vive - que é a falta de apoio que o mundo das artes tem por parte da sociedade (especialmente em Portugal e, in casu, o mundo da escrita).
Termina com um género de autobiografia/pedido. Esta última nota toca especialmente pelo soco de realidade que Pacheco retrata sobre a sua vida e a vida dos filhos.
Um livro que vem como um sinal de alerta para o que se passa no mundo daqueles que vivem substancialmente da Arte. Muito bom de tão duro que é.
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Profile Image for Andreia Santos.
84 reviews
December 30, 2022
julguei que podia ser livre e salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser, e já não quer salvar-se de maneira nenhuma. julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto.
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