Em "Hanói", Adriana Lisboa introduz-nos no universo de dois personagens que traduzem bem sua opção pela delicadeza como opção estética, por meio de uma busca pelo recolhimento, pela discrição, mas também pelo pertencimento e, portanto, essa delicadeza encontra-se voltada à sutileza e à sensibilidade, sem a necessidade de gritar aos quatro ventos toda a alma dos seus personagens. E, de fato, não precisamos de muito nessas belas páginas para sentirmos o toque humano.
David nasceu e cresceu em Chicago. Seu pai, brasileiro, sua mãe, mexicana, ambos já falecidos. Músico amador, trabalha em uma loja de materiais de construção. Começamos a leitura no momento em que um médico oncologista lhe dá um diagnóstico terminal. Tem menos de um ano de vida. Sozinho no mundo, e depois de processar a informação que lhe foi dada, a qual não se processa com facilidade, em que vivemos num limbo em que não sabemos como agir, David aos poucos resolve se despedir da vida.
É nesse despedir, que tenta fazer coisas ligeiramente diferentes e nesse caminho acaba no pequeno mercado vietnamita não tão longe de seu apartamento, mas onde nunca havia estado. Ali conhece Alex, filha de mãe vietnamita e pai americano, estudante de astrofísica, atendente de caixa, mãe solteira. A história flui de forma cativante a partir dai. E não, não se trata de uma histórica romântica tradicional, um "Love Story" reinventado.
Para o leitor desavisado, pode parecer que David é um ser resignado com o seu destino. E até certo ponto, de fato, o é. Mas há muito dor, medo, há amor, querer-bem, tantos outros sentimentos em cada um dos personagens, apenas que a opção pela delicadeza significa no desenvolvimento da narrativa que de certo modo, essas sensações e sentimentos não precisam ser escancarados, detalhados, jogados como numa luta-livre na cara do leitor. Ocorrem por meio da própria escrita, por vezes nas entrelinhas, no ponto final de um parágrafo e no início do próximo. Ocorre na técnica, mas também na sensibilidade da autora de nos contar histórias que vão muito mais além e que também tocam nossos sentidos. Da mesma forma, são os personagens de André de Leones em "Dentes negros", ou Antônio, o personagem de "Enquanto os dentes" de Carlos Eduardo Pereira.
Hanói, enfim, é o Shangri-la de David. Mas pode ser o reinício da vida para Alex. De qualquer forma, é um livro escrito com delicadeza.