”Meu Pierre, a vida é atroz sem ti, é uma angústia sem nome, um desamparo sem fundo, uma desolação sem limites.”
”...os momentos de calma são raros e tenho sobretudo este sentimento obsessivo de desamparo, com instantes de angústia, e também uma inquietação e, ás vezes, a ridícula ideia de que tudo isto é uma ilusão e de que vais voltar.”
Aceitar esta ideia tão assombrosa, tão inacreditável, tão ridícula, de não voltar a ver alguém que se considerava perdurável ao nosso lado, será o primeiro desafio a enfrentar após a morte dos que amamos.
Rosa Montero, escreveu este livro maravilhoso; duro e cruel porque o tema a isso obriga, mas de grande sensibilidade e emoção. Nele pôs Pierre e Marie Curie, mas também a sua própria vida e desgosto de viúva, e puxa-nos a nós, leitores, para este universo que, ou já experienciamos, ou vivemos no receio de conhecer.
A polaca Manya Sklodowska, foi uma pioneira absoluta mas teve que derrubar muitos muros à cabeçada. Em conjunto com o marido, Pierre Curie, mudou as páginas da ciência para sempre. Só o seu percurso de vida, já seria razão suficiente para ler este livro. Mas, este tratado sobre a morte e o desgosto, vai mais além, porque ao levar-nos a enfrentar a morte, força-nos a encarar a vida e a refletir sobre as nossas relações com os outros, a perceber que ser feliz é uma sabedoria complicada , e que muito depende de cada um de nós para uma boa relação com quem nos é próximo e desse relacionamento dependerá também a forma como um dia iremos sentir a morte e a falta dessa(s) pessoa(s).
Marie Curie, viria a falecer aos 64 anos com a aparência de 80 ou 90. Recebeu dois prémios Nobel: Física em 1903 e Química em 1911, além de um número substancial de outros prémios e honrarias. Foi também discriminada, insultada e humilhada, pela sua condição de mulher. O desgosto pela perda do marido quase a venceu, valeu-se do trabalho como bálsamo e terminou os dias vencida pela doença, como uma velhinha acabada. Um corpo traidor: mas, também, um pobre corpo maltratado e submetido a uma radioatividade brutal durante tantos anos. Deixou um inestimável legado cientifico à humanidade, sem nunca ter tido objetivos económicos como incentivo.
”De mútuo acordo, renunciámos a qualquer proveito material da nossa descoberta; daí não termos patenteado nada e termos publicado, sem reservas, todos os resultados das nossas investigações…”