3,5*
Depois de os meus olhos terem sido bonitos, hão-de encher-se de sombras como todos os olhos.
Pela quase ausência de narração, “O Jardim – Le Square” foi também levado a cena, como acontece com várias obras de Marguerite Duras fortemente apoiadas em diálogos, a parte que menos me entusiasma num livro, mas que, ainda assim, atinge a intensidade típica da autora, sobretudo na terceira parte.
Fazemos aquilo que podemos, no fundo, a menina com a sua coragem, eu com a minha cobardia, isso é que é importante.
Sentados num banco de jardim estão uma jovem “criada para todo o serviço” e um homem mais velho que é caixeiro-viajante, dois estranhos que entabulam uma conversa que começa por ser de circunstância e acaba por atingir uma dimensão bastante filosófica, deixando evidente a dicotomia que encarnam.
O homem conformado com o pouco que tem, vive no presente, aproveitando as pequenas coisas que dão alento no dia-a-dia, enquanto a rapariga quer mais do que trabalhar para sobreviver e vive com os olhos postos no futuro, na esperança de arranjar um marido que a resgate da situação de exploração laboral em que se encontra.
Não é essa mudança que eu quero, viajar, ver cidades à beira-mar. Para começar, a mudança que eu quero é pertencer a mim própria, começar a ter qualquer coisa que me pertença, objectos que mesmo não sendo muito importantes sejam meus, um lugar meu, um quarto, só, mas que seja meu. Às vezes, olhe, ponho-me a sonhar com um fogão de gás.
Mais de 30 após a sua publicação, Duras escreveu um breve prólogo onde diz que é “a identidade da morte” o que une esta massa humana anónima com empregos indiferenciados e salários ligeiramente acima do limite de pobreza e que o que aproxima os seus membros é falar da infelicidade comum de maneira a combater a solidão.
- Sim, é verdade que vamos os dois cair no silêncio. Aliás é como se isso já tivesse acontecido.
- Mais ninguém me vai dirigir a palavra esta noite. E vou deitar-me assim, sempre no meio do silêncio. Tenho 20 anos. O que fiz eu ao mundo para isto ser assim?
- Nada, menina, não tente perceber dessa maneira. Em vez disso veja que é o que a menina vai fazer ao mundo. Sim, se calhar nunca se devia falar. Logo que falamos é como se retomássemos um hábito delicioso que tínhamos abandonado. Mesmo que esse hábito nunca tivesse existido.
- É verdade, sim, como se soubéssemos como é o prazer de falar. Deve ser uma coisa muito natural, para ser assim tão forte.
- Ouvir alguém que se dirige a nós é uma coisa que não é menos natural nem tem menos força.